20.02.2026 | 10h23
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“A terra, o teto e o trabalho são direitos sagrados pelos quais vale a pena lutar”, Papa Leão XIV, em audiência no dia 23/10/2025, na Sala Paulo VI, no Vaticano, com os participantes do 5º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, Fonte CEPAST CNBB.
Na elaboração do texto-base da Campanha da Fraternidade de 2026, como há anos tem acontecido, a CNBB utiliza o MÉTODO DA IGREJA: VER, JULGAR/ILUMINAR E AGIR, como etapas de um processo sociotransformador em que os verdadeiros cristãos devem estar comprometidos, principalmente tendo em vista a realidade dos pobres e excluídos e das periferias do Brasil, por quem a Igreja faz opção preferencial.
Assim, não basta vermos, conhecermos a realidade e, simplesmente, “passarmos ao largo”, conforme o contexto da Parábola do Bom Samaritano, esquecendo os preceitos deixados por Cristo, conforme consta dos Evangelhos; é preciso, também, interpretar esta realidade à luz das Escrituras Sagradas, principalmente dos Evangelhos e dos Livros dos PROFETAS; afinal, a Igreja, desde o seu surgimento há milênios, mas de forma mais enfática desde o Concílio Vaticano II (1962–1965), fez a chamada OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES — não apenas uma opção de palavras ou rituais, mas sim uma OPÇÃO de estar junto dos pobres e lutar com eles.
As reflexões que surgem tanto no VER quanto no JULGAR/ILUMINAR, ao colocarmos luz sobre a realidade da falta de moradia popular digna, devem ir às raízes dos problemas e desafios; enfim, das causas estruturais que causam a exclusão, a pobreza, a fome, a miséria, a violência e os preconceitos de toda ordem.
O Papa Leão nos exorta, como cristãos e católicos, que: “Não podemos mais tolerar injustiças estruturais pelas quais quem tem mais, tem sempre mais, e vice-versa, quem tem menos, empobrece cada vez mais”, na introdução inédita do seu novo livro A força do Evangelho. A fé cristã em 10 palavras (Vaticano News).
Só então podemos passar à etapa do AGIR, que deve incidir sobre essas causas, buscando construir uma nova realidade, como se diz: “um mundo novo”, uma “terra sem males”, do Bem Viver, do Bem Comum, onde as injustiças, a destruição socioambiental, a ganância, as desigualdades gritantes e a exploração dos que estão em situação de vulnerabilidade sejam “coisas” do passado.
Para tanto, nesta Campanha da Fraternidade, como em todas as demais que ocorreram ao longo de mais de 60 anos, é fundamental, imprescindível e necessário que passemos das palavras e das reflexões para a AÇÃO, pois somente as ações que “mexem” com as estruturas podem promover mudanças sociotransformadoras de fato.
Neste sentido, o Texto-Base destaca e nos sugere diferentes tipos/formas de agirmos: 1) Agir pessoal e educativo; 2) Agir comunitário, sociopolítico; 3) o AGIR ECLESIAL PROFÉTICO e 4) o AGIR DOS POBRES, o AGIR CONCRETO.
Uma das formas deste AGIR CONCRETO constante do Texto-Base está diretamente relacionada com a AÇÃO ECLESIAL, que envolve a hierarquia eclesial e também a participação de leigos e leigas. Constante do item 173, Ação Eclesial, letra “f”, sugere-nos: “Incentivar e promover a PASTORAL DA MORADIA E FAVELA em todas as Arquidioceses, Dioceses e Prelazias (e, claro, em todas as Paróquias que integram esses territórios eclesiásticos), como COMPROMISSO PROFÉTICO E EVANGELIZADOR junto aos mais pobres, os mais fragilizados no direito à moradia digna e direito à cidade...” e, também, a letra “g” sugere-nos: “fortalecer as pastorais sociais com atuações diretas junto às pessoas e às realidades das periferias, em vista da superação da Exclusão...”.
Esta última recomendação nos indica que devemos propugnar por uma pastoral de conjunto, dinâmica, com a integração das diferentes pastorais existentes em cada território eclesiástico e, também, nos coloca o desafio de organizar a Pastoral da Moradia e Favela, para que as ações voltadas para a luta por moradia popular digna sejam feitas ao longo de 2026 e pelos anos seguintes.
Só assim podemos agir com os pobres e ao lado, juntos dos pobres, que são milhões de famílias no Brasil e dezenas de milhares em Mato Grosso que não têm acesso à moradia digna e nem gozam do direito à cidade.
Assim, para que a Campanha da Fraternidade não termine, como quase sempre, na Coleta Nacional da Solidariedade — que ocorre no Domingo de Ramos, neste ano (2026) em 29 de março próximo —, como aconteceu com a de 1993, que teve como objeto o mesmo tema da moradia, o AGIR possa ser contínuo e permanente. Tendo em vista que a exclusão, a pobreza e a falta de moradia popular digna é uma realidade complexa que “vem de longe”, decorrente das estruturas sociais, políticas e econômicas excludentes, e representa um dos maiores desafios da realidade brasileira, é fundamental que a PASTORAL DA MORADIA E FAVELA, conforme tem sido estimulada pela CNBB, principalmente pelo seu Bispo Referencial e seu Coordenador Geral, seja organizada e, assim, possa articular as ações em prol de MORADIA DIGNA em um contexto de DIREITO À CIDADE, tanto na Arquidiocese de Cuiabá quanto em todas as demais Dioceses existentes em Mato Grosso, envolvendo não apenas a construção de unidades habitacionais, mas também regularização fundiária, assistência técnica de interesse social (ATHIS), bem como as questões do saneamento básico, urbanismo, arborização, iluminação pública e residencial, uso e ocupação do solo urbano e rural, saúde, educação, meio ambiente, trabalho, lazer, acesso à água tratada e os demais serviços e equipamentos urbanos ainda ausentes e que afetam mais de 100 milhões de pessoas no Brasil; e Mato Grosso faz parte desta triste realidade.
Enfim, a mobilização profética nos estimula a lutar por políticas públicas voltadas para os desafios tanto da moradia digna quanto de uma melhor qualidade de vida para os pobres e excluídos que existem tanto no Brasil quanto em Mato Grosso.
Para continuar a luta por MORADIA POPULAR DIGNA, não basta seguirmos apenas os dois passos iniciais do Método da Igreja: VER e JULGAR/ILUMINAR; precisamos dar um passo a mais, que é o AGIR, e neste agir a presença da Pastoral da Moradia e Favela é fundamental.
A morosidade, a omissão ou o medo de agir apenas reforçam a realidade atual e todas as formas de exclusão que geram pobreza, fome, violência e sofrimento, realidade do cotidiano da população pobre e excluída, que vive e sobrevive nas periferias urbanas e rurais deste imenso Brasil.
Nesta Quarta-feira de Cinzas, 18 de fevereiro de 2026, em todas as Arquidioceses, Dioceses, Prelazias e Paróquias do Brasil, estará sendo lançada oficialmente a Campanha da Fraternidade. Teremos todo o tempo da Quaresma para refletirmos sobre esta triste realidade da falta de moradia popular digna, que contribui para que os pobres continuem cada dia mais pobres, em meio a um Brasil com altíssima concentração de renda, riqueza, privilégios e propriedade, e um grande fosso de desigualdade social, cujo reflexo imediato é a situação habitacional em nosso país.
Finalizando, transcrevo um trecho de artigo de autoria de Guilherme Coutinho, publicado no site Franciscanos, da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (OFM), em 12/02/2026, que nos aponta um rumo a seguir, principalmente quando estamos dispostos a AGIR: “A Campanha da Fraternidade ajuda a despertar essa consciência de uma espiritualidade que gera compromisso. A experiência quaresmal não é um tempo de passividade, mas de indignação diante do sofrimento humano; nesse cenário, seguir Jesus significa assumir o lado dos empobrecidos, questionar as estruturas excludentes e transformar a oração em compromisso com a vida”.
Sem este AGIR engajado, ao lado e com os pobres e excluídos, que tem sido a base da Pastoral da Moradia e Favela, “como consequência, a fé muitas vezes é reduzida a uma busca utilitarista por soluções imediatas (acrescento: assistencialistas, paternalistas e manipuladoras), perdendo seu caráter libertador”.
Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral Região Centro-Oeste.
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