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18.06.2026 | 10h02

O ar que nos une é o mesmo que nos pune; a ilusão das queimadas invisíveis

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Jane Zanetti

Artigo

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Todo ano, quando o azul do céu de Mato Grosso começa a dar lugar ao cinza opaco da poeira e da fuligem, uma espécie de amnésia coletiva se dissipa. De repente, lembramo-nos de que a seca chegou. Os telejornais repetem os mesmos gráficos, as autoridades emitem os mesmos alertas e nós, nas redes sociais, lamentamos os mesmos cenários. Parece que tudo já foi dito. Mas a verdade é que continuamos olhando para o fogo pelo lado errado da janela.

 

Tratamos as queimadas rurais e os incêndios urbanos como se fossem eventos isolados: o "campo que queima" lá longe e o "lote baldio do vizinho" aqui perto. É uma ilusão de ótica perigosa. O fogo não respeita cercas, divisas ou perímetros urbanos. A fumaça que sufoca a biodiversidade no Cerrado ou no Pantanal é a mesma que entra pela fresta do ar-condicionado nos condomínios fechados das grandes cidades. O ar é o elemento mais democrático que existe: ele não pede passaporte e não escolhe classe social. Quando o chão queima, todos nós respiramos o mesmo veneno.

 

Existe um prejuízo silencioso que os números de focos de calor não conseguem mensurar: o colapso dos pequenos mundos. Na área rural, a perda não é apenas da pastagem ou da floresta; é a destruição da biologia profunda do solo, dos micro-organismos que garantem a vida e da fauna invisível que não consegue correr. Pensamos nas grandes espécies, mas esquecemos dos ninhos de pássaros canoros que viram cinza em segundos, dos pequenos mamíferos e anfíbios cujo ecossistema inteiro media poucos metros quadrados.

 

Nas cidades, o cenário é ainda mais cruel pela sua previsibilidade. O incêndio urbano raramente é um acidente; ele nasce da cultura do "limpar com fogo", da preguiça fantasiada de praticidade. Atear fogo em um terreno com lixo e mato seco é um ato de violência sanitária. As partículas ultrafinas geradas por essa queima (o chamado material particulado) são tão minúsculas que ultrapassam as defesas naturais do nosso sistema respiratório e caem direto na corrente sanguínea.

 

Não estamos falando apenas de "tosse e olho vermelho". Estamos falando de um gatilho direto para infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e crises severas de ansiedade causadas pela privação do sono e pelo desconforto respiratório. Enquanto alguém acende um fósforo para "limpar o quintal", uma criança em algum lugar da mesma quadra usa a bombinha de asma para conseguir puxar o ar, e um idoso vê sua saúde cardíaca declinar silenciosamente.

 

Os animais domésticos e comunitários são as vítimas esquecidas desse ciclo. Cães e gatos, que possuem o sistema olfativo infinitamente mais sensível que o nosso, sofrem em silêncio. Eles não sabem por que seus olhos ardem, por que a garganta seca ou por que o ar parece queimar por dentro. Eles dependem do nosso discernimento, o mesmo que falha miseravelmente a cada fósforo riscado.

 

A Fundação Jane Zanetti tem o propósito de lembrar que a saúde humana, a saúde animal e a saúde ambiental são uma única coisa, o que a ciência hoje chama de Saúde Única. Não haverá hospitais suficientes para tratar nossos pulmões se não pararmos de tratar o solo como cinza. Não haverá dignidade para os animais se tolerarmos que o fogo seja a resposta para a nossa falta de gestão urbana.

 

Precisamos parar de tratar as queimadas como um fenômeno meteorológico inevitável do meio do ano. O fogo tem autoria. Tem CPF. E, acima de tudo, tem consequências que duram muito mais tempo do que a fumaça que vemos na atmosfera. Romper com a amnésia das queimadas é um dever de sobrevivência. Afinal, a próxima faísca pode ser aquela que vai apagar o fôlego de quem você mais ama.

 

Jane Zanetti é empresária, presidente da Fundação Jane Zanetti, advogada, há 20 anos atua na causa animal e ambiental.

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