11.05.2026 | 11h57
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Quase, mas quase, quase, quase, derrubei o café fervendo no colo de minha primeira analisanda do dia hoje. Teria sido uma tragédia. Primeiro porque adoro minha primeira analisanda do dia hoje e se queimar alguém que a gente tem horror já é péssimo, imagina queimar alguém de quem a gente gosta. Depois que ela estava com uma blusa de cashmere branca mais branca que a roupa mais branca do comercial do OMO. Eu sentiria uma culpa gigante, tão gigante quanto a raiva e o susto que a bichinha ia sentir. Não derrubei.
Tomou café e a gente deu risada do quase acidente. Ela mais do que eu. Aí seguiu falando, trouxe uma situação do escritório. A chefe pediu que desse conta de uma tarefa que não é de sua responsabilidade "foge de meu escopo de trabalho". Essa palavra escopo é tão feia, né? Mas, enfim, a tarefa fugia do seu escopo do trabalho. Ela não queria fazer, naturalmente. Nenhuma outra tarefa foi retirada pra substituir e justificar o acréscimo. Assim como nenhum acréscimo, fosse da natureza que fosse (e aqui falávamos especificamente de uma natureza "faz-me rir", um dinheirinho extra) foi mencionado. Não queria fazer, mas fez. "Claro, pode me passar".
E depois saiu fantasiando como seria dizer à chefe tudo que gostaria em relação a esse pedido. E se empolgava, “em relação a esse pedido não, em relação à própria relação”. Aquele dia e aquele outro. Esse jeito de mascar o chiclete com a boca aberta, o cheiro de cigarro e café dormido em dentes saudosos de fio, escova, pasta e Listerine. "Sim, pelo amor de Deus, Listerine".
E apoiava a xícara na mesa e depois pegava a xícara de novo e pediu mais café e eu liguei a máquina, e gesticulava, e eu lhe passei uma outra xícara, e subia a voz, e apoiava a xícara meio mal apoiada, e os telefonemas fora do horário de expediente, e aquela saia horrorosa e o barulho do salto, mais gole, mais apoio, píres e xícara, mais reclamação, “e eu esfregaria a cara dela no asfalto” e… Minha gente, eu vi a hora a blusa de cashmere ter mesmo que marcar encontro com o OMO quiçá com um Vanish.Deu tudo certo. Mas passei o dia pensando no condicional da vida: e se eu tivesse derrubado o café? E se ela dissesse mesmo tudo o que queria para a chefe? E se as pessoas fossem mais amigas do fio-dental?
Já ouvi muitas vezes comentários de desprezo ao “e se". Aqui de minha parte, gosto muito dele. No exercício de imaginar uma vida que não foi, a gente pode acabar encontrando uma possibilidade de uma que será. Será? É nesses vislumbres que podemos encontrar - quem sabe - um futuro outro, não é? Pensemos. Beijo grande, queridos.
Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
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