Publicidade

Cuiabá, Sexta-feira 10/07/2020

Colunas e artigos - A | + A

03.06.2020 | 11h36

Por que a palavra da mulher não tem valor nas delegacias

Facebook Print google plus

Haveny Metello Taques

Recentemente tivemos divulgado na imprensa nacional um caso bem polêmico de violência doméstica que envolve o presidente da ordem dos advogados da OAB de Mato Grosso e sua esposa.

 

A vítima não bastasse toda a complexidade da situação ainda teve que se sujeitar a um mau tratamento na delegacia e inconformada com a situação ocorrida chegou a desabafar em um jornal local:“Eu cheguei à delegacia ele estava com os dois celulares na mão falando com a OAB como se não tivesse preso, pedindo ajuda como se ele fosse a vítima da história. Aquilo me chocou muito. Os agentes estavam parciais, mas a gente é louca, né!? Elepreso usando telefone, onde já se viu? Mandaram eu baixar o tom de voz, como se eu fosse a culpada".

 

Por que motivos uma mulher não pode ser digna de crédito quando ela procura uma delegacia e diz que foi violentada?Por que essa desconfiança deliberada em relação à palavra da mulher? Como se ela procurasse a delegacia nesses casos com a intenção de prejudicar um inocente.Contudo eu posso afirmar que essa é uma das principais queixas das mulheres que procuram as Delegacias: parte-se do pressuposto de que estão mentindo.

 

No Brasil existem outras 76 mil mulheres que sofreram agressões ou ameaças por parte de parceiros ou ex-parceiros e buscaram ajuda em 2015 segundo dados da Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal. E, para essas mulheres, a Delegacia da Mulher representa a porta de entrada em uma rede de apoio que a ajuda a sair da situação de violência. Com equipes majoritariamente femininas, ela tem a função de acolher a mulher de maneira humanitária e não preconceituosa, garantir sua proteção, investigar a denúncia e encaminhar a mulher, dependendo do caso, para o sistema de Justiça, casas abrigo, hospitais, assistentes sociais e outros órgãos que possam dar suporte na quebra do ciclo da violência doméstica. Mas apesar do seu objetivo nobre, nem tudo funciona perfeitamente nelas: mal atendimento, machismo institucional e falta de estrutura são alguns dos problemas que existem.

 

Vale ressaltar que o papel da polícia é investigar e não julgar. Aceitar que a denúncia pode ser verdadeira e investigá-la, para que, então, o Judiciário possa julgar o mérito. O que vejo no acompanhamento das mulheres, nesses casos, é que nas delegacias o excesso de zelo em verificar a coerência da história da mulher, na verdade, representa mais uma forma de violência, o discurso da vítima tende a ser entrecortado, até aparentemente incoerente, com lapsos de memória. Isso é muito comum, isso é próprio do pós-trauma. Mas, muitas vezes, esse agente público, que não tem essa capacitação sobre a perspectiva de gênero, tende a desacreditar, fazer questionamentos de forma exaustiva e revitimizar essas mulheres. É cobrado delas um excesso de coerência em detalhes, dificílimos de fornecer.

 

A solução seria contar com uma equipe multidisciplinar nas delegacias, não só para atendimento, mas também para investigação. Existem indicadores de violência que são psicológicos, emocionais, que podem ser verificados por psicólogos preparados para tanto e que, sim, devem servir de prova na Justiça.

 

O principal motivo para que as mulheres continuem presas a parceiros violentos é a dependência emocional e financeira. Portanto, oferecer apoio psicológico, para que recupere sua autoestima e supere os vínculos com o agressor, e assistência social, para que possa se inserir no mercado de trabalho e encontrar alternativas para sustento dos filhos e de moradia, são essenciais para que elas saiam da situação de violência.

 

Haveny Metello Taques é advogada e membro da Comissão Estadual da Mulher da OAB-MT.

Voltar Imprimir

Publicidade

Comentários

Enquete

Governo federal está liberando R$ 1.045 do FGTS por trabalhador para movimentar a economia. O que você fará com o benefício?

Parcial

Edição digital

Sexta-feira, 10/07/2020

imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
imagem

Publicidade

btn-4

Indicadores

Milho Disponível R$ 21,65 2,36%

Algodão R$ 93,09 -0,03%

Boi a Vista R$ 137,23 -0,56%

Soja Disponível R$ 69,60 0,87%

Publicidade

Classi fácil
btn-loja-virtual

Publicidade

Mais lidas

Publicidade

O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados, Gráfica Millenium e o Portal Gazeta Digital.

Copyright© 2020 - Gazeta Digital - Todos os direitos reservados Logo Trinix Internet

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.