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28.03.2025 | 10h48

Recuo no Green Deal Europeu e os impactos no agronegócio brasileiro

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Roberto Araújo

Divulgação

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As mudanças na política ambiental e agrícola da União Europeia (UE), anunciadas em fevereiro de 2025, tiveram repercussões significativas no agronegócio global, especialmente para o Brasil, um dos principais fornecedores de produtos agropecuários para o bloco europeu. Em resposta aos intensos protestos dos agricultores, a UE recuou na implementação da estratégia Farm to Fork (Do Campo à Mesa) e flexibilizou diversos aspectos do Green Deal (Acordo Verde Europeu). Essas decisões não apenas frustraram ambientalistas e políticos populistas verdes, mas também abriram novas oportunidades para o setor agroexportador brasileiro, que vinha enfrentando barreiras cada vez mais rígidas.

 

Além da pressão exercida pelos agricultores europeus, a mudança de postura da Comissão Europeia também foi influenciada pelo novo governo de Donald Trump nos Estados Unidos. Com uma agenda abertamente protecionista e cética em relação às políticas climáticas globais, Trump retirou novamente os EUA do Acordo de Paris e reimpôs tarifas sobre produtos agrícolas e industriais europeus e chineses, reacendendo uma guerra tarifária que impactou diretamente a UE e o Brasil.

 

O que mudou na política ambiental e agrícola da UE?

 

O Green Deal, lançado em 2019, estabelecia metas ambiciosas para tornar a Europa neutra em carbono até 2050. Já a estratégia Farm to Fork, apresentada em maio de 2020, buscava tornar os sistemas alimentares mais justos, saudáveis e sustentáveis. No setor agrícola, isso significava reduzir o uso de pesticidas e fertilizantes, expandir a agricultura orgânica e impor critérios rigorosos para a importação de produtos agropecuários.

 

No entanto, os protestos massivos de agricultores europeus entre 2023 e 2024, aliados aos impactos da Covid-19, à guerra na Ucrânia, à alta inflação e, mais recentemente, à guerra tarifária iniciada pelos EUA sob Trump, forçaram a Comissão Europeia a revisar essas políticas. Entre as mudanças anunciadas, destacam-se:

Cancelamento da meta de reduzir o uso de pesticidas em 50% até 2030;
Retirada completa do Regulamento de Uso Sustentável de Pesticidas, proposto em 2022 e abandonado em 2024;
Flexibilização das exigências ambientais para concessão de subsídios agrícolas na UE;
Fim da obrigatoriedade de rótulos ambientais nos alimentos, substituindo-os por selos de origem e bem-estar animal;
Relaxamento de regras que limitavam o uso de terras agrícolas dentro da UE;
Critérios mais flexíveis para importação de produtos agropecuários, reduzindo exigências ambientais e sanitárias.
Essas mudanças indicam uma priorização da segurança alimentar em detrimento de metas ambientais mais rigorosas, trazendo impactos diretos para países exportadores como o Brasil.

 

Impactos no agronegócio brasileiro

Para o Brasil, esse novo cenário pode significar menos barreiras comerciais e maior competitividade no mercado europeu. A UE é um dos principais destinos das exportações brasileiras de soja, café, celulose, suco de laranja e carnes, mas as exigências ambientais crescentes vinham dificultando a manutenção e a ampliação desse comércio.

 

Com a flexibilização dos requisitos de sustentabilidade e rastreabilidade, produtores brasileiros terão mais tempo para se adaptar às novas exigências, sem precisar cumprir imediatamente as normas mais rígidas que estavam previstas no Green Deal.

 

Além disso, a revogação da meta de redução de pesticidas e o afrouxamento das regras de uso do solo dentro da própria Europa podem reduzir a pressão sobre os importadores europeus, que antes exigiam certificações ambientais mais severas dos fornecedores estrangeiros. Isso pode beneficiar produtores brasileiros que ainda não implementaram certificações ambientais ou mecanismos para assegurar a origem sustentável da produção.

 

Outro impacto relevante é a valorização do agronegócio brasileiro em relação ao europeu. Com menos subsídios vinculados a práticas ambientais, os agricultores europeus podem perder competitividade frente a fornecedores externos, levando ao aumento das importações de alimentos de países como o Brasil.

 

A COP30, que ocorrerá em Belém (PA) de 10 a 21 de novembro de 2025, será uma oportunidade para o Brasil destacar avanços em tecnologias e práticas sustentáveis, como:

 

Plantio Direto (PD);
Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN);
Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF);
Aumento do uso de bioinsumos;
Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIPD).
Além disso, o Plano ABC+ (Plano Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) e os programas de baixo carbono da Embrapa, voltados para a produção sustentável de soja, trigo, milho, sorgo, leite e carne, a implementação do Código Florestal Brasileiro e o combate ao desmatamento ilegal, serão peças-chave para reforçar o compromisso do Brasil com a sustentabilidade.

 

Impactos da nova política de Trump na UE e no Brasil

A nova administração de Donald Trump trouxe mudanças drásticas na política comercial e climática global, impactando diretamente a UE e o Brasil.

 

1. Saída dos EUA do Acordo de Paris (2025)

Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, alegando que as metas climáticas prejudicam a economia americana.
Isso enfraqueceu a posição da UE como líder na agenda ambiental.
A UE foi forçada a reavaliar suas políticas, priorizando a segurança alimentar e a competitividade agrícola.
2. Guerra tarifária com a UE, China e outros países

 

As tarifas impostas sobre produtos agrícolas europeus levaram a UE a afrouxar exigências ambientais e aumentar subsídios para proteger seus agricultores.


A retaliação da UE contra os EUA criou distorções comerciais, tornando produtos de terceiros países, como o Brasil, mais atraentes.


O Brasil, especialmente nos setores de soja e carnes, pode se beneficiar com a crescente demanda da China, que busca alternativas aos produtos americanos.


Frustração dos ambientalistas e políticos verdes

 

O recuo da UE foi duramente criticado por ambientalistas e partidos verdes europeus, que viam o Green Deal como um modelo global de sustentabilidade. Organizações ambientalistas alegam que o bloco está cedendo às pressões da indústria e dos agricultores, colocando em risco as metas climáticas.

 

Além disso, políticos verdes enfrentam um dilema: defender os agricultores europeus, que foram responsáveis pelos protestos e mudanças na política, ou insistir em uma agenda ambientalista, que pode prejudicar a segurança alimentar e a competitividade do agronegócio europeu.

 

Conclusão

As mudanças na política agrícola e ambiental da União Europeia representam um alívio para o agronegócio brasileiro, que vê uma redução das barreiras comerciais e ambientais impostas pelo bloco. No entanto, ambientalistas e políticos verdes enfrentam uma crise de credibilidade, pois metas rigorosas de sustentabilidade foram flexibilizadas em prol da segurança alimentar e da competitividade agrícola.

 

A política protecionista dos EUA sob Trump enfraqueceu o Acordo de Paris e desestabilizou as relações comerciais globais, levando a UE a recuar e repensar suas estratégias ambientais.

 

O Brasil, como grande player do agronegócio global, pode aproveitar essa nova conjuntura para expandir seu comércio com a Europa e consolidar suas relações com a China e outros países, reforçando sua posição como um líder na produção agropecuária sustentável.

 

Roberto Araújo é engenheiro agrônomo, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), mestre em Agronegócios e pós-graduado em Engenharia de Irrigação e Proteção de Plantas

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