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criança sangrava pela boca e nariz 24.03.2026 | 16h13

Pais acusados por morte de bebê apresentam contradições e frieza em depoimento

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Josi Dias/TJMT

Josi Dias/TJMT

Começou na manhã desta terça-feira (24) o julgamento do casal Talita Canavarros Soares e Francinaldo José de Araújo Silva, acusado de matar o próprio filho, um bebê de apenas um mês e 9 dias, em Barra do Bugres (168 km a Médio-Norte). O crime ocorreu em janeiro de 2021 e a vítima foi encontrada sem vida, com sangramento na boca e nariz. O marido culpou a esposa pela queda que resultou na morte, mas ambos apresentaram versões divergentes sobre a noite dos fatos.

 

Os réus respondem por homicídio qualificado e fraude processual. A sessão é conduzida pelo juiz Lawrence Pereira Midon e integra o programa Mais Júri, da Corregedoria-Geral da Justiça de Mato Grosso.

 

Logo no início da audiência, a Defensoria Pública declinou da atuação no caso. Foram então nomeados os advogados Anderson Amaral, responsável pela defesa de Talita, e Glaucio Araújo Souza, que representa Francinaldo. Em seguida, foi formado o Conselho de Sentença, composto por cinco mulheres e dois homens.

 

Entre os primeiros depoimentos, a policial civil Adriana Oenning, que participou da investigação, afirmou em juízo que o comportamento dos pais no momento do atendimento chamou a atenção da equipe. Segundo ela, houve frieza por parte da mãe e diversas contradições nas versões apresentadas pelo casal ainda na cena do crime.

 

“A postura deles foi algo que nos chamou muito a atenção. Não havia desespero, não havia reação compatível com a situação. Nenhuma versão se sustentava”, declarou.

 

A testemunha relatou que, inicialmente, os pais disseram que poderiam ter rolado sobre o bebê enquanto dormiam. Em outros momentos, afirmaram que a criança teria caído da cama, sido asfixiada ou que não sabiam o que havia ocorrido.

 

“Cada hora era uma história diferente. Primeiro falaram em asfixia, depois queda, depois disseram que não sabiam. Isso dificultou muito entender o que de fato aconteceu”, afirmou.

 

Durante o depoimento, também foi mencionado que manchas semelhantes a sangue foram encontradas na varanda da residência, com indícios de que o local teria sido lavado.

 

“O que encontramos na varanda indicava uma tentativa de limpeza. As marcas eram compatíveis com a cabeça da criança”, disse a policial.

 

Segundo a testemunha, a equipe médica que atendeu a ocorrência identificou múltiplas lesões no crânio do bebê, incompatíveis com queda acidental ou asfixia, levantando a suspeita de agressão violenta.

 

“Os profissionais de saúde foram claros ao apontar que as lesões não eram compatíveis com uma queda simples. Havia indícios de violência mais grave”, pontuou.

 

Durante a instrução, a defesa questionou pontos do depoimento, especialmente a ausência de confirmação por exame de DNA das manchas de sangue e a inclusão de informações que, segundo os advogados, não estariam detalhadas nos autos. O magistrado ressaltou que eventuais contradições e teses deverão ser aprofundadas na fase de debates.

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Ainda no julgamento, a investigação apontou que os pais não acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e que, no dia dos fatos, teriam consumido bebida alcoólica por horas antes de deixar a criança sem os cuidados necessários.

“Não houve acionamento imediato de socorro. Isso também foi um ponto que chamou a atenção durante toda a apuração”, destacou a testemunha.

 

Há ainda relatos colhidos durante a investigação de possíveis maus-tratos e de que o bebê chorava com frequência.

“Existiam informações de que a criança chorava muito e que havia um ambiente de instabilidade dentro da residência”, acrescentou.

Familiares de Talita foram ouvidos como informantes. Marinalva Nunes Canavarros, mãe da ré, confirmou que a filha fazia uso constante de álcool e se tornava agressiva sob o efeito da substância.


Já a irmã de Talita, Adriane Rosi, relatou que o casal já havia deixado o bebê cair anteriormente, quando a criança tinha apenas cinco dias de vida, durante um episódio em que bebiam em um bar. Ela também confirmou que a irmã ficava "agressiva, xingando e ameaçando pessoas" quando embriagada.

A retomada da sessão no período da tarde foi marcada pelos interrogatórios dos réus, nos quais a estratégia de defesa de Francinaldo José da Silva e Talita Canavarros Soares apresentou divergências nítidas. Francinaldo, em um depoimento carregado de emoção e interrupções por choro, sustentou a tese de que houve uma queda acidental na varanda por volta das 23h do dia 1º de janeiro. Ele admitiu uma parcela de culpa pela omissão de socorro, declarando que "deveria ter chamado o Samu", mas negou veementemente qualquer agressão direta. O réu chegou a insinuar que Talita, sob efeito de álcool, poderia ter arremessado a criança, embora tenha admitido não ter presenciado tal cena.

 

Por outro lado, Talita Canavarros Soares assumiu a responsabilidade pela queda do bebê, afirmando que o derrubou devido ao seu estado avançado de embriaguez. "Passei esses anos todos tentando me perdoar", declarou a ré, que negou qualquer intenção de ferir o filho e descreveu Francinaldo como um "marido excelente" que cuidava bem da criança. Diferente do companheiro, Talita manteve uma postura contida, justificando sua falta de lágrimas durante o processo como uma característica de sua personalidade "dura", moldada por uma infância difícil. Ela afirmou que só percebeu a gravidade da situação na manhã seguinte, quando foi despertada por Francinaldo com a notícia de que o bebê estava morto.

 

As contradições, contudo, persistiram quanto à dinâmica daquela noite. Enquanto Francinaldo afirmou que Talita tomou banho e saiu de casa logo após a constatação do óbito, mesmo com a presença das autoridades, a ré alegou que recebeu autorização para deixar a residência. Além disso, ambos divergiram sobre quem teria dormido primeiro e sobre a origem das manchas de sangue encontradas na varanda. Enquanto a acusação confrontou os réus com os laudos que apontam lesões brutais e incompatíveis com uma queda simples, ambos mantiveram a narrativa de que o álcool obscureceu o discernimento daquela noite, culminando na tragédia que agora aguarda o veredito do Conselho de Sentença.

 

O crime

De acordo com a denúncia do Ministério Público, o crime ocorreu na manhã de 2 de janeiro de 2021, na casa do casal. O bebê foi encontrado já sem vida, com sangramento no nariz e na boca. Laudo de necrópsia apontou traumatismo craniano, seguido de hemorragia e convulsão, como causa da morte.

 

O órgão ministerial sustenta que os pais causaram as lesões que levaram à morte da criança e, posteriormente, teriam manipulado a cena para dificultar a apuração. Por isso, ambos respondem por homicídio qualificado, por meio que dificultou a defesa da vítima, além de fraude processual.

 

Segundo a acusação, após as agressões, o bebê teria sido deixado sobre a cama enquanto os pais dormiam, o que contribuiu para o agravamento do quadro clínico e a morte.

 

O julgamento está na fase de debates entre acusação e defesa. O Conselho de Sentença será responsável por decidir o destino dos réus.

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