LAÇO ETERNO 10.05.2026 | 12h03

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MONTAGEM/ACERVO PESSOAL
A maternidade nem sempre começa no corpo. Às vezes, nasce primeiro no desejo, amadurece na espera, atravessa processos, documentos, medos e encontros, até chegar ao colo. A adoção é uma das formas mais profundas de constituição familiar: nela, o vínculo não se mede pelo sangue, mas pela escolha diária de amar, cuidar e permanecer.
Neste domingo, 10 de maio, Dia das Mães, histórias como as de Jaqueline Freire e Fernanda Leite Camilo Barreto lembram que mães podem gestar ou não. Podem esperar 9 meses, anos, uma ligação, uma sentença ou o primeiro “mãe” dito por uma criança. O que as torna mães, no entanto, é o mesmo gesto essencial: acolher uma vida como parte inseparável da sua.
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Jaqueline: filha pela adoção, mãe pela escolha
Jaqueline Freire, 35 anos, é mãe de Jorge Eduardo. Para ela, a adoção sempre fez parte da vida. Antes de ser mãe adotiva, foi filha por adoção. Cresceu ouvindo da própria mãe, com naturalidade, a história de sua chegada à família.
“De uma forma muito simples, mas ao mesmo tempo muito sábia, ela sempre trazia sobre a minha existência. E esse tratamento, essa forma de lidar com a adoção, fez com que eu fosse me constituindo, entendendo que fui para outro lar por uma necessidade maior e que isso também me trouxe a oportunidade de ser quem eu era e quem sou hoje”, contou.
Depois de se formar, passar em concurso, fazer mestrado e construir a vida ao lado do esposo, Eduardo, Jaqueline começou a pensar na adoção. Em 2021, o casal conseguiu a habilitação. Sem pressa, os dois se prepararam para a chegada do filho: mudaram-se para uma casa maior, montaram o quarto e esperaram.
Em dezembro de 2024, Jorge Eduardo chegou. Antes do encontro definitivo, o vínculo foi sendo construído por fotos, vídeos e chamadas quase diárias. Em uma delas, Jaqueline ouviu pela primeira vez a palavra que mudaria sua vida.
“Ele, pela primeira vez, me chamou de mãe. Isso foi muito marcante para mim. Eu já me sentia mãe, mas, ouvindo ele me chamar de mãe, aquilo marcou ainda mais”, relatou.
A chegada também trouxe desafios. O casal precisou aprender a rotina da maternidade e da paternidade na prática: noites mal dormidas, mamadeira, fralda, cuidados médicos e adaptação.
“Por mais que a gente tenha estudado bastante, se dedicado, e tivéssemos a sensação de que já éramos pais, a gente se torna pai também nesse processo. Fomos aprendendo como fazer ele dormir, como trocar fralda, nunca havíamos trocado fralda, nunca tínhamos feito mamadeira”, disse.
Para Jaqueline, a adoção é uma travessia que transforma vidas. Ao se apresentar como mãe adotiva, ela também lembra que é filha por adoção, e sua própria história contradiz a ideia de que família depende apenas de laço biológico.
“A adoção mudou a minha vida, e isso é indiscutível. Sou o que sou hoje por conta da adoção. Alguém me viu como filha em um momento em que eu não era efetivamente uma filha, no aspecto social”, afirmou.
Fernanda: três filhos, uma escolha definitiva
Fernanda Leite Camilo Barreto, 39 anos, é mãe de três filhos: o mais novo, de 8 anos; a filha, de 11; e o mais velho, de 15. Ela sonhava em adotar desde jovem. Aos 15 anos, já pensava em ser mãe por esse caminho.
O encontro com o filho mais novo aconteceu em uma creche, onde foi ajudar a tia. Ao vê-lo, se apaixonou. Quando soube que ele estava em uma casa lar, teve certeza de que queria adotá-lo.
O processo durou dois anos. Nesse período, Fernanda conheceu também os irmãos dele. Eram cinco crianças no processo: uma foi morar com a avó, Miguel faleceu vítima de uma infecção respiratória, e três seguiram no caminho que as levaria à maternidade.
“Em conversas com a assistente social e a psicóloga do fórum, eu sempre disse que não queria uma criança, eu queria as crianças”, contou.
Em 2023, ela recebeu a ligação perguntando se teria interesse em adotar três irmãos. Ao saber que eram aquelas crianças, aceitou. No dia 15 de julho, aniversário de 9 anos da filha, os três foram para casa com ela.
A vida real exigiu força. Na época, Fernanda vivia uma união estável. Em abril de 2024, o companheiro disse que não queria mais seguir com a adoção e pediu que ela escolhesse entre ele e as crianças. Ela escolheu os filhos.
“Ficamos só nós quatro em casa”, resumiu.
Os primeiros meses foram difíceis. O filho mais novo enfrentava crises de terror noturno e traumas que exigiram acompanhamento médico e psicológico. A filha passou por episódios de mentiras e pequenos furtos em busca de atenção. O mais velho tinha medo de dar opinião, como se precisasse que estivesse sempre tudo bem para poder ficar.
A mudança começou quando os filhos entenderam que Fernanda não iria embora.
“Quando os dois mais novos perceberam que eu não ia embora, que eu não ia deixá-los e nem abrir mão deles, foi que a situação acalmou. Eles viram que estavam seguros e que estavam em casa. Os pesadelos acabaram, os furtos cessaram, as mentiras pararam”, relatou.
Em dezembro de 2024, o atual marido de Fernanda chegou à família e, segundo ela, tornou-se um “paizão” para as crianças. A adoção saiu oficialmente em dezembro de 2025.
Ao falar sobre preconceito, Fernanda afirma que ele existe e aparece em comentários que tentam diminuir os vínculos criados pela adoção. Ela lembra que já ouviu que só saberia o que é ser mãe se gerasse um filho.
“Eu parei um pouco para pensar e percebi que a pessoa tinha uma certa razão: gerar não é o mesmo que adotar”, afirmou.
Para ela, a diferença não diminui o amor. Na adoção, a gestação pode durar anos, a espera é feita de ansiedade e o filho chega com história, medos e marcas. Ainda assim, chega desejado.
“Na adoção não existem surpresas. Você quis e esperou, ele sempre será desejado. Na adoção, você escolhe amar apesar de todas as lutas que possa enfrentar, e que muitas vezes são gigantes”, disse.
Fernanda reforça que crianças em processo de adoção não precisam de pena, mas de compromisso.
“As crianças que estão para adoção não precisam de dó, não precisam ser salvas, não precisam ser resgatadas. Se quiser só ajudar, vire um padrinho e invista nelas. Agora, se você quer conhecer um amor que nunca conheceu, mesmo que já tenha filhos biológicos, aí você está no caminho certo”, disse.
Entre esperas, medos, noites difíceis e recomeços, as histórias de Jaqueline e Fernanda mostram que a adoção não romantiza a dor, mas também não permite que ela seja a última palavra. É o amor que chega por uma ligação, por uma videochamada, por uma visita à casa lar. O amor que aprende os medos, reconhece as marcas e escolhe ficar.
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