'Todo mundo tem voz' 22.05.2022 | 11h00

redacao@gazetadigital.com.br
Jolismar Bruno
Quinzenalmente, jovens se reúnem na praça central de Cuiabá para a Batalha da Alencastro (BdA). A praça se torna um lugar de diversidade, respeito e expressão artística por parte dos MCs e do público em geral que vai prestigiar o movimento cultural, sem distinção de gênero, cor, orientação sexual, religião ou idade. A batalha de rima recebe o nome de onde é realizada, a praça Alencastro.
Os MCs que vão ‘batalhar’ chegam cedo, fazem a inscrição e aguardam até o horário de começar. Qualquer pessoa pode participar fazendo rimas, basta chegar cedo para conseguir uma vaga. Os apresentadores testam o som e o microfone com algumas rimas que já animam o público presente.
As pessoas vão chegando e ocupando o local na praça onde a batalha será realizada, se organizando, formando a plateia. Todos estão sempre muito bem vestidos. O público é uma peça fundamental, assim como em qualquer outra batalha de rima. São a alma da batalha e os jovens são os mais predominantes. Porém, o movimento não se restringe apenas a essa faixa etária.
Há quem participa da Batalha da Alencastro desde seu surgimento, em 2015, e outros que foram poucas vezes. Como é o caso da Andressa Serra, estudante do ensino médio, que foi pela segunda vez no dia 19 de abril por convite de seu amigo que é MC. “É a segunda vez que venho e estou gostando bastante! Pretendo vir mais vezes”.
Christian, frequenta a roda de rima desde o início, em 2015. O jovem destaca que se arruma com a melhor roupa para ir à Batalha. “Tem que ser o melhor ‘traje’ porque o cenário é perfeito”, contou para a reportagem.
Rafael Erick, participa do movimento desde quando os jovens apenas se reuniam na praça e ficavam fazendo rimas. Por influência dos amigos, ele começou a praticar também e já até se arriscou participando de duas batalhas. “É uma sensação muito boa!”, afirmou.
A Batalha inicia com o apresentador ou o MC que irá rimar fazendo um chamado que é respondido pela plateia e logo em seguida os artistas começam.
O público grita fortemente quando um MC faz uma rima atacando o adversário e que é considerada muito boa. Acompanhe um trecho do duelo entre os MCs Caco e Cigano:
A Batalha ocorre em dois ‘rounds’ de 45 segundos cada para cada MC fazer sua rima e o adversário rebater. Para decidir quem começa é feito um sorteio rapidamente, o popularmente conhecido ‘ímpar ou par’. Ao fim dos rounds, o público é quem decide por votação de gritos quem fez as melhores rimas, ou seja, para quem o público gritar mais alto, vence o duelo. Caso dê empate, acontece um terceiro round já sendo de forma bate e volta e o público decidindo novamente o resultado.
Nem sempre os vencedores da Batalha ganham algum prêmio físico por falta de recurso financeiro.
Duelo Estadual
A primeira vaga para a competição de nível estadual já tem dono: Havel. A seleção ocorreu na quinta-feira, dia 19 de maio. Em uma final eletrizante com direito a terceiro round, Havel levou a melhor sob Myth, por voto também dos jurados, que teve na ocasião por ser a seletiva para o duelo nível estadual.
Jolismar Bruno
Final disputada entre Myth (da esquerda) e Havel (da direita) na primeira seletiva para o estadual na Batalha da Alencastro, em Cuiabá. Foto: Jolismar Bruno
Para a reportagem, Havel contou que sendo o primeiro selecionado “a tensão fica de lado, fica mais tranquilo e há mais tempo para se preparar”. O MC começou a batalhar em 2017 em um evento na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ele afirma que tem mais pessoas produzindo rap em Cuiabá. “A cena do rap está numa ascensão e em Cuiabá, por mais que seja uma cidade onde predomina o sertanejo, também rola uma cena bacana de música autoral. Tem muita chance disso explodir”, afirmou.
Ao total serão 16 seletivas ao longo de 4 meses em todo estado de Mato Grosso e 4 acontecerão na Batalha da Alencastro. 25% das vagas (02) são destinadas a mulheres e pessoas LGBTQIA +.
A seleção define as vagas para o Estadual de MCs deste ano, que, por sua vez, define o representante do estado para o duelo nacional que deverá ocorrer em Belo Horizonte.
Desafio da Batalha da Alencastro
Antes da pandemia de covid-19, a Batalha acontecia todas às quintas-feiras. Durante a crise sanitária, a batalha foi suspensa e só retornou com as atividades em setembro de 2021, ocorrendo a cada 15 dias.
O cuidado com o público para que não se contaminasse com a covid-19 foi o principal motivo da batalha não voltar a acontecer todas as semanas. Para que volte a ocorrer semanalmente há um desafio. A página oficial da Batalha da Alencastro no Instagram deve chegar a 5 mil seguidores. Até a publicação desta reportagem, o perfil tinha pouco mais de 4 mil seguidores.
As batalhas também são transmitidas ao vivo pelo instagram oficial. No YouTube, há um vasto material audiovisual das batalhas anteriores que pode ser acessado clicando aqui
O rap na capital mato-grossense
A Batalha da Alencastro surgiu em 2015 tendo como precursor o MC DeGa. Desde então, está se tornou a maior e mais conhecida de Cuiabá. Héctor Flores é um dos atuais organizadores e começou sua carreira no rap na Batalha da Alencastro. Para ele, a Batalha é um lugar onde qualquer pessoa pode ter voz.
Conforme, Héctor Flores, a cena do rap ainda é muito pequena em Cuiabá, mas ela existe. E que no início tudo era mais difícil. “Quando a Batalha começou a ser desenvolvida, não tinha público que consumia rap, nem muitos grupos que faziam rap. Tinha uma cena mais antiga que era uma galera do CPA, mas a conexão com a juventude, a galera mais nova fazendo rap, não tinha”, comentou.
Não é necessário ser maior de idade para ir prestigiar ou para batalhar na Alencastro.
Além dela, há outras batalhas de rima que acontecem na capital, como por exemplo, a Batalha do Pedra 90 e do Tijucal. Alguns MCs começam a participar dessas batalhas consideradas menores e depois vão para a BdA.
Davi Machel é o organizador da Batalha do Tijucal. Iniciou sua carreira no rap em 2017, na Batalha da Alencastro. Ele destaca que quando começou a rimar não havia muitas pessoas em seu bairro que faziam rap e que iam para a batalha. “Durante muito tempo ali [na Batalha da Alencastro] eu levantava essa bandeira, que era do Tijucal”, explicou.
Segundo Davi Machel, a Batalha do Tijucal surgiu após a Batalha do Pedra 90 começar a passar por alguns problemas, entre eles, repressão e falta de apoio.
Batalhas de rima
O rap é um dos cinco pilares do movimento hip hop, criado em meados da década de 1970, em Nova York, nos subúrbios negros e latinos. O movimento inclui, música (rap), pintura (grafite), dança (break), moda e gírias.
A batalha de rima é um tipo de rap improvisado, onde vence quem tem o melhor flow, ou seja, a maneira que o mc encaixa as palavras e frases no instrumental e consiga fazer as melhores rimas.
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Vídeos retirados do perfil oficial da Batalha da Alencastro no Instagram.
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