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DEU NA GAZETA 25.08.2019 | 07h27

De sol a sol, o cotidiano de catadores no aterro em Cuiabá

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CHICO FERREIRA

CHICO FERREIRA

De um emprego no shopping para o aterro sanitário. Essa é a história da catadora Lucimara Abadia de Souza, 50, que há mais de 12 anos tira o sustento da família dos montões de materiais que, para o resto da sociedade, não têm mais serventia.
Após uma depressão devido a perda dos pais Lucimara, que é cozinheira profissional, foi mandada embora do trabalho. Sem
emprego e triste, foi no aterro sanitário de Cuiabá que a catadora diz ter encontrado uma forma de “tratar a depressão”.

 

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Ela é uma das 180 pessoas que dividem espaço entre os mais variados lixos domésticos, moscas, urubus e os perigos do
local que funciona 24 horas. O número pode ser maior, já que o próprio município alegou não ter controle da quantidade de catadores.

 

Cada um dos 60 caminhões que chegam todos os dias ao aterro, com uma média de 500 mil quilos de lixo, traz uma  esperança aos trabalhadores que, logo em seguida, começam a selecionar os materiais. “Posso dizer que eu sou muito mais feliz aqui do que no meu antigo trabalho. Aqui tenho amigos, aqui tenho motivos para sorrir e é daqui que tiro sustento para meus cinco netos, dois filhos e nora”, afirma.

 

Foi no lixão que a filha de Lucimara também encontrou uma maneira de ficar ainda mais próxima da mãe. Manicure e depiladora, ela também passou a trabalhar no local. De segunda a sexta-feira a família faz o trajeto do bairro Novo
Paraíso até a localidade de Barreiro Branco, no Distrito do Coxipó do Ouro.

 

“Material pet, cobre, latinha e até roupas eu seleciono aqui. Agradeço a Deus todos os dias por ter como levar comida para
minha casa”, diz.

 

Aos 56 anos de idade, nas poucas forças que ainda restam devido aos problemas de saúde, Clarice Rodrigues da Costa alegra-se com os materiais recolhidos em mais um dia de trabalho.


A expectativa é que consiga R$ 25, depois de um dia todo dedicado ao trabalho. Clarice diz que a fome é uma coisa comum para ela e o marido que sobrevivem do lixão. O dia em que a reportagem esteve no local (23), era exatamente um em
que a fome castigava a família. “A fome é muito triste. Às vezes tenho vontade de comer uma coisa gostosa, de tomar um leite, mas não tenho condições. Às vezes ficamos só no arroz branco mesmo. Eu e meu marido moramos de aluguel, pagamos R$ 400 e não sabemos nem de onde vamos tirar este dinheiro”.

 

Clarice é hipertensa e adquiriu HIV (vírus da imunodeficiência humana) do antigo companheiro. As limitações da catadora são evidentes. Entre uma “caçada” e outra, ela tem que se sentar para descansar. “Se eu pudesse, eu não trabalharia aqui. No final do dia, quando me deito para dormir, sinto todas as consequências de ter passado o dia no sol e  em meio ao lixo. Mas é daqui que a gente tira o sustento”, frisa.

 

Já somam quatro décadas que Rosa Oliveira dos Santos, 60, sobrevive da catação de materiais recicláveis. Ela inclusive trabalhou na antiga área do lixão, quando era na estrada para Chapada dos Guimarães. A idade avançada e um derrame
já não permitem mais outro tipo de ocupação, mas os sonhos de Rosa não cessaram. A sacola de materiais que carrega

subindo nos morros de lixo é uma das formas de construir o sonho, segundo ela.

 

Rosa começou a recolher os materiais na rua, mas foi no aterro em que encontrou mais sossego para trabalhar. Este também é o emprego do marido de Rosa e do filho. Nem mesmo o preconceito é capaz de desanimar a catadora. “As pessoas chamam a gente de lixeiro, de passa fome, mas não importo. É daqui que como, que visto minha família. Peço a Deus que não me deixe morrer sem que eu deixe algo para os meus filhos. Estou, aos poucos, construindo minha casinha”.

 

A falta de estudos e o desemprego também levaram Celso Tavares Magalhães,32, ao aterro sanitário. Recolhendo garrafas plásticas, latinhas e diversos outros materiais, consegue amparar o filho de quatro anos. Celso só estudou até a 3ª série do ensino fundamental, trabalhava de servente de pedreiro ou em fazendas, mas o desemprego bateu à porta. A falta de qualificação pesou muito para a inserção no mercado de trabalho, tanto que há sete anos mantêm-se com o que
recolhe diariamente no aterro. O sonho é trabalhar com carteira assinada, assim como os irmãos, primos e outros familiares que também passaram pelo lixão.

 

“Quem trabalha aqui enfrenta várias dificuldades. Uma delas é ter que trabalhar com todo cuidado possível para não sofrer qualquer tipo de acidente. Mas prefiro estar aqui do que estar fazendo coisas erradas, mexer com o que é dos outros”,  ressalta.


Thiago da Silva Duarte, 36, representante do Movimento Nacional de Catadores diz que, desde os 6 anos de idade, utiliza a reciclagem como forma de sobrevivência. Motivado pelo sustento dos irmãos menores e pela necessidade, Thiago afirma que já construiu uma história na reciclagem. 

 

No atual aterro está desde 2011 e parte da família também trabalha no local. De segunda-feira a sábado, das 6 às 16h, é no “lixão” que Thiago faz a renda para garantir comida à mesa para a mãe, filho e esposa. Ele conta que, além dos materiais de reciclagem, já encontrou vários objetos de valor, desde roupas, joias e até telefone celular.

 

Thiago concluiu o ensino médio e estudou Pedagogia por um ano e meio, só não continuou por falta de financiamento. Hoje,
um dos objetivos é ingressar numa faculdade de Turismo ou Gestão Ambiental e a reciclagem vai ajudá-lo a escrever mais este capítulo da vida. “A gente sofre com sol, com chuva, mas para quem quer trabalhar não tem desculpa. A reciclagem está no meu sangue e gosto muito do que faço”, confirma.

 

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