MULHER MARAVILHA 09.05.2021 | 13h00

jessica@gazetadigital.com.br
“O banheiro é o refúgio da mãe”, brinca a empreendedora Amanda Karoliny Conceição de Carvalho, 27. Ela tem dois filhos pequenos e se sente ainda mais sobrecarregada durante a pandemia. Nesse Dia das Mães e em todos os dias, a jovem luta contra a romantização da maternidade, que coloca a mulher num papel de dedicação total às crianças, ao lar, a educar, cuidar, como se tudo fosse um mar de rosa, mas que na verdade é uma função de muito trabalho e responsabilidade que suga todas as energias da mulher e em segundo plano. Afinal, viver para os filhos é o que toda mulher deve fazer não é? Não, na avaliação desta mãe.
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Assim que teve o primeiro filho, Dandara hoje com 1 ano e 11 meses, Amanda voltou ao mercado de trabalho e atuava como recepcionista em um salão de beleza. Revezava com o marido os cuidados com o bebê. Logo veio a pandemia, em 2020, e ela perdeu o emprego. O esposo também ficou desempregado e as coisas se tornaram bem difíceis para o casal.
Bem nessa época, ela descobriu a segunda gravidez, de Isaac que hoje tem 5 meses. Em meio a pandemia, grávida, em isolamento social, ela se dedicou a fazer cursos e abriu um brechó online, que garante sua renda até hoje. Logo o marido também começou a trabalhar.
A mulher conta que foram meses complicados, esperando uma criança, cuidando de outra e tendo que tocar a loja, garimpar peças, fazer consertos, lavar, colocar na internet. Tudo demanda muito trabalho e a rede de apoio era restrita ao esposo quando tinha tempo.
Em 2021, a mãe ainda tentou colocar o filho em uma creche, mas não conseguiu. Havia apenas uma vaga.
“Cuidar das crianças, da casa, da loja demanda muito. Ser mãe é uma tarefa muito árdua. Já tem a nossa cobrança para dar o melhor e tem também a cobrança alheia para que se dedique e ame ser mãe. Eu amo meus filhos, mas não amo a maternidade. Estou cansada, como muitas mães tudo acaba caindo sobre a mulher, que está sobrecarregada. Isso é uma coisa que eu quero romper. Por mais que o pai seja participativo, tem que estar cobrança. É uma divisão de
responsabilidades, cuidar não pode depender só da mãe”, relata a empreendedora.
Amanda relata que a tripla jornada é exaustiva e não reconhecida. A situação contribui para um cenário de poucas mulheres em altos cargos ou mesmo seguindo a profissão que querem, arriscando, pois é cobrado delas a dedicação ao lar. “Depois que se torna mãe, você é colocada em segundo plano na sociedade”.
Amanda conta que sempre trabalhou, antes das crianças, na gestação e com os pequenos em volta. Ela avalia que o trabalho feminino foi um direito que custou e demorou a ser conquistado que vai usufruiu e brigar para que outras mulheres também exerçam sua independência. Que se sintam mulheres, não só mães.
“É isso que eu acho e não admito mesmo, eu sempre estou ali, sempre no combate, vou pro embate e até o final. É muito complicado. Se você disser que ama os filhos, mas não ama a maternidade as pessoas ficam horrorizadas. Como não? Você tem que gostar. Você tem que cuidar, você tem que se dedicar, você tem que abrir mão. A gente não nasce mãe e não tem que fazer tudo sozinha”, relata.
Somada a toda a pressão das crianças o dia todo em casam trabalho online, casa para cuidar, o temor da pandemia, Amanda ainda perde familiar para a covid. Por indicação de uma amiga, ela buscou ajuda psicológica em uma universidade privada de Cuiabá.
“Fiz terapia um tempo, mas parei e quero voltar. Muitas vezes esquecemos que por trás da mãe existe uma mulher que precisa ser cuidada, precisa de atenção, precisa de outras coisas que não sejam só se dedicar aos filhos. Precisamos estar bem para cuidar das crianças”, conta a mãe, que admite ainda ser difícil separar a mãe da mulher e cuidar desse lado esquecido com o nascer dos pequenos. “Ainda é difícil essa divisão. Faço o resto quando tenho um tempo depois de cuidar deles”.
Amanda relata que nem tudo é lindo como dizem. Gestar envolve, dor, mal estar, cansaço. “Eu amei gestar, mas é muito difícil, carregar o peso, não é tudo lindo como dizem. Com as crianças, às vezes a mãe só quer um banho de 5 minutos para relaxar. Digo que o banheiro é o refúgio da mãe”, conclui.
Mães exaustas e cobrança
A psicóloga Laura Santiago relata que nem todas as mulheres têm vontade ou nascem aptidão para a maternidade. “A maternidade é um amadurecimento fisiológico e emocional. Agora elas estão ainda mais cansadas. Além do papel de mãe, elas são professoras, tem sido muito mais cobradas. Isso gera angústia e sentimento de incapacidade. Elas têm paralisado diante de algumas situações, isso é normal. Mas elas não têm que dar conta de tudo, também estão fragilizadas. Nesse momento o que elas podem fazer é buscar ajuda, pessoas capacitadas para ajudar nesse momento”, explica a profissional.
Laura Santiago também explica que mulheres que deixam de lado a carreira para cuidar do filho não podem ser julgadas. Assim como aquelas que conciliam a profissão e a maternidade não devem ser criticadas. São escolhas que cada uma faz de acordo com seu propósito e com o que é melhor para si e sua família.
A psicóloga Sandra Siqueira relata que ainda há uma pressão para as mulheres terem filhos, mesmo que esse não seja seu sonho. Há uma “obrigação” que vem da criação, cultura e até da bíblia. É o que a maioria das pessoas esperam, mas hoje as mulheres já estão decidindo não ter herdeiros.
“Essa pressão causa um pensar muito da mulher sobre a decisão de ter ou não filhos. É opressor essa atribuição de continuidade familiar. O mundo vem exigindo muito, as crianças exigem muito, muita atenção e nem todo mundo consegue deliberar e dar conta dessa atenção também”, explica.
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UBIRAJARA DE SIQUEIRA FILHO - 12/05/2021
Parabéns pela reportagem com profissionais competentes, com essa pandemia o dano existencial que assola nossa sociedade principalmente em face da convivência famíliar é inevitável, porém pode e deve ser admintrado com acolhimento e muito amor....
1 comentários