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17.05.2005 | 03h00

Ossada é de Jane Vanini, diz DNA

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Termina a angústia da família Vanini. Está confirmado, por exame de DNA, que a ossada encontrada em uma vala coletiva num cemitério da cidade de Concepción, no Chile, é realmente da guerrilheira de Cáceres (MT), Jane Vanini, fuzilada em 6 de dezembro de 1974 pela ditadura militar de Augusto Pinochet.

Após 30 anos de espera, a jovem estudante poderá ser enterrada "dignamente" na terra natal, como manda a tradição cristã.

Os seis irmãos de Jane já estão articulando um encontro para o sepultamento, que significa, para a história recente do país, mais uma peça de um violento quebra-cabeças.

Um deles, Romano Vanini, que mora em Cuiabá, preferiu não dar entrevista. O filho dele, hoje comandante adjunto geral da Polícia Militar em Cuiabá, coronel João Batista Vanini, explica que, apesar do alívio, foram anos de um grande sofrimento e que, agora, todos estão mais propensos ao silêncio. No entanto, garante: "Nunca nos ressentimos do caminho que ela escolheu". Sobrinho que se diz saudoso, ele se lembra de uma tia amorosa e querida como outra qualquer. "Uma vez fui a São Paulo, onde ela já morava, e passeamos no zoológico. Tenho uma foto com ela neste dia, ela estava muito alegre", conta. Pouco tempo depois, após o envolvimento dela com os grupos revolucionários, por temor a represálias, era necessário esconder o parentesco. "Minha avó falava: se perguntarem por ela ou se a gente era parente dela era para negar, dizer que não sabia de nada".

Para trabalhar e estudar, aos 20 anos, Jane Vanini mudou-se da pacata Cáceres para a São Paulo da década de 60. Começa aí uma biografia na qual uma conterrânea de Jane se especializou. A historiadora Maria do Socorro Souza Araújo, professora da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat), informa que "há registros de que ela foi secretária de uma revista de arquitetura, vendedora da extinta Mesbla e funcionária da Editora Abril, mas se engajou mesmo politicamente, participando do Grêmio Estudantil da Universidade de São Paulo (USP), onde fazia cursinho para prestar vestibular".

Os livros, o uniforme colegial, a vida comum, Jane Vanini substituiu por armas. Tanto na Ação Libertadora Nacional (ALN) e no Movimento de Libertação Popular (Molipo), ambos no Brasil, quanto no Movimento Izquierda Revolucionário (NIR), no Chile, ela integrava grupos guerrilheiros, treinando em Cuba.

Ana Adélia, Gabriela Pereira, Tereza Motta Miny, Ana Honorato, Carmen Montoya. Todas estas identidades serviram para que Jane transitasse de "aparelho" em "aparelho" - casas clandestinas usadas por militantes - e também para sobreviver no exílio, em território chileno.

Quando ela "caiu" o marido, jornalista Pape Carrasco, estava preso. Ele deu a notícia à família por carta. Jane morreu sozinha, em casa, resistindo por horas ao cerco bélico de Pinochet.

"Mergulhar nesta biografia é encontrar uma mulher fisicamente maravilhosa e psicologicamente forte", como descreve a companheira de guerrilha Suzana Lisboa, 54, integrante da Comissão dos Familiares de Mortos e Desaparecidos, que perdeu o marido para a ditadura.

"Identificaram minha amiga de guerra, uma guerra da qual participei com muito orgulho", resume. "Aproveito para cobrar do governo federal que saia desta inércia e investigue aqui onde estão os corpos dos desaparecidos, a exemplo do que estão fazendo os países da América Latina", provoca.

"Valas coletivas, como a em que Jane foi encontrada, era uma forma comum de enterrar militantes políticos", observa a professora Maria do Socorro. "É bom que a confirmação da ossada dela mostre ao mundo as atrocidades e a selvageria praticadas pelas ditaduras e que os países sejam responsabilizados".

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