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Cuiabá, Quarta-feira 08/04/2026

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DEU EM A GAZETA 08.04.2026 | 07h07

Persistência no coração de Cuiabá preserva memórias

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Chico Ferreira

Chico Ferreira

Entre a resistência em preservar e ocupar o Centro Histórico de Cuiabá, há muitos exemplos que é possível manter as características dos casarões centenários, preservando a história que chega hoje aos 307 anos. Muito além do abandono e das paredes prestes a desabar diante do  descaso, olhares mais atentos são capazes de perceber os esforços de quem insiste em investir e manter a vida pulsante na região a partir da arte, da moradia, do comércio e iniciativas sociais.


“Mudar a realidade deste local, ver como ele estava no começo e como ficou agora, com respeito às cores, à estrutura do espaço, conservando as características, traz um pouco de memória. Algumas pessoas entram aqui e falam: ‘nossa, que legal essa casa, me faz lembrar a casa da minha avó, da minha bisavó, que a gente entrava no fundo e ia chupar manga, pegar
bocaiuva’. Então, resgata a memória, essas conexões das pessoas que entram aqui e relembram histórias da infância, da juventude, é algo bem cuiabano”, comenta Ceffas Soares da Silva.

 

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O artista visual aluga, desde 2023, uma casa do século XVIII, na rua Ricardo Franco, próximo à Praça da Mandioca. A partir de um investimento, ele reformou a propriedade e manteve as características do imóvel, resgatando a identidade original, e inaugurou o MAB Mandyoka Artes Bistrô.


A casa é simples, mas tipicamente cuiabana, com janelas grandes que permitem a entrada do ar e da iluminação natural, além das paredes de adobe que mantém o ambiente fresco. “Quando eu cuido do Centro Histórico, estou cuidando das minhas raízes. É diferente de construir um prédio moderno, uma arquitetura contemporânea, mas que não tem memória”.


Ceffas Soares conta que quando buscou um imóvel para abrir sua galeria de arte, ele procurava por um espaço que refletisse a cultura cuiabana. A região da Praça da Mandioca carrega um peso simbólico na história de Cuiabá, pois ali estava localizado o pelourinho, que era um espaço de castigo físico aos escravos. Hoje, é um espaço de manifestação artística, com a presença do Centro Cultural Casa das Pretas, entre outros artistas plásticos.


“O meu olhar estava voltado para cá, de trazer o foco para nossa cultura, para a arte contemporânea e para as obras de artistas regionais, que também já faziam trabalho aqui”.


Além de utilizar o espaço como ateliê, para criação de suas obras, Ceffas, eventualmente, realiza no casarão atividades culturais, como exposições de outros artistas e lançamentos de livros. Para além do resgate do imóvel, atualmente, parte das obras expostas no MAB Mandyoka Artes Bistrô também refletem a história da cidade, com pinturas realistas da Igreja do Rosário e São Benedito, Igreja Matriz, das regiões da Prainha e do Porto, em uma Cuiabá colonial.


“Sem esses imóveis, a gente perde a história de Cuiabá. Fica uma cidade sem memória. As pessoas daqui que têm poder econômico, elas vão para Paraty, elas vão para Pelourinho, elas vão para o Café Colombo, no Rio de Janeiro, e não valorizam
o Centro Histórico de Cuiabá, onde poderia ter um café que se equiparasse aos cafés que existem no sudeste de centros históricos que são conservados. O futuro depende do presente. E se você não tem presente, você não tem futuro. E se você
não tem passado, você não tem do que falar”.


HERANÇA DE FAMÍLIA


“As casas que ainda sobram é porque os proprietários cuidam, porque não há nenhum incentivo e falta muita educação social para a preservação. Cada casa dessa tem uma história, aqui é onde a cidade nasceu”, desabafa Antônio Ernani Pedroso Calháo. Na esquina do calçadão entre as ruas Cândido Mariano e Ricardo Franco, um imóvel construído no século XIX pode passar despercebido entre os consumidores que transitam pela região. Atualmente dividido em seis comércios, a propriedade
de Ernani Calháo é uma herança de família e ao longo da história abrigou o jornal “A Província de Matto-Grosso”, entre 1879 e 1935. A Typografia Calháo funcionou no local entre as décadas de 1940 e 1970, entre outras atividades residenciais e
comerciais que perduram até os dias atuais.


O imóvel é tombado como patrimônio, no conjunto de propriedades do Centro Histórico. Apesar da parte interna ter permissão para reformas, a estrutura e estética externa devem prevalecer. Com cores chamativas entre as divisões dos comércios, as características da arquitetura colonial permanecem, como as eiras e beiras do telhado.


Calháo faz parte do grupo que resiste em manter o Centro Histórico de Cuiabá vivo. Ele conta que o imóvel sempre pertenceu à família e ao restaurá-lo, buscou manter a identidade original do prédio.

 

“O que me motiva muito é a história da cidade, que é muito interessante e bonita. Se você visitar a Europa antiga, como cidades de Portugal e França, vai encontrar ruas estreitas como essa. Isso mostra a forma como o povo vivia. Aqui é um lugar cheio de histórias, como ali na antiga rua do meio, que teve o movimento da ‘rusga’, que foi uma briga entre os portugueses e os brasileiros. Eu, como cuiabano que sou, tenho todo o interesse em contar a história”.

 

Apaixonado pela história regional, Ernani possui um projeto para criar um memorial virtual sobre o Centro Histórico, onde pretende contar os bons exemplos locais. Ou seja, expor os imóveis que carregam história, estão preservados e ocupados.
Ele cita como exemplo dois casarões do calçadão, ocupados por lojas. Vizinhas na Galdino Pimentel, está a antiga residência da família Latorraca e  a Casa Mansur, imóvel de uma família árabe e que há anos abriga a tradicional Kotinha Aviamentos.
“Eu não aceito essa ideia de que o Centro Histórico acabou. Não, não acabou. Tem muita coisa que precisa ser recuperada, sim, mas eu quero valorizar o trabalho dos proprietários que lutam para preservar os imóveis dando, inclusive, uma função econômica”.


Calháo ainda destaca a importância de investir na educação patrimonial para preservação efetiva desses espaços. “Poucas cidades no Brasil têm esse sítio histórico tão bonito, tão interessante e cheio de histórias. Acho que vale a pena investir na educação, porque só ela transforma”.


CASA DE BEMBEM


Um dos símbolos mais tradicionais do Centro Histórico de Cuiabá é a Casa de Bembem, na rua Barão de Melgaço. Construída em 1850, em estilo colonial, na década de 1970 e 1980 se tornou referência na cidade diante da hospitalidade de Constança Figueiredo Palma (dona Bembem), que acolheu no espaço diversas celebrações, como as festividades de São Benedito.
Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio histórico, a casa tipicamente cuiabana enfrentou diversos problemas estruturais e quase se perdeu completamente.


Restaurada e recuperada, atualmente o imóvel é um Centro Cultural e abriga o Instituto Ciranda, que atende crianças e adolescentes, utilizando a música como ferramenta de cidadania.


Natural do interior de São Paulo, Paulo Fernando Mantovani da Silva é professor de clarinete e saxofone na Casa de Bembem, desde 2022. Ao conhecer o espaço, pode perceber a importância do valor histórico do imóvel e utilizou a música para que os alunos conhecessem o espaço das aulas.


“É uma maneira de inteirar os alunos com o casarão e compus algumas músicas. Compus um choro, que se chama ‘Chorinho para Dona Bembem’. Então, lendo um pouco sobre a dona Constança Figueiredo Palma, eles tocaram essa música em uma apresentação. É uma maneira de atravessar o tempo, resgatar o choro que é um patrimônio cultural do Brasil, com um casarão que vira referência”.


Paulo conta que os alunos sentem a música e entendem o espaço que estão ocupando, pois ao mesmo tempo que tocam, alguma lembrança vem à tona. A estrutura da casa, com portas e janelas grandes e até mesmo o piso quadriculado remete muitos deles, principalmente os de 9 a 11 anos, à casa das avós. “Eles estão se sentindo cada vez mais pertencentes, ocupando, entendendo a importância de um projeto social dentro de um casarão no Centro Histórico de Cuiabá. Somos o Instituto Ciranda Música e Cidadania. Essa cidadania é de entender também o porquê dos projetos sociais, dos espaços e de ocupar”.


PRESERVAR ‘NÃO É COISA DE ROMÂNTICO’


O Centro Histórico de Cuiabá vai muito além dos casarões tipicamente cuiabanos. No entorno da Praça da República, estão prédios importantes. Como o Thesouro do Estado, construído em 1897, para abrigar a Tesouraria Provincial de Mato Grosso, e o Palácio da Instrução. Este último, construído em 1913, para funcionar como instituição pública de ensino e, atualmente, abriga a Biblioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça.


“Estamos falando de um patrimônio importante para a interiorização do Brasil, não só para a identidade local, mas é
um patrimônio brasileiro. Limitar a nossa história a um aspecto apenas regional é uma autodepreciação. Estamos falando
de múltiplas memórias, de múltiplas camadas de tempo e da importância dessa cidade para a história brasileira que continua, inclusive, cumprindo”, destaca o historiador Suelme Fernandes.

 

Ao citar o prédio que abrigou o Thesouro de Mato Grosso, ele reforça as características do estilo neoclássico, que conta
a história das arrecadações do estado. “Nessa época era uma pecuária muito inicial, era borracha, extrativismo, para hoje virar o grande produtor do agronegócio. Para que a gente possa contar essa história do que somos hoje, a gente precisa ter a referência de como foi a construção desse grande Mato Grosso e, indiscutivelmente, não dá para contar a história de Mato Grosso, sem passar pela história de Cuiabá”.


O historiador acrescenta que Cuiabá é o ponto mais equidistante entre os oceanos Atlântico e Pacífico, no centro da América do Sul. “A partir daqui se originou o avanço territorial do Brasil que deu origem, por exemplo, a Rondônia e ao Mato Grosso do Sul. É um epicentro importante da história de pelo menos três estados do Brasil. Então, não dá para pensar nisso numa memória local”.


Suelme pontua que além da preservação e do uso público de alguns imóveis, como o Palácio da Instrução, há muitos bons exemplos de ocupação no Centro Histórico e cita a Casa de Bembem, o Centro Cultural Casa das Pretas, o comércio da rua 13 de Junho e dos calçadões nos arredores, restaurantes, lanchonetes, além de escritórios de advocacia.


O historiador reforça que preservar é poder dar utilidade ao patrimônio, para que ele possa ser sustentável em seu funcionamento. Ele destaca que não precisa ser, necessariamente, uma iniciativa do Poder Público, mas da sociedade civil e
iniciativa privada.

 

“Aqui tem muita vida e muitas possibilidades. Apesar dos pesares, a 13 de junho está sobrevivendo em um comércio popular forte. Eu acho que a gente precisa conscientizar que preservar patrimônio histórico não é coisa de romântico, não é coisa de historiador, de sonhador, de coisa antepassada”.

 

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