'ÀS VEZES BELISCÃO, ÀS VEZES AFAGO' 12.07.2026 | 12h50

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João Vieira
A imagem de jovens pichando imóveis no Centro Histórico de Cuiabá reacendeu o debate sobre arte urbana, ocupação da cidade e respeito à propriedade privada. O caso ganhou força após o morador Cláudio Campos denunciar que o portão de uma de suas propriedades foi alvo de inscrições feitas sem autorização.
Campos afirma que apoia manifestações culturais e já colaborou com ações ligadas ao movimento urbano, mas considera que o episódio passou do limite.
“Esse tipo de situação que ocorreu no meu portão foi bem desrespeitoso. A galera quer ocupar o espaço de uma forma que não é assim que se ocupa”, argumentou.
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Segundo ele, a crítica não é ao grafite ou à cultura, mas à ausência de diálogo e permissão.
“Eu apoiei eles fazerem o último evento deles na escadaria. Eu sou proprietário dos dois imóveis ao lado, então a gente é a favor da cultura. Parece que existe um problema entre um grupo do movimento hip hop e outro grupo”, afirmou.
Para o denunciante, mesmo que determinadas marcas urbanas possam ser vistas como expressão artística, a intervenção em propriedade privada exige consentimento.
“Essa tag, que não deixa de ser uma obra de arte, foi feita no muro abaixo, mas foi feita no meu portão. Deixaram uma mensagem desnecessária no estrago”, declarou.
Grafite, pichação e permissão
O artista cuiabano Babu Seteoito, 47, grafiteiro há 26 anos, avalia que a discussão precisa separar o grafite da pichação, sem ignorar que ambos pertencem ao universo das artes urbanas.
“O grafite é uma manifestação cultural que teve início nos anos 60, nos Estados Unidos. Ele deriva de outras manifestações culturais, como arte rupestre, como as pinturas ameríndias”, explicou o artista.
Segundo o pintor, o grafite se consolidou como linguagem ligada ao hip hop e à rotina das cidades.
“O grafite associado ao movimento hip hop se apropriou dessa escrita na parede rupestre e a transformou em urbana. Isso começou a contar o cotidiano das pessoas e de como o artista via tudo. Esse é o grafite”, disse.
O artista reforça, no entanto, que a legalidade de qualquer intervenção visual depende de autorização.
“Se você for colar um cartaz, tem que pedir permissão. Se colar sem pedir, ele é ilegal. O que torna a legalidade é a permissão, porque a permissão vem do dono da propriedade privada”, detalhou.
Grafite é uma coisa e pichação é outra
Para o artista, grafite e pichação têm origem em processos culturais próximos, mas carregam intenções diferentes.
“O grafite e a pichação são primos. Eles vêm do mesmo processo cultural de jovens de áreas urbanas”, disse.
Ele define a pichação como uma escrita mais subversiva, muitas vezes usada como protesto ou enfrentamento.
“A pichação é uma manifestação subversiva de uma escrita urbana. Eles utilizam a pichação como uma arma de guerrilha urbana para fazer ataques, protestos”, afirmou.
Apesar disso, o artista defende que a pichação também deve ser compreendida como fenômeno cultural.
“A pichação bate de frente com a coisa da permissão, do não permitido, do agressivo, porque é uma característica dela. Mas grafite é uma coisa e pichação é outra. Apesar de os dois serem artes urbanas”, pontuou.
Babu também lembra que o próprio grafite já foi criminalizado antes de ser reconhecido por galerias, museus e empresas.
“O grafite, durante um tempo, também foi ilegal. Eu fui preso várias vezes para fazer grafite e hoje ele tem esse status”, contou.
Arte como provocação
Com 26 anos de trajetória, Babu Seteoito afirma que sua produção mudou com o tempo e que a arte não precisa carregar uma única mensagem.
“Eu queria muito responder que a mensagem é paz, amor, harmonia, fraternidade, mas nem sempre é assim. Às vezes eu quero justamente o contrário com a minha arte, e eu sou um artista livre para poder fazer dela o que eu quiser”, disse.
Para ele, a arte urbana pode incomodar, curar, provocar ou confortar.
“Arte é para atingir as pessoas, para fazer com que as pessoas pensem, mudem de opinião, criem opinião, percebam a vida. Às vezes ela é um beliscão, às vezes ela é um afago, às vezes é para doer, às vezes é para curar”, afirmou.
No dia 18, a partir das 15h, Babu inaugura o Estúdio Sete e Oito, no calçadão da Galdino Pimentel, em Cuiabá. O espaço também terá lançamento de site e oficinas de aquarela básica e desenho básico.
“Para mim, é uma satisfação gigante poder estar vivendo essa experiência de ateliê. Você realmente tem um espaço onde possa desenvolver essas ideias maiores, receber pessoas, amigos, clientes, poder dar aula, fazer projetos”, declarou.
Regulamentação em Cuiabá
A Prefeitura de Cuiabá informou que prepara uma proposta para regulamentar a prática do grafite e estabelecer critérios de combate à pichação. Segundo a Secretaria Municipal de Segurança e Ordem Pública, a minuta do projeto de lei já foi elaborada pela Secretaria Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Urbano e passa por ajustes técnicos antes de seguir para análise da Procuradoria Geral do Município e do prefeito.
Atualmente, o tema é tratado apenas de forma geral pelo Código de Posturas do Município.
Confira nota na íntegra:
"O secretário informou que a Secretaria Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Urbano concluiu a elaboração de uma minuta de projeto de lei para regulamentar a prática do grafite e estabelecer critérios para o combate à pichação em Cuiabá.
O texto passa pelos últimos ajustes técnicos antes de ser encaminhado à Procuradoria Geral do Município e, na sequência, ao prefeito para análise.
Segundo ele, a proposta busca preencher uma lacuna na legislação municipal e disciplinar o tema de forma objetiva.
Atualmente, o assunto é tratado apenas de forma geral pelo Código de Posturas do Município."
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