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Cuiabá, Segunda-feira 02/03/2026

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CASO JULIENE GONÇALVES 02.03.2026 | 07h13

Justiça cobra relatório de apuração sobre morte de jovem pendurada em estádio

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Reprodução

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Prestes a completar 14 anos sem solução, a juíza da 12ª Vara Criminal de Cuiabá, Helícia Vitti Lourenço, cobrou da Polícia Civil relatório das últimas diligências referentes à apuração do assassinato de Juliene Anunciação Gonçalves, 20. O crime chocou Cuiabá devido à sua brutalidade e mistério que reverberam até hoje. A jovem foi encontrada morta, nua e pendurada pelo pescoço por uma calça jeans, próximo ao Campo de Futebol Botafogo, no bairro CPA III, em 28 de maio de 2012. Até hoje, o culpado não foi identificado e preso, nem as circunstâncias do crime foram esclarecidas.

 

O último andamento processual referente ao caso é de novembro do ano passado, no qual a juíza dá 90 dias para que a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) apresente o relatório do que foi feito até então e descobertas. Apesar do prazo já encerrado, não houve resposta ainda e novo avanço na ação.

 

Mais de uma década depois da localização do corpo em tais condições, não há presos ou denunciados pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). Mais de mil páginas de documentos obtidos pelo resgatam o inquérito do caso que até hoje não foi concluído, deixando a família e a sociedade sem respostas.

 

Embora a cena do crime tenha sido forjada no intuito de simular um suicídio, já que a vítima foi encontrada amarrada por uma parte de sua roupa a uma barra de ferro em uma estrutura a cerca de 3 metros do chão, desde o início as autoridades trataram o caso como homicídio.

 

Isso porque, em análise ao corpo da jovem, foram notadas duas marcas distintas no pescoço. Uma delas foi apontada pelos peritos como causada por fio ou cabo e incompatível com o sinal deixado pelo tecido da calça, a segunda lesão.

 

Terra e folhagens próximas ao local indicaram que ela teria sido arrastada e então colocada naquela posição. Corpo também apresentava marcas de resistência e luta, contudo, sem vestígios de sangue. O body vermelho que vestia na parte de cima estava jogado próximo à vítima. A causa da morte foi concluída como asfixia mecânica, tendo ocorrido na noite de 27 de maio, um dia antes do corpo ser encontrado.

 

O único preso e suspeito no caso

Não demorou muito para o crime ter seu primeiro suspeito. Em 28 de maio de 2012, Antonio Rodrigues Silva dos Santos, conhecido como “Rodrigo”, foi conduzido à DHPP de Cuiabá. Os investigadores descobriram que ele foi a última pessoa na companhia de Juliene naquela noite.  

 

Um parente da vítima afirmou que estava com Juliane e Rodrigo em um pagode e, por volta da meia noite, ambos pegaram carona com o suspeito em seu Gol branco. A testemunha foi deixada em sua casa por Rodrigo, e na sequência, ele deixaria Juliene em casa. Contudo, a jovem nunca chegou.

 

Otmar de Oliveira

Juliene Gonçalves

 

Em seu depoimento, o familiar afirmou que foi acordado no dia seguinte com ligações de uma prima perguntando o paradeiro de Juliene, informando que Rodrigo teria sido a última pessoa a vê-la. Ele ainda citou que Rodrigo teria ido até sua casa na manhã daquele dia entregar o celular de Juliene, que ela teria esquecido em seu carro.

 

Na casa de Rodrigo, os policiais encontraram as roupas e sapatos usados na noite anterior, sendo que os calçados estavam molhados, pois sua mãe teria lavado. As vestimentas foram apreendidas para análise. Pedaços de fios foram encontrados no carro.

 

Em interrogatório, Rodrigo afirmou que conhecia a vítima de vista, que nunca conversou com ela e que familiares dela residiam perto de sua casa. Um dia antes do corpo da jovem ser encontrado, disse que encontrou Juliene e o familiar no pagode, mas não eram íntimos.

 

Por volta da meia-noite, foram embora, porém, deixaram o primo dela em casa primeiro. De lá, seguiram a um trailer de lanche na avenida do CPA e comeram no interior do carro. Depois, ele narrou que a vítima teria pedido para a deixar no pagode Casa Vip, localizado no CPA 3, mesmo não notando movimento no espaço de festas. Trocaram números de telefone e ele disse que chegou a ligar para o celular dela para confirmar se era verdadeiro e tocaria. Contou que a viu encostada no portão e foi embora.  

 

Questionado sobre como encontrou o celular da vítima em seu carro, disse que o aparelho teria caído enquanto ela lanchava ou ao tentar colocar no bolso da calça. Não sabia ao certo. Ao encontrá-lo, tentou ligar, mas estava descarregado.

 

Na manhã seguinte, o primo da vítima ligou para ele e disse que ela não chegou em casa e todos estavam preocupados. Foi então que avisou que o celular de Juliene ficou em seu carro. Horas depois, ligou ao seu advogado para informar que havia deixado a vítima na Casa Vip e temia que suspeitassem que estava envolvido no crime.

 

Ele negou ter lavado o tênis e a roupa que vestia, contudo, o calçado foi achado molhado. O acusado disse que a mãe teria limpado. Sobre os fios encontrados em seu carro, informou apenas que de fato pertenciam ao seu veículo.

 

Muitos depoimentos, nenhuma conclusão

Diversas pessoas que estiveram nas proximidades da Casa Vip naquela noite afirmaram à polícia que viram Juliene no local saindo de um Gol branco, com descrição idêntica ao de Rodrigo, contudo, ela teria saído sozinha, embriagada e seguido por uma rua em direção ao mercado existente nas proximidades. A jovem estava com a mesma descrição de roupas encontradas na cena do crime.

 

Familiares da jovem, amigos e pessoas que tiveram contato com ela nos dias e semanas que antecederam o crime foram ouvidos. Os depoimentos, em geral, foram marcados por desconfiança de ex-namorados, com relatos de que a jovem era até mesmo agredida fisicamente por alguns mais ciumentos e não sabiam quem poderia ter feito aquilo.

 

Chama atenção nos depoimentos que um deles  chegou a sair com a irmã de Juliene no dia em que a jovem foi ao pagode. O casal passou em frente à casa de festas e não a viu. No dia seguinte, por volta das 7 horas, uma amiga ligou informando que houve uma briga na Casa VIP e que haviam matado uma menina, jogando o corpo no campo do Botafogo. A descrição era compatível com Juliene.

 

O dono da Casa VIP disse que naquele dia o estabelecimento fechou às 22 horas e que há tempos não abria de madrugada.

Todos os homens ouvidos ao longo do inquérito relataram que Juliene tinha “má fama” e que ficava com muitos homens, no entanto, não queria envolvimento mais sério, pois estava focada em seus projetos pessoais.

 

Morosidade nas investigações

Menos de um mês após o crime, o suspeito central do caso foi solto. Rodrigo, como era conhecido, teve liberdade concedida por meio de habeas corpus, já que a prisão temporária não foi convertida em preventiva. Não havia provas concretas contra ele. 

 

Em análise feita pela Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), não foram encontradas manchas ou vestígios de sangue nas peças de roupas de Rodrigo, nem em seu veículo Gol, que posteriormente foi devolvido a ele. Quanto à análise de vestígios encontrados no corpo de Juliene, não havia sangue nas roupas. No entanto, no corpo da vítima, foi confirmada a presença de esperma na região vaginal e anal.

 

Ao longo dos anos, despachos e mais despachos foram proferidos, evidenciando o excesso de dilação de prazo, sem que nenhuma diligência fosse direcionada para a conclusão do inquérito. O fato chegou a ser reclamado pelo promotor de Justiça, Reinaldo Rodrigues de Oliveira Filho, em julho de 2016, tendo acompanhado o caso desde o início.

 

O inquérito passou por vários delegados, investigadores que retomavam o inquérito em procedimentos que deveriam ter sido feitos logo após o crime. Somente cerca de quatro anos depois do fato, foi solicitada análise dos últimos contatos telefônicos da vítima.

 

Foi constatado então que o aparelho entregue por Rodrigo ao primo de Juliene, no dia posterior ao crime, nunca foi apresentado à polícia e periciado.

 

De forma emergencial, a delegada que estava naquele momento responsável pelo caso solicitou a quebra de sigilo telefônico dos números que foram informados pelos familiares que seriam dos chips de Juliene. Em agosto de 2016, o pedido foi deferido pela juíza Mônica Catarina Perri.

 

Foi solicitada também imagens de câmeras de segurança de locais onde o carro teria passado, assim como reconstituição do trajeto que a vítima e os dois homens fizeram naquela noite, contudo, não há informações de que chegaram a ser analisadas.

 

As operadoras de telefonia foram intimadas a fornecerem os números registrados como ligações feitas e recebidas no celular da vítima nas horas que antecederam o crime. A última chamada ocorreu às 21h23, do dia 27 de maio e depois uma nova ligação foi recebida às 13h08 do dia 28 de maio, quando já estava morta.


Uma mulher e dois homens ligaram para ela no dia 28, tendo alguns deles sido ouvidos em novembro de 2016, no entanto, não deram declarações significativas. Somente em 2020, as demais pessoas que receberam ligações de Juliene foram intimadas a prestar depoimento.

 

Até o final de 2018, ao menos seis homens que tiveram contato pessoal ou via telefone com a jovem na semana que antecedeu sua morte cederam material biológico para confronto com o que foi encontrado na vítima. Contudo, nenhum era compatível.

 

Em agosto de 2022, o processo foi digitalizado por força da disposição contida na Portaria Conjunta PRES-CGJ n. 371, de 8 de junho de 2020, que trata sobre a desmaterialização dos autos, pela virtualização de processos físicos. Em 2023, foi designada uma perícia de reconstituição dos fatos, com um boneco para simular o corpo da jovem e a intimação de possíveis suspeitos para reconstituir a cena. Contudo, não há informações se foi de fato realizada.

 

Em 2024, o promotor de Justiça Reinaldo Rodrigues de Oliveira Filho devolveu os autos à delegacia pelo prazo de 60 dias, para que a autoridade policial promovesse o relatório final da investigação.

 

Desde então, não se sabe se há novas movimentações ou novidades no caso. A mãe da jovem faleceu antes de ver o crime ser elucidado. Juliene tinha o sonho de cursar educação física e morreu uma semana antes de prestar vestibular.

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