29.08.2008 | 03h00
Como estamos em pleno período eleitoral, precisamos ter a capacidade de discernimento entre a realidade e as fantasiais; entre coisas possíveis e factóides apresentados pelos candidatos. O exercício do voto como símbolo maior da democracia só tem sentido se o povo for capaz de decifrar as mensagens dos diversos candidatos e, ao mesmo tempo, souber identificar alguns mitos políticos que povoam o imaginário coletivo.
Primeiro precisamos entender o que significa "mito". Dentre os vários significados para o termo destacamos: a) idéia falsa, sem correspondência na realidade; b) idéia simplificada de pessoa ou de acontecimento, não raro ilusória; c) coisa fantasiosa; d) forma de pensamento oposta à do pensamento lógico e científico.
Nesta oportunidade, gostaria de identificar alguns desses mitos e como os candidatos, principalmente os demagogos e manipuladores da opinião pública, os utilizam com muita maestria.
Um dos grandes mitos é o da eficiência empresarial transportada para a gestão pública, tentando reforçar a já desgastada imagem do chamado político profissional. Este é um exercício de "desconstrução" da chamada classe política para colocar em seu lugar novos atores, ainda não contaminados pelos vícios dos atuais donos do poder.
Ora, isto é uma grande balela e cai perfeitamente nas concepções mencionadas do que significa mito, antes mencionadas. Existe um mito, ou seja, idéia falsa de que empresários são, por natureza, por vocação ou até por vontade divina, eficientes, eficazes e que a prosperidade alcançada pelos mesmos decorre dessas características ausentes nos políticos tradicionais..
A história não é bem assim. Se esta tese fosse verdadeira não haveria falência, nem concordada, nem sonegação e nem corrupção no meio empresarial ou nas relações de grupos empresariais com os poderes públicos.
Pouca gente se dá conta de que parte da eficiência empresarial decorre das benesses dos poderes públicos através de crédito barato ou até mesmo subsidiado, perdões de dívida, anistias, incentivos e renúncias fiscais e até mesmo burla nas várias legislações relacionadas aos direitos trabalhistas e dos consumidores. Enfim, parte da eficiência e eficácia empresarial e mantida com dinheiro público.
As relações entre empresa e trabalhadores ocorrem numa dimensão de mando x obediência, patrão x empregado, e isto jamais seria possível no contexto da gestão pública, onde tais relações decorrem de uma legislação diferente, com estabilidade e várias outras garantias sociais.
Nas últimas décadas surgiram várias leis que disciplinam as aquisições de bens e serviços por parte dos poderes públicos, as normas orçamentárias, de controle interno e externo, destacando-se a Lei de Responsabilidade Fiscal. Nada disso se aplica ao meio empresarial. O empresário seja ele detentor do controle absoluto ou relativo de sua empresa, pouco importa se empresa individual, familiar ou sociedade anônima, age com um nível de independência e de poder muito maior do que qualquer gestor público.
Existem inúmeros exemplos de empresários que demonstram um alto grau de eficiência e eficácia em seus negócios privados e não conseguem transpor essas qualidades para o setor público. Quando passam do setor privado para o público e tentam aplicar mecanicamente tais princípios esbarram com as amarras partidárias, as negociações, os conchavos, as barganhas e assim por diante.
Aqui mesmo em nosso Estado, ninguém discute a capacidade empresarial do atual governador, isto é facilmente observado pelo crescimento de seu grupo econômico nos últimos anos. Todavia, esta mesma eficiência não tem sido transposta para a gestão pública, onde alguns setores ainda continuam bastante problemáticos como a segurança pública, o meio ambiente, as relações com os servidores públicos, a saúde, a educação e outros mais.
Portanto, para quem imaginava que haveria um grande choque de gestão com a mudança de governo, muita coisa ainda deixa a desejar. Da mesma forma, não podemos imaginar que o candidato a prefeito que vem do meio empresarial e que tenta seguir o mesmo modelo do aplicado no Estado possa ter sucesso.
Falta ao mesmo experiência na gestão pública, maior desenvoltura nas lides políticas, o que poderá representar um retrocesso na condução da máquina pública, além do fato de que o mesmo já está e continuará atrelado a velhas oligarquias que existem em nosso Estado. Portanto, este pode ser mais um mito que é utilizado para iludir o povo!
Juacy da Silva é professor universitário, mestre em sociologia e colaborador de A Gazeta. E-mail: professorjuacy@yahoo.com.br/www.justicaesolidariedade.com.br
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