10.04.2005 | 03h00
A Igreja Católica está de luto. Karol Wojtyla faleceu no dia 2 de abril, após quase vinte e sete anos de papado. Tão logo as portas se abriram para a visita das pessoas, a romaria de centenas de quilômetros e horas de espera se formou. Polonês de biografia contraditória. Sua vida oscilava entre um conservadorismo institucional e um progressismo modernoso. Este perfil, contraditório é verdade, não se configurou em óbice para o seu trabalho pastoral, uma vez que a Igreja registrou um crescimento significativo de fiéis no mundo, principalmente na África e na Índia, somando mais de um bilhão de católicos, grupo majoritário entre os dois bilhões de cristãos.
Isso é um ganho extraordinário. Contudo, é preciso acrescentar, o papa João Paulo II teve, igualmente, um comportamento estreito com relação às questões morais, ao posicionar-se contra o aborto, e sexuais, proibindo o uso da camisinha; bem como impediu, com veemência, a flexibilização da formação de padres, que tem a duração de oito anos, e manteve-se fiel à defesa do celibato obrigatório. Talvez por isso, e não sem razão, frei Beto diz que a Igreja deveria dar maior atenção ao legado de três grandes judeus que fizeram histórias: Jesus, Karl Marx e Fred, pois, argumenta esse dominicano, "a psicanálise é um ganho que deve ser levado em consideração também pela religião" e "não é exagero o Vaticano prestar atenção em Marx, no sentido da crítica do sistema social e da desigualdade, e aceitar a Teologia da Libertação".
Acontece que tal tese vale observar, é inaceitável pela cúpula do catolicismo. Razão pela qual mais de duzentos teólogos se viram expurgados das coisas internas da Igreja por João Paulo II, entre os quais dois dos grandes estudiosos brasileiros das questões teológicas, o próprio dominicano citado acima e Leonardo Bof, e Hans Küng que, em dezembro de 1979, foi acusado de afastar da verdade da fé e, portanto, não poderia mais ser considerado um teólogo católico e professor. O conservadorismo institucional falou mais alto. Daí a suspeita de que o próximo papa não terá origem africana, tampouco sul-americana; mas sim alguém ligado à ortodoxia, seja poliglota, principalmente fale fluentemente o italiano, e, ao mesmo tempo, bom de mídia. A exemplo de Karol Wojtyla. Nenhum papa utilizou tão bem os meios de comunicação como João Paulo II. Cada gesto seu era cuidadosamente ensaiado, preparado. Nada escapava do script: o cumprimento à multidão, o beijar o solo da terra visitada e o acenar para as pessoas com a mão espalmada. Foi um grande ator. Tudo corria como havia sido planejado. Transformou-se, desse modo, no mais popular dos papas, atraindo multidões por onde passava. Foram muitos os países visitados. Alguns dos quais nunca antes visitado pelo guia espiritual dos católicos e chefe do Estado do Vaticano, entre tais países encontra-se Cuba. O polonês Wojtyla portou-se, de fato, como um grande estadista. Igualmente soube falar com a massa. Sua voz foi ouvida com atenção pelo mundo cristão e não-cristão, bem como respeitada por católicos e não-católicos. Aproximou-se de representantes de outras igrejas cristãs e povos de religiões distintas, o que abriu toda uma possibilidade para negociações e conversações com os chamados, equivocadamente, de protestantes, com os judeus e muçulmanos. Além disso, manifestou-se contra o stalinismo, porém não se deve creditar a ele a queda do Muro de Berlim como muitas pessoas costumam fazer; criticou o neoliberalismo, a guerra do Iraque e, principalmente, atacou as desigualdades sociais reinantes. Estas lutas, empreendidas com grande entusiasmo, não podem ser ignoradas, tampouco arquivadas; mas sim mantidas permanentemente na pauta da condução da Igreja Católica. Tem-se aí, e não poderia ser diferente, a importância de Karol Wojtyla para a Igreja Católica, para os cristãos e, enfim, para o mundo.
Lourembergue Alves é professor da Unic, membro do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Letras, presidente do Instituto de Ciências Políticas e Jurídicas de Mato Grosso e escreve neste espaço aos domingos.
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