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22.09.2008 | 03h00

O inglês e a banana

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Qualquer brasileiro sabe que banana existe em vários tipos: banana d"água, da terra, prata, nanica, maçã, ouro e outras. Você diz isso para um inglês e ele acha graça, pois aqui banana é banana e pronto. Não tem variação. Curiosidades lingüísticas como essa impregnam a vida de quem viaja por regiões onde se falam idiomas variados, forçando buscar formas comuns de entendimento.

Se brasileiros e portugueses têm saudade, que significa mais do que as traduções conseguem exprimir, os ingleses, por sua vez, têm wishful thinking, serendipity e ubiquitous, só para ficar em alguns vocábulos que exigem frases inteiras de tradução para explicar o que realmente significam.

Parece aquela história dos esquimós, que supostamente teriam 50 variações para a palavra neve. Cada uma serviria para distinguir tipos diferentes, como neve fresca ou antiga, mole ou crocante, fina ou grossa, e outras modalidades do que, para nós, de clima quente, é apenas neve.

A mesma necessidade existencial que forçou o esquimó a inventar tanta palavra para definir neve levou o escocês de língua gaélica (falada por uma minoria) a criar o termo sgrio. Não me perguntem como se pronuncia, mas significa aquela coceirinha nos lábios pouco antes de saborearmos uma dose de uísque. Tinha de ser na Escócia, não?

É também lá, na terra natal do scotch, que o pessoal da região conhecida como Highlands criou a expressão giomlaireachd para definir o hábito de aparecer na casa das pessoas na hora das refeições. O leitor pode não saber pronunciar essa falha de boas-maneiras, mas certamente deve conhecer alguns praticantes de giomlaireachd explícito.

Quem, se não os alemães, teria o talento para inventar a palavra Schadenfreude? Significa o prazer de se deliciar com o fracasso dos outros. Um prazer que deve aumentar quando eles ouvem algum estrangeiro tentando pronunciar em alemão algo simples como "uma lei sobre reparações de guerra"": Kriegsgefangenanentschadigungsgesetz. Saúde.

O idioma inglês tem peculiaridades que chamam atenção até dos que o dominam como língua materna, mas em diferentes países. Americanos e britânicos, por exemplo, divertem-se quando não conseguem se entender e costumam dizer que são dois povos divididos pelo mesmo idioma.

Na Grã-Bretanha, por exemplo, escola "pública"" significa que é particular. Fag significa cigarro para os ingleses, mas bicha (pejorativo de gay) para os americanos, exigindo cuidado ao se conversar sobre o que costumam pôr na boca. Bicha, em Portugal, significa fila, o que pode ser engraçado, mas pelo menos evita o dilema anglo-americano de saber o que pôr na boca.

Primeiro andar, na Inglaterra (first floor), é o que os americanos chamam de segundo andar (second floor), porque o britânico não conta o térreo e o americano sim. Pavement, nos Estados Unidos, se refere à cobertura de uma rua ou estrada, enquanto na Inglaterra descreve a calçada, diferença que pode levar muito turista a ser atropelado.

Bem parecido com o caso de brasileiros e portugueses, com a diferença de que os anglofônicos divergem em cima de muito mais palavras no dicionário (615 mil no Oxford English Dictionary) do que a última flor do Lácio (450 mil vocábulos no recente super-Aurélio).

Uma pesquisa entre 15 mil pessoas na Inglaterra apontou a palavra mais bonita no idioma inglês: serendipity. Significa o ato de descobrir por acidente algo desejável, quando não se estava procurando. É intraduzível para o português. Tem origem numa história para crianças, sobre o Príncipe de Serendipity, que saía em busca de umas coisas e achava outras melhores.

Uma pesquisa desse tipo inevitavelmente esbarra em lugares-comuns, como love, em terceiro na preferência popular e peace, em quarto. Nada contra o amor e a paz, mas estão longe de conter a poesia de serendipity. Dá para aceitar melhor hope (esperança), em sexto lugar, faith (fé), em sétimo, e compassion (compaixão) em nono, sem derramar lágrimas de glucose. Modismos como as palavras inventadas para as aventuras infantis de Harry Potter inevitavelmente entram na lista, como quidditch, a segunda colocada na pesquisa, inventada pela autora JK Rowling para designar um jogo de hóquei aéreo.

Mais curiosa foi a escolha de onomatopoéia em quinto lugar e football em oitavo. Em décimo lugar, Jesus compartilha a posição com money - permitindo especular por onde anda a fé dos consultados. Intrigante foi o empate de compassion e home em nono, junto com bullshit e fuck - estas duas de tradução só permitida a quem se der ao trabalho de abrir o dicionário de palavrões.

Para os que dão importância a tamanho, a líder na categoria foi pneumonooultramicroscopicsilicovolcanoconiosis. Não sei o que é isso e meu dicionário não esclarece, mas tem pinta de doença séria, que deve doer muito.

Mais de 300 milhões de pessoas no mundo falam alguma forma de inglês, o que não faz dele o idioma mais usado no mundo (nisso o chinês ganha), mas sem dúvida é o mais internacional. Posição que irrita os franceses, invejosos desse privilégio e exaltados na defesa contra o anglo-imperialismo lingüístico, a ponto de exigir por decreto que o termo internacional software seja chamado por lá de logiciel, mas o fim de semana francês é le weekend, mesmo.

O inglês se expande por motivos culturais, econômicos, políticos, mas também porque é um idioma flexível, aberto à infiltração de outras línguas ou dialetos. Quem já ouviu conversa entre negros do Harlem ou americanos de origem hispânica sabe disso. O inglês incorpora gírias novas em alta velocidade e aceita regionalismos sem tentar impor um padrão único de linguagem. Trata-se, enfim, de um idioma com dinamismo incomum.

Só precisa incorporar as variedades de banana.

Silio Boccanera é jornalista em Londres (Inglaterra) e escreve em A Gazeta nas segundas-feiras

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