13.08.2003 | 03h00
Acho que já escrevi, em outro artigo, que eu era da equipe de atletismo de Florianópolis, lá pela primeira metade da década de 1980, corria os 800 metros (1min54s21) e os 1.500 metros (3min58s02). O atletismo foi, durante dez anos, minha grande paixão.
Em 1984, havia uma jovem atleta gordinha que insistia em ser corredora. Ela era uma garota bacana, esforçada e teimosa, mas, francamente, não dava para a coisa. Era baixinha, desengonçada, lerda e (talvez a coisa mais grave) muito gorda. Tanto que os mais maldosos a chamavam pelo maledicente apelido de "Rolha de Poço". Eu, particularmente, que era um "entendido" e raramente errava um diagnóstico ou prognóstico, não tinha nenhuma dúvida: a baixinha não tinha nenhum futuro. E, verdade seja dita, todos (treinadores, professores, atletas experientes...) concordavam comigo, sem pestanejar. A baixinha não levava jeito pra corrida. Cedo ou tarde iria desistir.
Vou encurtar a conversa: no sábado, dia 9 de agosto de 2003, a baixinha ganhou a medalha de ouro na maratona dos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, com a brilhante marca de 2h39min53s.
Sim, senhores. Estamos falando de Márcia Narloch. A catarinense que escreveu seu nome no atletismo do Brasil. Nos últimos quinze anos correu e venceu maratonas no mundo inteiro. Participou de dois jogos Olímpicos (e já está classificada para Atenas em 2004), enquanto nós (os que não acreditamos, em nenhum momento, no seu sucesso) somos ilustres e medíocres desconhecidos.
Como ela conseguiu isso tudo? Fé em si mesma, resistência ao desprezo alheio, disciplina, determinação... e todas as outras virtudes que você puder lembrar.
Nesses últimos dez anos, de vez em quando encontro com amigos, ex-atletas, que presenciaram os primeiros anos de treinamento de Márcia Narloch. É sempre uma cena patética. Nenhum de nós consegue entender direito como é que "aquilo" conseguiu se transformar "nisso".
Mas os que conhecem Márcia mais de perto sabem que ela enfrentou seus dragões com a obstinação dos predestinados e lutou mais (muito mais) que qualquer atleta.
Quando comecei a escrever este artigo, meu objetivo era o de registrar o reconhecimento do meu erro de avaliação em relação a Márcia (um pedido formal de desculpas).
Mas agora vou adiante: conheci muitos atletas olímpicos que nasceram com dons especiais e características naturais para se tornarem grandes campeões. Reverenciamos a esses grandes atletas, mas não podemos deixar de considerar que, nos seus grandes resultados, têm muita coisa que eles já receberam de Deus. Seus corpos já nasceram diamantes. Só precisavam ser lapidados.
Márcia Narloch não nasceu com um diamante. Nasceu com uma pedra ordinária, que ninguém dava nenhum valor. Ela teve de descobrir o valor da pedra e, pela alquimia de muito treinamento e uma determinação inacreditável, transformá-la neste diamante que todos conhecemos agora.
Parabéns, Márcia Narloch, pelas suas medalhas e pelas suas conquistas.
Desculpe a todos nós por não percebermos o valor, que não estava nas suas pernas e sim na sua cabeça e no seu coração.
E muito obrigado por mostrar a todos nós o verdadeiro espírito dos grandes atletas.
Ênio Padilha é especialista em Marketing.
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