23.05.2003 | 03h00
Aqueles dez dias foram dos mais agitados e tensos que já vivi. Os jornais anunciaram a demolição da boate Sayonara e as pessoas me cobravam insistentemente: "Você não pode deixar isso acontecer". Os saudosistas propunham: "Promova lá um grande baile de despedida, que nós te ajudamos".
Fui falar com Nazi Bucair, fundador da boate, e pude ver que ele estava arrasado. "Nunca pensei que ia passar por isso na minha vida". Procurei um dos atuais proprietários, que disse: "Demos um tempão e ninguém fez nada. Consiga pelo menos a palavra do governo, que nós esperamos", me garantiu. Falei com um deputado estadual, que ficou em cima do muro; depois com um federal, um dos maiores vaselinas que conheço: "Nem seu colega Gilberto Gil consegue verba para o seu ministério e você quer tombar uma propriedade particular?". Já aquele senador me deu esperanças: logo estaria me dando um retorno. Tentei agilizar uma audiência com o governador Blairo Maggi, através de Elismar Bezerra, ex-secretário de Cultura, que garantiu rapidez, pois conforme disse, "a causa é nobre".
Contudo, no dia 05 de maio, ao passar em frente da Sayonara, tive um sobressalto: um trator estava demolindo o prédio. "Poxa, me pregaram uma peça. Já estava mesmo tudo certo para acabarem com este patrimônio cultural", pensei. Encostei no muro e fiquei olhando a máquina trabalhar. Lá nos fundos, estava Pascoal Moreira Cabral, não muito ereto, mas ainda orgulhoso pela homenagem que recebeu no dia da inauguração da Sayonara. Mas me pareceu triste, talvez por saber que em poucas horas estaria por debaixo de toneladas de terras.
Cheguei à conclusão de que na verdade já era mesmo tarde pra se tentar alguma coisa. "Nazi poderia ter falado com os proprietários e me chamado para elaborar um projeto de tombamento. Se omitiu e agora eu é que fico aqui triste, com esta cara de bundão, por causa de uma coisa que não tem nada a ver com minha vida. Bem, também não é assim. Na verdade, muitas coisas importantes me aconteceram nesta casa. Foi aqui que, como chefe do Conjunto Sayonara, me sentia orgulhoso em anunciar ao microfone, a presença de amigos e de importantes personalidades do mundo artístico, político e empresarial; foi esta casa que contribuiu para que eu ficasse bastante conhecido, o que tem me facilitado muito coisa; foi aqui que conheci algumas das paixões que tive na vida; indo na Praia dos Artistas, eu me banhava no rio Coxipó, àquela época com água limpa, que até dava pra beber; por longos seis anos foi daqui que bem ou mal, tirei o dinheiro para garantir o sustento da minha família".
Então eu já estava vendo uma multidão se acotovelando para adentrar ao animado recinto da Sayonara. Com tanta gente, a situação estava bastante difícil de ser controlada, como sempre acontecia. Lá no palco, estávamos eu, Carlos Bráulio e Sheila cantando uma música de Trini Lopes. Dezenas de casais dançavam, pessoas pediam as músicas que gostavam e como sempre, havia uma mulher, que mesmo dançando agarradinha com seu homem, me lançava um olhar insinuante. Tirei os olhos da mulher e aplaudi com um expressivo sorriso, o saxofonista Homero e o trompetista Dito Twist, que naquele momento faziam, em dueto lindo e incomparável, o solo da música que estávamos cantando. Os garçons se desdobravam, pois até na parte descoberta as pessoas dançavam, sem se importarem de não acharem vagas no salão de danças. O proprietário da boate andava de um lado para o outro cumprimentando os seus clientes com um largo sorriso semi-escondido por detrás dos seus grossos bigodes, na certeza de que no final da noite seus cofres estariam rechonchudos.
Voltei à realidade e vi que onde antes se enchiam de brilhos, agora era só escuridão. Senti a vista turva e pensei, como um dia pensou Djavan: Será que estou chorando ou parece que vai chover? Passou um carro e ouvi a voz de uma pessoa falando comigo. Era Zé Bala Filho, que gritava: "Não adianta ficar triste, Neuro. Agora já acabou tudo".
Neurozito Figueiredo Barbosa é músico, compositor, professor da UFMT e mestre em Ecologia.
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