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DEU EM A GAZETA 24.05.2026 | 07h00

Predador sexual não tem rosto

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O criminoso sexual é gente como a gente, afirma o promotor de Justiça, Rinaldo Segundo, que atua na 14ª Vara Criminal da Capital. Ele não tem estereótipo, trabalha, tem família, é um bom cidadão. Muitas vezes, são pessoas sem antecedentes criminais, que têm profissão e são atuantes na comunidade. A quarta reportagem da série Arquivo Laranja, sobre o enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, mostra o perfil do predador sexual.

 

O crime acontece em todas as classes sociais e mais de 90% no ambiente familiar. É praticado por pessoas conhecidas, pais, padrastos, tios, primos, vizinhos ou pessoas que têm acesso à casa. Estudos mostram que entre as vítimas de 0 a 13 anos, 65% dos agressores são membros da família e 22% são conhecidos, como vizinhos, padrinhos ou amigos da família.

 

Entre os anos de 2021 e 2025 foram registrados em Mato Grosso 8.470 estupros de vulneráveis, enquanto que nos quatro primeiros meses deste ano foram denunciados 463 casos, uma média de quatro crimes por dia. Dados do Ministério da Saúde mostram que em 2025 foram registradas cerca de 60 mil notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes no País.

 

Conforme o promotor Rinaldo Segundo, os números só aumentam, tanto nacionalmente como em Mato Grosso, e a maior preocupação é com a subnotificação, já que a maioria dos crimes é praticada por aquele que deveria proteger e zelar pela vítima. Muitos casos são abafados e os abusadores ficam impunes. A estimativa é que pouco mais de 10% dos casos chegam ao sistema policial.

 

Há seis anos atuando em ações relativas a crimes sexuais praticados contra crianças e adolescentes, na 14ª Vara Criminal, Rinaldo, que é cuiabano, já se deparou com colega de faculdade como réu. Eu já encontrei gente que trabalhou comigo, encontrei professor que trabalhou com o meu pai por 30 anos e que conheci desde pequeno como réus. Pessoas da minha infância, como vítimas também. Vi que gente que frequentou nossa casa, que brincou com a gente, que era amigo de meu pai, pessoas que faziam parte do seu cotidiano, estavam envolvidos em crimes sexuais contra crianças.

 

Onde menos esperava

 

A assistente social J., 45 anos, nunca imaginou que um de seus três filhos pudesse ser vítima de abuso sexual, já que sempre teve todo o cuidado para orientá-los e esteve presente, acompanhando as suas atividades diárias. Mas, mesmo assim, onde menos esperava, o filho de 13 anos foi abusado, por uma pessoa que ela e a família depositaram toda confiança.

 

Os abusos ocorreram durante um torneio de futebol no interior do estado. Ela lembra que foi a primeira vez que o filho viajou sozinho e ela iria encontrá-lo no final de semana. Quando lembro que entreguei o travesseiro e os documentos do meu filho nas mãos do homem, que era um dos responsáveis pelo grupo e que abusou dele. Pouco antes de entrar no ônibus eu, preocupada, ainda pedi que ele ficasse atento, quando o pedófilo garantiu que não era para eu me preocupar, cita a mãe indignada.

 

Mas acredita que toda a orientação dada ao filho o ajudou a perceber que estava sendo abusado e tomou a rápida decisão de entrar em contato com a família, que o resgatou horas depois e denunciou o crime. O abusador foi condenado a 14 anos de reclusão por estupro de vulnerável, mas aguarda em liberdade os recursos da defesa junto a instâncias superiores.

Predador sexual não tem rosto

 

A médica legista Alessandra Carvalho Mariano, que atua na perícia em vivos junto à Perícia Oficial e Identificação Técnica do Estado (Politec), se depara em seu dia a dia com as vítimas e autores de crimes sexuais e assegura que o predador sexual não tem rosto. Ele se camufla e usa personas diferentes para cada situação e, por isso, não levanta suspeitas. Também está presente em várias faixas etárias, entre adolescentes até idosos.

 

Os abusadores podem ser encontrados no ambiente doméstico (um familiar, amigo, vizinho), no ambiente institucional (escolas, igrejas, espaços públicos), ou ainda no ambiente virtual, onde tem crescido as vítimas de crimes sexuais, alerta Alessandra. Cita casos de vítimas do ambiente virtual que se mutilam ou mesmo tentam suicídio em razão dos abusos praticados por criminoso que se esconde por detrás de uma tela. Cita que não só a violência física deixa marcas, mas os danos psicológicos podem ser irreparáveis.

 

Aliciadas ao ingressarem em páginas de jogos infantis, as vítimas são levadas à masturbação e até introdução de objetos em seus corpos, pelos pedófilos. Por isso, é fundamental que pais e responsáveis acompanhem de perto as atividades das crianças e adolescentes nas redes sociais. Prevenção com orientação é o melhor método de evitar que seu filho também seja vítima, aconselha a médica perita.

 

Segundo o promotor Rinaldo Segundo, de janeiro a julho de 2025, no Brasil, foram denunciados 32 mil crimes cibernéticos contra crianças e adolescentes, entre deepfake, montagem com foto de sexo, abuso sexual pela internet, manipulação de imagens, entre outros. Cita que das quatro audiências realizadas na tarde da última quinta-feira (21), em duas delas os abusos foram por meio virtual.

 

Orientações

 

A médica legista, Alessandra Carvalho, orienta que os pais sempre mantenham diálogo franco com os filhos sobre os perigos que existem no mundo exterior, bem como a maldade no mundo virtual. A criança precisa ser orientada a eleger três pessoas de sua confiança, a quem relatar qualquer situação de desconforto em relação ao seu corpo, inclusive dentro do ambiente familiar. Eleger um familiar, um professor ou um amigo de confiança para denunciar o fato e evitar que os abusos avancem ou se perpetuem.

 

Em relação às redes sociais, a fiscalização dos pais deve ser constante, pois escondem muitos predadores que se passam por crianças e adolescentes. Existem aplicativos de bloqueio e sistemas de censura para monitorar as conversas. É importante lembrar que na primeira fase a criança é conquistada, na segunda passa a ser vítima dos jogos sexuais, seguida de manipulação e a chantagem, quando se sente refém do criminoso.

 

Segundo o promotor, outro dado importante está no fato dos pais ou responsáveis, desde os primeiros anos de vida da criança, ensinarem a ela os nomes reais dos órgãos sexuais e que são intocáveis, inclusive por pessoas próximas. Uma educação sexual voltada para orientar as crianças do que pode ou o que não pode, em relação ao corpo dela, que é intocável, aponta o promotor. Uma pesquisa mostrou que as crianças que têm esse conhecimento acabam afastando os predadores, que temem ser denunciados com mais facilidade pelas vítimas, que já foram orientadas pela família, finaliza Rinaldo Segundo.

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