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MEMÓRIA ELEITORAL 30.08.2026 | 12h00

Das urnas de lona ao voto digital; jornalista relembra a evolução das eleições em MT

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Chico Ferreira/Arquivo Pessoal

Chico Ferreira/Arquivo Pessoal

A história da democracia em Mato Grosso é composta por desafios geográficos, avanços tecnológicos e transformações na rotina de quem tem a missão de registrar os fatos. Se hoje a divulgação dos resultados ocorre poucas horas após o encerramento da votação graças à urna eletrônica, a realidade das apurações na década de 1980 exigia uma logística artesanal, paciência e improviso por parte dos profissionais de imprensa.

 

O jornalista e radialista Oliveira Júnior, integrante do Grupo Gazeta de Comunicação há cerca de quatro décadas, vivenciou esse período de transição, com sua estreia na cobertura eleitoral, que ocorreu em 1986, ainda na extinta Rádio Industrial AM. Ele conta que, na época, a destinação dos repórteres para os municípios do interior era decidida de forma inusitada.

 

“Foi feito um sorteio no palitinho para ver quem iria para o lugar mais longe de cobrir a eleição. E adivinha quem ficou com o maior palito? Eu, né? Eu, na época, inclusive, era menor de idade, tinha 17 anos e fui mandado para Porto dos Gaúchos, a quase 700 quilômetros de Cuiabá”, relembra o jornalista ao .

 

Leia também - A trajetória da urna eletrônica para levar a democracia ao interior de Mato Grosso.

 

Na época, Porto dos Gaúchos (663 km a médio-norte de Cuiabá) realizava sua primeira eleição geral para um eleitorado de aproximadamente 4,5 mil pessoas, segundo o repórter. A disputa pelo governo estadual era polarizada entre Carlos Bezerra (PMDB) e Frederico Campos (PDS), culminando na vitória de Bezerra.

 

Naquele cenário, sem a tecnologia digital, o processo de votação e a contagem dos votos demandavam dias de trabalho intenso.

 

Chico Ferreira

Ultima Urna em papel

 

“Muita gente não sabe, os mais jovens principalmente, mas não existia urna eletrônica, era de lona e o voto era com cédula. O cidadão escolhia os nomes ali e marcava com um X. E a apuração demorava uma semana. Uma semana para a contagem manual dos votos feita pelos escrutinadores, uma figura que eu acho que esse nome ninguém nem usa mais”, conta Oliveira.

 

Para transmitir os números atualizados à emissora em Cuiabá, a rotina exigia deslocamento constante entre o local de apuração e o posto telefônico mais próximo.

 

“Tinha que andar cerca de 600 metros, duas, três vezes por dia, entre o ginásio onde era a apuração e um posto telefônico para ligar para a rádio, para passar as informações com a prancheta, uma calculadora e um lápis para somar aí os votos dos principais candidatos”, relata.

 

A chegada do voto eletrônico na capital 

A mudança estrutural no sistema de votação em Mato Grosso começou a se concretizar dez anos depois. Em 1996, Cuiabá integrou o grupo de capitais brasileiras que testaram pela primeira vez a urna eletrônica nas eleições municipais, oportunidade em que Roberto França (PSDB) foi eleito prefeito no primeiro turno.

 

Apesar da rapidez na apuração proporcionada pelo novo equipamento, o primeiro contato do eleitorado com a interface digital gerou momentos de adaptação nas seções eleitorais.

 

“O problema foi o voto. As pessoas tiveram muita dificuldade para aprender a lidar com a urna eletrônica, então as filas acabaram demorando, muita gente se irritou, deu confusão. Mas, no final, aos poucos, o povo foi aprendendo a usar a urna. Lógico que era uma novidade, todo mundo estranhou, e em 1998 já foi bem mais tranquilo”, explica o jornalista.

 

A transição iniciada na capital em 1996 expandiu-se para polos como Sinop, Cáceres, Rondonópolis e Várzea Grande em 1998, culminando na total informatização do estado nas eleições de 2002. Do trabalho manual dos escrutinadores à segurança dos algoritmos atuais, a evolução das urnas reflete a consolidação do processo democrático no território mato-grossense.

 

Assim, três décadas após o início da informatização e 40 anos depois das contagens manuais em Porto dos Gaúchos, as urnas de lona, as cédulas em papel e os primeiros modelos digitais deixaram as seções eleitorais para integrar o acervo histórico do estado.

 

Para quem deseja ver de perto essa evolução descrita por quem viveu a transição na imprensa e no eleitorado, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MT) mantém uma exposição permanente em seu memorial, na Casa da Democracia, anexa à sede do órgão em Cuiabá. O espaço reúne os equipamentos que marcaram a trajetória da votação em Mato Grosso e fica aberto ao público de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 13h30.

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