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10.04.2005 | 03h00

Começar de Novo sem final feliz

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Mesmo com todas as intervenções de emergência, os autores Antônio Calmon e Elizabeth Jhin não superaram as deficiências de Começar de Novo. Na próxima sexta-feira, dia 15, a novela chega a um fim melancólico, sobretudo pela falta de empatia dos protagonistas, Miguel e Letícia, vividos por Marcos Paulo e Natália do Valle. A audiência da trama, em torno dos 35 pontos, nem foi das piores pouco aquém da bem-sucedida antecessora, Da Cor do Pecado, que tinha média de 41. O amor de Miguel e Letícia pode até ter resistido aos 30 anos de sumiço do mocinho, mas não passou na prova do fôlego. O resultado foi uma história com excessivos remendos à idéia original.

A primeira tentativa foi reforçar a terceira ponta do triângulo amoroso dos personagens centrais. Mandaram Júlia, da jovem Gisele Itié, procurar sua turma e entrou em cena a divertida Gigi, de Carolina Ferraz. Realmente, Gisele não parecia preparada para interpretar uma personagem de tamanha importância. Depois de passar sem dar vexame por papéis mais modestos na minissérie Os Maias e na novela Esperança, a atriz deixou a desejar na pele da avoada Júlia, principalmente nas cenas que exigiam uma dose maior de carga dramática. Mas a situação não melhorou em nada com a chegada de Gigi a Ouro Negro. Carolina é uma atriz carismática, que se dá bem em papéis cômicos, como a tresloucada Rubi de Kubanacan. Em Começar de Novo, ela até garantiu cenas engraçadas, mas não conseguiu acrescentar muito ao lado romântico da história.

O problema, na verdade, se origina na própria concepção dos personagens. De um lado, uma mocinha romântica, que passa 30 anos de sua vida visitando com freqüência o que seria o túmulo de seu namorado da juventude, embora casada e mãe de dois filhos adultos. De outro, o ressuscitado galã, ávido por vingança um tema, diga-se de passagem, bastante árido para o horário das 19 h. O tema faz sucesso há 200 anos no romance de Alexandre Dumas, O Conde de Montecristo, mas na versão assinada por Antônio Calmon e Elizabeth Jhin não arrebatou a audiência. A solução tentada foi tornar o protagonista misericordioso, capaz de perdoar seus algozes. Só que, a partir daí, a história perdeu completamente o rumo. A uma semana do final da história, ele agora luta contra uma doença incurável pelo menos enquanto não chega o último capítulo. Certamente, será redimido pela dor e conquistará o direito ao tão esperado "...e foram felizes para sempre".

Mas não foi só o núcleo central que desandou em Começar de Novo. Ótimos atores, como Guilherme Piva e Betty Gofman, foram abduzidos de cena por causa da rejeição do público. No caso deles, o problema foi o exagero na trama relacionada aos extraterrestres. A brincadeira foi tão longe que não houve nem como amenizar o tom alienígena mantendo alguma função para os personagens na história. Cássia Linhares, que é uma boa atriz, também viu sua Maria ser dispensada por falta de função na trama. E, para piorar a situação, os autores ainda tiveram de enfrentar a ausência do personagem Pedro em momentos cruciais. O ator Vladimir Brichta se afastou dos estúdios por conta de uma hepatite justamente na hora em que o personagem iria assumir a culpa pela tentativa de assassinato de Anselmo, vivido por Werner Schünemann. Por outro lado, a entrada de tipos como Johnny e Thiago, interpretados por Dalton Vigh e Bruno Garcia, não acrescentou quase nada.

Em meio a tantos problemas, sobressaíram os já consagrados talentos de Eva Wilma e Marília Pêra. Na pele da vilã Lucrécia, Eva adotou um tom até exagerado, se apoiando nos excessos do texto, mas sua personagem ganhou muito quando entrou em confronto direto com a Doidona de Marília. Não à toa, as duas contracenaram muito mais nas últimas semanas e propiciaram algumas das melhores cenas da novela. Os autores não chegaram a salvar a novela ao centralizar nas duas divas a eterna luta do Bem contra o Mal. Mas pelo menos criaram, na reta final, um terreno fértil para bons duelos de interpretação.

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