09.05.2004 | 03h00
Preste atenção nele: Daniel de Oliveira, mineiro, 26 anos, 1,74 metro ("bem esticadão", diz), olhos azuis e sorriso fácil. Após temporada de um ano e meio em Malhação, participação na novela A Padroeira e de viver o militante Bernardo, filho de Tarcísio Meira, na minissérie Um Só Coração o ator terá dois papéis de destaque na ficção: o tuberculoso Luís Jerônimo, em Cabocla, e Cazuza, no longa O Tempo Não Pára, de Sandra Werneck, que mostrará a vida do compositor até a sua morte, após contrair o vírus da Aids.
"As doenças me perseguem", brinca o ator, em cartaz a partir de 4 de junho. Daniel foi escolhido para Cabocla também por causa do porte físico. Pequenino e longe do padrão sarado de academia, dará credibilidade a um jovem que lutará contra a tuberculose, sem cura na época. No decorrer do século 19 e até meados do 20, a doença era comum entre poetas, intelectuais, músicos e demais artistas e assim, associada a estilos de vida boêmio.
É a tuberculose que fará Jerônimo conhecer Zuca (Vanessa Giácomo). Filho de pai rico, Joaquim (Reginaldo Faria), exportador de açúcar no Rio, Jerônimo jogou fora o diploma de advogado: gosta de sair à noite, conhecer várias mulheres e não ter compromisso algum. Aconselhado pelo médico Edmundo (Othon Bastos), embarcará para a fictícia Vila da Mata para tratar dos pulmões. Ficará hospedado na casa do primo, o coronel Boanerges (Tony Ramos), local onde Zuca passará a trabalhar.
Os dois se apaixonarão. A cabocla, noiva de Tobias (Malvino Salvador), lutará contra este amor. Daniel, que namora a também mineira Débora Falabella, bateu à porta da Globo para arrumar trabalho. Desde os 12 anos pega no batente: o primeiro emprego foi na loja de balas do tio. Aos 14 foi auxiliar de serviços gerais em uma empresa de plástico e papel. Trabalhava para pagar o curso noturno de teatro, no Núcleo de Estudos Teatrais, em Belo Horizonte.
Agora, os amigos do Núcleo, Arthur Rodrigues e Tom Guimarães, moram no Rio. Formam com Daniel uma banda de rock. O ator arrastou o guitarrista André Fefer (que no filme sobre Cazuza interpreta Maurício Barros) para o Pedras para Moer. "Com a novela, só sobrou as madrugadas para os ensaios", declara Daniel que trabalhava na loja de balas do tio quando o vocalista do Barão Vermelho morreu - em 1990, aos 32 anos. Confessa que sabia pouco da vida dele e que se preparou um ano e meio para o papel: "Tinha apenas o LP da música Burguesia. Ganhei o que tem Exagerado quando fazia o longa."
- Como surgiu o primeiro convite para trabalhar na Globo?
- Bati na porta da Globo, uai! Fui para o Rio por causa de um comercial sobre o combate ao alcoolismo que fiz com o Gianfrancesco Guarnieri. A Manchete gostou e me chamou para um teste para Brida. O projeto foi interrompido mas eu ficava entre BH e o Rio. Quis manter meu apê no Catete para investir na área. Levei a fita com o meu comercial para a "Globo". Até que surgiu um teste para o seriado Mulher. Mas, um produtor de elenco achou melhor eu fazer o teste para Malhação. Quando ensaiava para a peça Êxtase, de Walcyr Carrasco, ele me chamou para A Padroeira (fez o padre Gregório).
- Você entrará no ar como o tuberculoso Luís Jerônimo e como Cazuza no cinema...
- E sem falar que o Bernando (Um Só Coração) pegou uma doença chamada maleita no interior da Bolívia... As doenças me acompanham.
- Como se "libertou" do Cazuza para viver o Bernardo e agora o Luís Jerônimo?
- Ter um tempo entre um personagem e outro é importante. Principalmente após o Cazuza. Precisei de um bom fôlego. Até para voltar ao normal. Para o papel, tirei as sobrancelhas, fiquei sem cabelo, muito queimado de sol e dos bronzeamentos artificiais e muito magro. Cheguei a 57 quilos. No início pesava 72 .
- Você viu Cabocla?
- Não posso ficar preso ao que foi feito. Quando meu personagem estiver consolidado, aí sim vou ver. Para matar a curiosidade e para, quem sabe, fazer uma homenagem ao Fábio Jr. no fim da novela.
- Você já gravou a cena em que descobre que está com tuberculose? Há semelhança com a cena em que Cazuza descobre que está com Aids?
- No filme fizemos uma cena emocionante: estou correndo entre os carros, em direção ao mar e chorando muito. No caso do Jerônimo foi dentro de um consultório. E ele não acredita muito não...
- Qual a diferença de interpretar um personagem fictício e o Cazuza, ídolo dos anos 80?
- Cada um tem sua grandeza, caminho e importância. No caso do Cazuza, que tem história recente, foi muito específico, especial. Tive contato com os pais dele, com os amigos e com os fãs... Para fazer um papel destes é preciso ter sorte.
- Gosta de novela de época?
- A "Globo" tem um cuidado espetacular com os detalhes. Fiz uma cena em que a caixa de fósforos era mesmo da década de 20. Nem tinha idéia que os fósforos só tinham a cabeça branca... Foi engraçado porque foi difícil conseguir riscar o palito... Eu me transporto para a época, as roupas te dão aquela pose, sabe? Adoro.
- Falamos dos seus personagens. Quero saber quem é o Daniel?
- Não sei me definir. Estou sempre me avaliando, mudando de opinião, aprendendo.
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