18.07.2003 | 03h00
Se fosse apenas uma obra narrativa sobre a história de um dos mais importantes designers gráficos do país, o livro Alexandre Wollner -Design Visual 50 Anos já teria conquistado seu lugar entre os clássicos sobre o design gráfico. Mas o livro, que chegou recentemente às livrarias (Cosac & Naify, 336 págs., R$ 139), é um exemplo prático do que Wollner tem procurado construir e alia um impressionante cuidado técnico a uma estética primorosa, construída com rigor e clareza, tendo como objetivo final estabelecer uma relação direta e funcional com o leitor. "Este livro, misto de história do design no Brasil e livro didático, é testemunho e objeto concreto dessa minha atividade", resume ele.
Esse discurso autobiográfico, que tem início com o nascimento do autor em 1928, passa por sua formação, seus relacionamentos de admiração e companheirismo com figuras centrais da arte brasileira (Bardi e Geraldo de Barros) ou internacional. Década a década -pelo menos até os anos 70, quando a lógica cronológica é superposta pela análise dos trabalhos desenvolvidos por ele -, vão se entrecruzando a história pessoal e o contexto nacional mais amplo.
Em parte porque, como lembra Décio Pignatari na introdução da obra, a trajetória dos dois - a de Wollner e a do design gráfico brasileiro - se confunde ao longo desse período. Elas praticamente nasceram juntas e Wollner continua se batendo pelo que julga ser a função essencial do design: uma ação ao mesmo tempo humana e exata, na qual se concilia o técnico e o estético para valorizar a qualidade de vida das pessoas.
Mas sobretudo porque ele continua defendendo seus ideais, aliando a questão ética ao binômio técnica e estética que tanto utiliza para definir seu conceito de design. Sem grandes papas na língua, Wollner conclui sua obra reclamado da falta de grandes avanços no pensamento político e empresarial brasileiro.
O autor de propostas visuais relacionadas a marcas de sucesso como a dos elevadores Atlas, do Itaú, da Metal Leve, do MAM (RJ) e do MAC (SP), chega a criticar o grande símbolo nacional: a Bandeira do Brasil. "Existe ali um elemento negativo muito forte, que intuitivamente a população assimila. A faixa branca Ordem e Progresso está apontando para baixo, como uma estatística negativa. Também não se deve escrever frases em bandeiras, porque elas estão sempre tremulando e não se consegue ler. Estas questões são importantes. As mensagens estão escondidas dentro de um sinal. Intuitivamente você percebe. Não consegue explicar, mas sente. Na Bandeira brasileira, sente-se que existe algo de errado", explicou.
Já que uma das maneiras de mostrar o que está errado é fazer o certo, Wollner idealizou esse livro não apenas a partir de seu conteúdo -acrescido de um pequeno, mas útil glossário de termos essenciais do design -, mas aplicou nele todo seu conhecimento. Tudo é pensado, desde a capa até o tipo e tamanho do papel, letra, comprimento da linha, acabamento... Um registro desse processo de idealização de um objeto, ao mesmo tempo afetivo (sua autobiografia) e industrial, é apresentado com riqueza de detalhes num capítulo especial, intitulado Making of.
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