20.05.2003 | 03h00
O historiador francês Max Gallo é ironicamente comparado a Luciano Pavarotti em seu país - como o tenor italiano em seus bons tempos, quando tanto atraía multidões como recebia elogios da crítica por seus poderosos agudos, Gallo agrada ao grande público ao oferecer biografias romanceadas de nomes históricos sem despertar a crítica dos especialistas. É o caso de Napoleão detalhada história do principal herdeiro da Revolução Francesa, que a Casa Jorge Editorial está lançando em dois volumes.
O francês Gallo é um escritor prolífico, produzindo de dois a três obras por ano. Além da biografia de Napoleão Bonaparte, já contou a vida de Charles de Gaulle, Victor Hugo, além de tratar da história de patriotas franceses e dos cristãos. Recentemente, lançou a biografia do imperador romano César.
Exímio em autopromoção, Max Gallo também tem o dom de dominar a mídia com seus personagens, concedendo entrevistas a todas as emissoras de rádio e televisão, além de jornais e revistas, na época de lançamento de novas obras.
Um dos segredos de seu sucesso é a forma romanceada com que relata histórias de vida, transformando qualquer presença terrena em um encadeamento de fatos emocionantes e surpreendentes que prendem a atenção. E, mesmo sem utilizar notas de rodapé ou posfácios, consegue aplicar um rigor histórico em suas pesquisas, que raramente desagrada aos puristas.
Apesar de sua complexidade, Napoleão Bonaparte (1769-1821), um homem baixo (media pouco menos de 1,68 m de altura), com o torso grande demais para pernas curtas, além de uma cabeça imensa, foi um dos primeiros heróis da era moderna -como imperador da França, conseguiu vitórias marcantes contra Prússia, Áustria e Rússia, tornando-se o senhor da Europa durante sete anos. Um sucesso que custou, porém, a vida de inúmeros soldados.
A derrocada começou quando os países aliados invadiram o território francês e, depois de 20 anos de guerras, obrigam Bonaparte a abdicar em 1814, iniciando um exílio forçado em Elba, pequena ilha do Mediterrâneo.
Menos de um ano depois, ele escapou da ilha e, à frente de 1.200 homens, lutou até sua derrota na Batalha de Waterloo, em junho de 1815, diante de tropas anglo-russas. A forma quase didática com que narra os principais dados biográficos de Napoleão Bonaparte, entrecruzados por momentos de grande tensão, permitiu que Max Gallo acompanhasse a adaptação de sua obra para a televisão que transformou Napoleão em uma minissérie de quatro capítulos, no fim do ano passado.
Foi o suficiente para que o historiador voltasse ao centro de interesse da mídia, aproveitando as entrevistas para responder sobre questões que, segundo alguns críticos, não foram tão bem definidas na vida do imperador. Como o fato de Napoleão ter perdoado juízes, mas não ter libertado os escravos. Gallo justificou dizendo que o problema da escravatura estava ligada à guerra contra a Inglaterra. "Ele buscava a emancipação e, portanto, tinha motivos militares. De maneira alguma apresentava algum resquício racista", afirmou.
Se prefere não tratar da história de personalidades ainda vivas, Gallo admite que o cinema é sua grande inspiração ao adotar o estilo para escrever as biografias romanceadas.
- Para chegar a Napoleão, como foi seu processo de trabalho? Quais documentos serviram como base?
- As memórias, sobretudo. Elas são incontáveis: os textos de Napoleão (cartas, ordens do dia etc.), os registros franceses e estrangeiros. Os arquivos da polícia. E, naturalmente, o Memorial, de Las Cases. Mas o essencial é que, uma vez consultados esses documentos, destacava-se o aprofundamento no "espírito do tempo" e "a alma de Napoleão".
- Como estão seus próximos projetos biográficos. Depois de Napoleão e Charles de Gaulle, o que vem a seguir?
- Recentemente publiquei uma biografia do imperador César. A história do fundador do império romano me parece, nos dias de hoje, de uma penetrante atualidade.
- Ao adotar esse gênero romanesco, com muitos personagens, o sr. às vezes não se sente como um diretor de cinema ou de teatro ao conduzir a história?
- Exatamente, sou um diretor cinematográfico e as palavras são minha câmera. Não posso negar que vejo a construção de um romance como a edição de um filme. Utilizo também certos recursos do cinema, como o zoom, para escrever determinadas passagens.
- O sr. lança uma média de dois a três livros por ano. Há uma receita milagrosa para se escrever tão rápido?
- Não, nenhuma fórmula pronta. Basta trabalhar todos os dias. A obstinação e a paixão são as duas qualidades necessárias para uma criação literária.
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