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25.05.2026 | 12h08

A matemática do meu desejo

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Roberta D'Albuquerque

Divulgação

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Sábado que vem tem show do Tom Zé. Eu iria. Mas só se tivesse parado tudo o que eu estava fazendo quando vi o post da Casa de Francisca para comprar os ingressos. É que São Paulo é meio assim: tem tudo que é show bom, mas quase nunca tu consegues ir. Pois pronto, demorei meia horinha e já não tinha mais.

 

Se eu fosse, ia amar cantar junto um monte de música. Especialmente Augusta, Angélica e Consolação. É que eu moro na Angélica, sabe? Mas nem é por isso. É que a parte do “Angélica (que maldade) / Você sempre me deu bolo (Que maldade) / E até andava com a roupa (Que maldade) / Cheirando a consultório médico / Angélica” me lembra o cheiro de minha mãe quando voltava para casa do seu consultório médico. Para mim, o cheiro dessa Angélica é bom. Porque minha mãe é a pessoa mais cheirosa que eu já conheci. Ia gostar de cantar essa.

 

Agora, se fosse hoje o show — hoje, hoje mesmo —, talvez eu cantasse ainda mais alto A Matemática do Desejo. Tenho pensado tanto sobre isso, minha gente. Não o Tom Zé, o ingresso perdido ou a letra da música; é sobre a matemática do desejo em si. O quanto vale o desejo de quem e tudo que esse pensamento enrola e desenrola. Parece não ter nada a ver, mas vocês vão entender o raciocínio.

 

Vê, acabo de assistir agorinha a um vídeo do jornalista Victor d’Avigneau explicando as filas (sempre maiores) dos banheiros femininos. Já ouvi um tanto de vezes nessas filas, inclusive de mulheres, a reclamação de que nós (como gênero) demoramos demais, por isso a diferença de tempo de espera em relação aos dos homens. Victor explica que um mictório ocupa metade da área de uma cabine fechada de vaso sanitário. Ou seja, há o dobro de posições nos banheiros masculinos. Fora isso — nem precisava ter explicado porque a gente já sabe, mas ele explicou —, na maior parte das vezes são as mulheres que acompanham crianças e idosos ao banheiro. Somado ainda à frequência maior com que nós precisamos usar o banheiro por fatores biológicos, como gravidez e menstruação. Então, quando um arquiteto ou engenheiro escolhe separar a mesma área para banheiros masculinos e femininos em um evento público, pode até parecer, mas ele não está oferecendo aos dois gêneros o mesmo conforto.

 

O mesmo raciocínio serve para a discussão sobre a comunicação do desejo. Homens estão sempre pedindo nas sessões de casais para que as mulheres se comuniquem com mais clareza. Faço coro. Mas lembro a mim, ao homem e à mulher no consultório de que a área da escuta deles precisa, na mesma medida, ser ampliada. O que tenho observado (e nem precisa ser tão sabida assim para observar) é que a distribuição dessas áreas também encontra seus desafios de engenharia. Assim como cresce a fila de espera entre a escuta e a ação, a mudança em direção à equidade (seja na área que for) também desacelera. Se brincar, esperando na fila, a gente perde até nossa música preferida.

 

Lembrei de outra parte daquela da Angélica. É assim: “Quando eu vi que o Largo dos Aflitos não era bastante largo pra caber minha aflição / Eu fui morar na Estação da Luz porque estava tudo escuro dentro do meu coração”. É. Boa semana, queridas.

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br

 

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