14.09.2026 | 11h35
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Ia no fim da ladeirinha da entrada do Pão de Açúcar da Angélica ontem, fim do dia — só que saindo. Tinha cogitado levar o carrinho, mas a única coisa pesada da minha lista era a areia do gato, fui sem nada mesmo. Ocorre que o suco de laranja de 1,5l estava em promoção e lembrei que faltavam leite, ovo e mamão. Então ia no fim da ladeirinha da entrada do Pão de Açúcar da Angélica ontem, fim do dia — só que saindo — cheia de sacolas pesadas e frágeis ao mesmo tempo. E esqueci que chovia, então some a tudo isso um guarda-chuva aberto e apontado pra cima. Não tava exatamente fácil. Eu olhava para baixo, checando se tinha feito a melhor distribuição de pesos entre os dois braços quando senti uma presença próxima, quase um encontrão. Subi a vista e era uma mulher jovem, perto dos 30, também com guarda-chuva numa mão. A outra com um celular, olhos na tela, quase batemos uma na outra.
A moça era a cara da minha professora da quarta série. Eu amava essa professora, embora não me lembre, por nada, de seu nome. Sei que era com R. E sei porque ela tinha um chaveiro de EVA azul clarinho com as laterais de listras coloridas, tudo tom pastel, no formato de um R maiúsculo. Um dia eu elogiei o chaveiro, ela tirou o danado da bolsa e disse: é teu. Então, eu amava essa professora, mas foi por causa dela que percebi talvez a verdade mais doída da infância: os adultos são quase todos loucos e não sabem, mas não sabem mesmo, o que estão fazendo.
Foram duas situações. No primeiro semestre, uma colega de sala sofreu um acidente e precisou fazer uma cirurgia na barriga. No desejo de alertar a turma para que outros não acontecessem, essa mulher pediu pra menina subir na mesa e levantar a camiseta diante dos colegas. Queria nos assustar com a cicatriz recém-adquirida. Eu tinha 10 anos, idade suficiente para saber que isso não se faz. Tadinha da menina. Nunca esqueci da cicatriz, nem da de fora nem da que provavelmente se desenhou por dentro. Lembro de olhar pro meu meião branco como se ao não encarar a cena pudesse evitá-la.
No segundo semestre foi pior. Nosso último encontro tinha se dado na festa de São João. Eu abandonei a quadrilha na metade, uma história horrorosa que inclusive já contei aqui. Ela se chateou. Na volta das férias decidiu não falar mais comigo, nem bom dia. Era a única professora de sala, certo? Se eu levantava a mão pra fazer uma pergunta, ela fingia que não via; se eu entregava a prova pronta em sua mão, apontava para um colega, para que ele intermediasse a entrega. Isso até o ano acabar. Acredita?
Pois que ontem, cheia de pacotes e guarda-chuva, voltei à quarta série. A sósia da professora R também subiu a vista, olhou bem pra mim, sorriu e pediu desculpas. Tomei como as desculpas que queria ter ouvido quando menina e respondi que tudo bem. Na minha cabeça de adulta a certeza de que às vezes também não sei muito o que estou fazendo. Meio que ninguém sabe.
Rosângela. Rosângela. Lembrei agorinha. Beijo pra ela, pra menina da cicatriz, pra Carlos André, meu par da quadrilha, pra mim e pra vocês. Boa semana, queridos.
Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br
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