06.02.2026 | 11h22
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Em uma sociedade obcecada por métricas externas de sucesso — salário, status, bens materiais e reconhecimento público — há um mestre silencioso que insiste em nos lembrar do essencial. Ele anda sobre quatro patas, não possui diplomas e desconhece qualquer noção de prestígio social. Ainda assim, domina com maestria a disciplina mais fundamental da existência humana: a matéria do amor.
O cachorro não avalia contas bancárias, roupas ou títulos. Para ele, pouco importa se o lar é uma mansão ou um quarto simples. O que realmente conta é a presença daqueles que ele reconhece como sua matilha. Em um mundo que valoriza excessivamente o "ter", o cachorro nos ensina, sem palavras, o valor do ser e do estar.
Sua filosofia de vida é simples e profunda. Amor se demonstra com tempo, atenção e constância. Sua lealdade não é condicionada nem estratégica; é oferta diária, gratuita e desinteressada. Enquanto nós calculamos afetos e medimos entregas, ele permanece inteiro.
Esses animais nos ensinam virtudes que livros de autoajuda e treinamentos corporativos tentam sistematizar: lealdade, empatia, perdão e presença. A ironia é que nós, que nos orgulhamos da racionalidade, frequentemente fracassamos nessas lições básicas. Condicionamos o afeto, acumulamos ressentimentos e esquecemos o "agora".
Essa falha ética se torna ainda mais evidente quando a indiferença dá lugar à violência. O caso do cachorro Orelha, em Santa Catarina — morto de forma brutal — expõe uma ferida moral que não pode ser ignorada. Agressões contra animais indefesos revelam o quanto ainda precisamos evoluir enquanto sociedade. Respeitar a vida de quem não ameaça deveria ser um princípio básico, não uma exceção. A razão, quando desvinculada da empatia, mostra-se insuficiente e perigosa.
O cachorro, alheio ao valor monetário das coisas, compreende o valor daquilo que realmente importa. Ele não distingue classes sociais; para ele, herói é quem chega ao fim do dia e cruza a porta. O espaço que ocupa em nosso coração é preenchido com uma dedicação que redefine o verdadeiro significado de riqueza.
Talvez seja tempo de revermos nossas prioridades. Antes de buscarmos o próximo cargo, o próximo título ou a próxima conquista, poderíamos aprender com esses mestres silenciosos. A lição que oferecem — sem custo, sem exigências — é uma das poucas capazes de combater a solidão e restaurar vínculos.
No fim da vida, dificilmente seremos lembrados pelo salário que recebemos. O que permanece é o amor que soubemos dar e receber. O cachorro já entende isso. Vive essa verdade todos os dias, à espera de que nós, seus aprendizes relutantes, finalmente aprendamos.
Soraya Medeiros é jornalista.
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