Publicidade

Cuiabá, Segunda-feira 04/05/2026

Colunas e artigos - A | + A

04.05.2026 | 12h38

O perdão como instrumento de dominação

Facebook Print google plus

Enildes Corrêa

Divulgação

Divulgação

Lembro-me de uma conversa com um sábio indiano sobre as religiões. Disse ele: “As religiões surgiram pelo mal-entendido dos discípulos da palavra dos Mestres”. É justamente em interpretações equivocadas dessa natureza que originam incontáveis problemas e, muitas vezes, se legitimam abusos das mais diversas configurações, sob o disfarce da virtude.

 

Nesse cenário, o que dizer da distorção, por parte de sacerdotes de diferentes tradições, acerca do verdadeiro sentido do perdão, por exemplo? Há evidências de que muitos orientam mulheres a suportar relações claramente abusivas em nome da “preservação” da família e de um perdão indevidamente atribuído a Jesus Cristo.

 

Jesus pregou o amor, a dignidade e a justiça — jamais se colocou ao lado de quem pratica violência ou qualquer forma de opressão, em hipótese alguma. O perdão que ensinou, porém, insere-se em outra perspectiva e não deve ser usado para justificar ou legitimar violações.

 

Diante do uso distorcido e da manipulação do ato de perdoar — tanto por parte de lideranças religiosas quanto dos próprios agressores —, torna-se urgente distinguir atritos familiares de quadros de violência doméstica.

 

Enquanto conflitos interpessoais podem ser solucionados pelo diálogo e levar à ressignificação das relações, o abuso é um padrão de controle, dominação e anulação da vítima. Quando silenciado por um pseudo-perdão, pavimenta o caminho para o feminicídio ou para o colapso emocional da vítima, resultando inclusive em suicídio.

 

Estudos científicos apontam que a violência cometida pelo parceiro íntimo é um grande fator de risco para a ideação suicida. As agressões provocam fissuras emocionais profundas e intenso sofrimento psíquico.

 

Existe um ponto de inflexão em que o perdão deixa de ser virtude e precisa ser criticamente confrontado. O que acontece quando, em nome dele, se silenciam violências? Quando a reconciliação passa a significar permanência em um sofrimento insustentável?

 

É fundamental compreender a diferença entre conflitos relacionais e condutas abusivas. Atritos fazem parte da convivência humana: desentendimentos pontuais, frustrações e falhas acontecem em qualquer relação. Saber relevar certas situações pode fortalecer vínculos familiares, sociais e evitar o isolamento.

 

Mas violência é outra coisa.

 

Violência física, psicológica, moral, sexual ou patrimonial não são “problemas de casal” — são crimes. E crime não se tolera nem se perdoa; denuncia-se.

 

Diante da epidemia de feminicídios no Brasil — com 1.568 vítimas em 2025 — essa distinção salva vidas.

 

É preciso observar atentamente os sinais. A violência raramente começa com agressão física. Em geral, inicia com palavras, desvalorização, xingamentos, humilhações e formas sutis de controle que acabam sendo normalizadas como “grosserias” ou “jeito de ser”.

 

Mas não são. A agressão verbal já é violência — e, quando naturalizada, torna-se o primeiro degrau de uma escalada perigosa de abusos, às vezes irreparáveis

 

Ignorar esses sinais resulta em mais mulheres alvejadas, silenciadas e assassinadas pela violência de gênero, frequentemente alimentada por discursos de supremacia patriarcal, que encontram abrigo até mesmo em religiões institucionalizadas.

A divergência se transforma em abuso quando o respeito deixa de existir. Quando surgem humilhação, controle, medo ou intimidação com ameaças, chantagens, o alerta deve ser imediato.

Se há medo, não há relação saudável.

A violência doméstica costuma ser progressiva. Por isso, reconhecer os primeiros sinais é essencial para interrompê-la e possibilitar a libertação dos perigosos relacionamentos abusivos.

 

Agir a tempo pode impedir que a violência evolua não somente para o feminicídio, como também para um aprisionamento psicológico — este, muitas vezes invisível, mas igualmente devastador — que pode desencadear outras tragédias, inclusive o suicídio, como mencionado anteriormente.

 

À luz desse contexto, as instituições de Justiça e segurança pública não podem se omitir. Incumbe-lhes o dever de reconhecer, com rigor, os casos em que a violência prolongada culmina em desfechos fatais ou autodestrutivos — um fato mais frequente do que se admite publicamente. Lamentavelmente é uma realidade subnotificada, porém relevante sob a perspectiva jurídico-penal e da proteção de direitos fundamentais.

 

Quando uma mulher é levada à morte por um processo de autodestruição, após sofrer torturas psicológicas e chantagens reiteradas em um relacionamento abusivo, impõe-se uma pergunta incontornável, que exige honestidade: trata-se de suicídio ou de feminicídio? Um crime sem arma de fogo, mas executado com armas igualmente letais: a humilhação, o medo, o pânico e a destruição psíquica da vítima.

 

Quando o respeito se rompe e o medo se instala, já não se trata de desentendimento — é violência, que
pode levar à morte. Nenhuma agressão se relativiza, nem se negocia, nem se silencia. Exige resposta imediata e responsabilização criminal rigorosa do agressor. O silêncio diante de tais situações implica conivência e contribui para a perpetuação de estruturas de injustiça.

 

Se você é vítima, reúna forças para procurar os órgãos que podem auxiliá-la, como a Delegacia da Mulher, o Ministério Público - Espaço Caliandra e a Defensoria Pública - NUDEM (Núcleo de Defesa da Mulher).

 

Vale reforçar: a vergonha é do agressor, jamais da vítima! Proteja sua vida. Proteja sua integridade. Apoie outras mulheres.

E, se você presenciou qualquer ato de violência contra uma mulher, não se cale.
Denuncie. Falar é um ato de coragem — e pode salvar vidas.


Ligue 180.

 

Enildes Corrêa é administradora, palestrante, cronista, professora de yoga e orientadora de meditação

Voltar Imprimir

Publicidade

Comentários

Publicidade

Edição digital

Segunda-feira, 04/05/2026

imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
imagem
btn-4

Indicadores

Milho Disponível R$ 66,90 0,75%

Algodão R$ 164,95 1,41%

Boi à vista R$ 285,25 0,14%

Soja Disponível R$ 153,20 1,06%

Publicidade

Classi fácil
btn-loja-virtual

Publicidade

Mais lidas

O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.

Copyright© 2022 - Gazeta Digital - Todos os direitos reservados Logo Trinix Internet

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.