25.02.2026 | 10h05
Divulgação
Durante muito tempo, o turismo foi visto como uma atividade restrita a lugares com praias paradisíacas, patrimônios históricos famosos ou paisagens naturais extraordinárias. Essa visão limitada ainda faz com que muitas cidades brasileiras acreditem não possuir “vocação turística”. No entanto, o turismo contemporâneo mostra exatamente o contrário: ele não depende apenas de vocação — depende de estratégia, criatividade e planejamento.
Quando trabalhado de forma sustentável e estruturada, o turismo se torna uma poderosa ferramenta de desenvolvimento econômico, especialmente para municípios que buscam alternativas de geração de receita, diversificação econômica e fortalecimento do comércio local. Mais do que visitantes, o turismo movimenta cadeias produtivas inteiras: hospedagem, alimentação, transporte, cultura, artesanato, eventos e serviços diversos.
Em cidades que enfrentam estagnação econômica ou êxodo de jovens em busca de oportunidades, o turismo pode representar uma resposta concreta. Ao criar novos negócios e empregos — muitos deles ligados à economia criativa — a atividade contribui para manter talentos locais, estimular o empreendedorismo e fortalecer o sentimento de pertencimento da população.
O impacto vai além da economia. O turismo promove inclusão social, valoriza identidades culturais, preserva tradições e transforma aquilo que antes era apenas cotidiano em oportunidade de negócio. Uma receita tradicional, uma festa local, uma paisagem comum aos moradores ou uma história regional podem se tornar experiências desejadas por visitantes.
E talvez o ponto mais importante: existem cidades que não se enxergam como turísticas porque ainda não compreenderam que o turismo é, essencialmente, a arte de criar oportunidades.
Exemplos internacionais e nacionais mostram isso com clareza.
A cidade de Gramado, na Serra Gaúcha, não nasceu como um destino turístico consolidado. Era uma pequena comunidade de colonização europeia, sem grandes atrativos naturais de destaque nacional. O que mudou sua trajetória foi a decisão estratégica de investir em identidade, paisagismo, gastronomia e, principalmente, turismo de eventos. Iniciativas como o Festival de Cinema de Gramado e o Natal Luz foram criadas antes mesmo de existir grande fluxo turístico. Primeiro veio o projeto — depois vieram os visitantes.
Outro exemplo emblemático é Medellín, na Colômbia. Durante décadas associadas à violência, a cidade não possuía qualquer apelo turístico tradicional. Sua transformação ocorreu por meio de inovação urbana e inclusão social, com projetos como o sistema de teleféricos urbanos conhecido como Metrocable, que integrou comunidades periféricas ao restante da cidade.
Arquitetura, mobilidade e políticas sociais transformaram territórios antes estigmatizados em referências mundiais de turismo de inovação e transformação social.
Esses exemplos mostram que o turismo não nasce pronto — ele é construído.
No caso de estados como Mato Grosso, o potencial é ainda mais evidente. Trata-se de uma região formada por cidades jovens, com forte presença de migrantes de diversas partes do Brasil, riqueza cultural em formação e enorme diversidade econômica. Algumas possuem natureza exuberante. Outras são protagonistas do agronegócio. Muitas ainda não consolidaram uma identidade turística clara, mas todas possuem matéria-prima para desenvolver experiências.
Criar oportunidades em lugares que acreditam não ter vocação começa com planejamento: inventários turísticos, planos estratégicos, definição de identidade, participação comunitária e objetivos claros. Perguntas simples orientam o caminho: quem somos? Onde queremos chegar? Que experiências podemos oferecer? Quanto queremos crescer?
A partir daí inicia-se um processo criativo que envolve narrativa, marketing e posicionamento. Histórias geram conexão. Trilhas podem incorporar mitos e lendas regionais.
A gastronomia pode transformar produtos locais em experiências — como aprender a fazer um queijo típico ou participar de colheitas rurais. Experiências na natureza podem incluir piqueniques, contemplação e vivências culturais, como já ocorre em destinos internacionais como o deserto do Deserto do Atacama, onde refeições ao ar livre se tornaram produtos turísticos valorizados.
O Brasil ainda explora pouco seu potencial. O país recebe cerca de 8 milhões de turistas internacionais por ano — um número modesto diante de sua dimensão territorial e diversidade cultural. Para efeito de comparação, o Museu do Louvre recebe sozinho aproximadamente esse volume anual de visitantes, enquanto Portugal ultrapassa 30 milhões de turistas por ano.
Em estados como Mato Grosso, a promoção internacional ainda está concentrada principalmente no Pantanal — que, felizmente, vive um momento de alta demanda — enquanto outros territórios permanecem pouco explorados turisticamente. Isso não deveria ser visto como limitação, mas como oportunidade de expansão.
O turismo precisa ser tratado como política pública estratégica, investimento econômico e ferramenta de desenvolvimento humano.
Mais do que esperar vocação, é hora de criar destinos.
Porque o turismo, quando bem planejado, não apenas movimenta economias — ele transforma vidas, fortalece comunidades e constrói futuros possíveis para cidades que desejam crescer.
Amanda Maciel é turismóloga, especialista em Cultura da Inovação e consultora em turismo.
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