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Cuiabá, Sábado 23/05/2026

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QUANDO O ÓDIO EDUCA 23.05.2026 | 17h00

Desafio de criar meninos longe da misoginia na 'machosfera'

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Helena Werneck - Especial para o GD

redacao@gazetadigital

REPRODUÇÃO

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A criação de meninos na atualidade ganhou uma nova camada de alerta: a formação emocional, que antes já esbarrava em frases como “homem não chora”, agora disputa espaço com algoritmos, fóruns, vídeos e influenciadores que vendem uma masculinidade baseada em controle, ressentimento e desprezo pelas mulheres. Esse ambiente é conhecido como “machosfera”, termo usado para definir uma rede de comunidades digitais masculinistas que, sob o discurso de falar sobre dificuldades dos homens, frequentemente espalha ideias de misoginia, oposição ao feminismo e falsa noção de que os direitos das mulheres avançaram “às custas” dos homens, segundo a ONU Mulheres.

 

O tema preocupa porque não está restrito à internet. De acordo também com a ONU Mulheres, a misoginia online tem avançado para pátios escolares, ambientes de trabalho e relações íntimas. O conteúdo costuma chegar aos jovens disfarçado de conselho sobre namoro, autoestima, corpo, dinheiro ou “desenvolvimento masculino”, mas pode normalizar a violência contra mulheres e meninas e aproximar adolescentes de discursos extremistas.

 

No Brasil, o problema também aparece em números. Um relatório do NetLab/UFRJ, em parceria com o Ministério das Mulheres, analisou 76,3 mil vídeos de canais associados à chamada machosfera no YouTube. Juntos, esses conteúdos somavam mais de 4 bilhões de visualizações e 23 milhões de comentários, com discursos de aversão, desprezo e controle sobre mulheres. Em atualização divulgada pelo NetLab em 2026, 123 dos 137 canais mapeados em 2024 seguiam disponíveis na plataforma e já acumulavam mais de 23 milhões de inscritos.

 

A exposição começa cedo. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024 mostra que 83% dos usuários de internet de 9 a 17 anos possuíam perfil próprio em pelo menos uma plataforma digital. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, esse índice chegava a 99%. O levantamento também apontou que 76% usavam redes sociais e 78% jogavam online, ambientes onde comunidades fechadas, fóruns e conteúdos recomendados por algoritmo podem influenciar comportamentos, afetos e visões de mundo.

 

A violência virtual já aparece como sintoma dessa disputa. Dados do Observatório Nacional dos Direitos Humanos, divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, mostram que, entre 2017 e 2022, foram registradas 293,2 mil denúncias de crimes de ódio na internet. A misoginia foi o crime de ódio que mais cresceu no período: passou de 961 denúncias em 2017 para 28,6 mil em 2022, alta de quase 30 vezes.

 

Já a SaferNet registrou, em 2025, 63.214 notificações relacionadas a imagens de abuso e exploração sexual infantil, a segunda maior marca da série histórica da organização, além de aumento de 39% nos atendimentos do canal Helpline, com destaque para casos de exposição de imagens íntimas.

 

Nesse cenário, especialistas ouvidos pelo apontam que o desafio não é apenas vigiar telas, mas criar meninos capazes de reconhecer frustrações, nomear sentimentos e construir relações sem violência.

 

O limite entre opinião e crime

Para a delegada Liliane Diogo, da Delegacia da Mulher, a criação de meninos influencia diretamente a forma como eles vão lidar com limites, frustrações e relacionamentos na vida adulta. Segundo ela, a cultura patriarcal ainda ensina, muitas vezes dentro de casa, que o homem ocupa um lugar de superioridade em relação à mulher.

ACERVO PESSOAL

DELEGADA

 

 

“Precisamos incentivar nossos filhos a entender que mulheres e homens devem ter igualdade de tratamento. Ainda hoje temos famílias que não permitem que os filhos homens realizem tarefas domésticas, e isso incentiva a cultura do machismo. Com certeza, cria dificuldade para esses meninos quando virarem adultos em lidar com limites, frustrações e igualdade dentro do relacionamento”, afirma.

 

A delegada alerta que discutir masculinidade não é o problema. O risco aparece quando o discurso passa para a humilhação, o menosprezo e o ódio contra mulheres.

 

“Não há nada de errado em discutir comportamento social masculino. O problema surge quando ultrapassa esse limite e passa para um discurso de misoginia, de humilhação feminina, de desprezo pelas mulheres. A partir desse momento, pode configurar crime”, explica.

 

Segundo Liliane, pais, mães e escolas devem observar sinais como isolamento, afastamento de meninas, uso de termos pejorativos e consumo de conteúdos que inferiorizam mulheres.

 

“Muitas vezes, ele teve acesso a conteúdo impróprio, entende aquilo como verdade e passa a disseminar. Por isso, os pais precisam olhar com lupa o que os filhos estão consumindo na internet”, pontua.

 

Quando a rejeição vira violência

Um dos pontos centrais, de acordo com a delegada, é ensinar meninos desde cedo a lidar com rejeição. Ela relata que muitos casos atendidos na Delegacia da Mulher começam após o fim de um relacionamento.

 

“A família tem que ensinar desde pequeno o menino a lidar com a frustração, a entender que certas vezes ele vai ser rejeitado, e isso é normal. Temos vários casos na delegacia em que o homem não aceita o fim do relacionamento e, por não aceitar perder aquela mulher, passa a praticar atos de violência e perseguição”, afirma.

 

Para Liliane, a separação precisa ser compreendida como direito da mulher, e não como perda ou posse. “É um direito dela seguir a vida da forma que achar por bem, e muitos não entendem isso”, completa.

 

Misoginia não é meme

A delegada também chama atenção para a naturalização de discursos violentos em forma de piada, meme ou opinião.

 

“Muitas vezes, falas violentas aparecem disfarçadas como piada, mas isso dissemina a cultura do machismo e do menosprezo à mulher. Misoginia não é meme, não é só opinião. Pode ser crime, apologia ou incitação ao crime”, afirma.

 

Segundo ela, a responsabilização pode ocorrer tanto no ambiente escolar ou universitário quanto na esfera criminal, dependendo da gravidade do caso.

 

Violência começa pequena

Na prática da Delegacia da Mulher, Liliane afirma que muitos casos graves começam com comportamentos vistos como “pequenos”: controle de celular, exigência de localização, restrição de amizades, críticas à roupa, ao batom ou à aparência.

 

“O ciclo de violência muitas vezes começa com xingamento e controle emocional daquela mulher, e isso evolui para algo mais grave. Tudo se inicia com atos menores, que muitas vezes são normalizados, quando na verdade tinham que ser combatidos desde o início”, explica.

 

A delegada reforça que controle não é cuidado, e que a mulher deve procurar ajuda quando perceber perseguição, ameaça ou insistência após o fim da relação. “Situações pequenas não devem ser tratadas como normais. Se ele não aceita, procure a delegacia, denuncie e solicite medida protetiva”, orienta.

 

Ela lembra que a medida protetiva não se aplica apenas a casamentos ou relações longas. “Cabe em relacionamento de um dia, por exemplo, em caso de ficante que está perseguindo”, afirma.

 

Educação emocional

Para o psicólogo Chrysthyan Emanuel Nazareth de Carvalho, o maior desafio dos pais hoje é ajudar os meninos a desenvolverem inteligência emocional em meio a uma transição cultural. Segundo ele, os meninos são cobrados para serem mais sensíveis, comunicativos e empáticos, mas continuam sendo bombardeados por antigos padrões de masculinidade.

 

ACERVO PESOAL

PSICO

 

 

“Eles ainda seguem sendo bombardeados, seja nas redes sociais, na mídia e até mesmo, por vezes, pela própria família, com antigos padrões sociais que ditam uma masculinidade tradicional, onde homens não choram, não demonstram vulnerabilidade e devem resolver tudo pelo poder ou pela agressividade”, afirma.

 

O psicólogo avalia que a resposta das famílias não deve ser o controle rígido, mas o fortalecimento dos vínculos e da vida emocional dos filhos. Para ele, quando a internet ocupa lacunas como tédio, solidão ou sensação de inadequação, o ambiente digital pode se tornar um refúgio perigoso.

 

“A intervenção mais eficaz não é controlar rigidamente, mas fortalecer a psique deste menino. O objetivo é fazer com que os vínculos familiares e o mundo real sejam mais atraentes e seguros do que esses refúgios alternativos buscados”, explica.

 

Chrysthyan também chama atenção para a diferença na criação de meninos e meninas. Enquanto elas costumam ser educadas para o cuidado, a comunicação e a vigilância sobre o próprio comportamento, eles muitas vezes recebem mais liberdade física, mas menos permissão emocional.

 

“Os meninos tendem a receber uma criação mais permissiva para que se sujem, corram riscos e ocupem espaços com mais liberdade, mas há uma severa repressão da demonstração de fragilidade, que acontece bem precocemente. O famoso ‘menino não chora’ é um forte exemplo”, pontua.

 

Presença, não só proibição

A psicóloga Isabela Cristina da Silva Sampaio também vê a educação emocional como ponto central. Para ela, muitos meninos crescem ouvindo, mesmo de forma indireta, que precisam ser fortes o tempo todo, esconder sentimentos e não demonstrar vulnerabilidade. Esse aprendizado, segundo a profissional, pode dificultar a forma como lidam com frustrações, inseguranças e relações interpessoais.

 

ACERVO PESSOAL

PSICO 2

 

 

“Uma criação saudável envolve acolhimento emocional, diálogo e presença ativa dos responsáveis. É importante que os meninos aprendam desde cedo que podem falar sobre sentimentos, inseguranças e dificuldades sem vergonha ou punição”, afirma.

 

No mundo digital, Isabela defende que os pais acompanhem o conteúdo consumido pelos filhos, conversem sobre internet de forma aberta e ensinem pensamento crítico, em vez de apenas proibir. Segundo ela, muitos conteúdos online oferecem respostas simples para dores emocionais complexas, especialmente na adolescência.

 

“Quando o menino tem vínculo familiar, espaço de escuta e referências saudáveis, ele tende a desenvolver mais segurança emocional e menos vulnerabilidade a discursos de ódio ou extremismo”, destaca.

 

A psicóloga orienta que isolamento excessivo, raiva constante e discursos hostis contra mulheres não devem ser tratados como “fase” ou apenas como rebeldia. Para ela, esses sinais podem indicar sofrimento emocional, dificuldade de pertencimento ou influência excessiva de determinados conteúdos online.

 

“O principal é não ignorar esses sinais e também evitar agir apenas com confronto ou punição. O ideal é buscar aproximação, fortalecer o diálogo sem julgamento e procurar compreender o que esse adolescente está consumindo e sentindo”, afirma.

 

Problema Social

A criação de meninos é uma das frentes mais urgentes na prevenção à violência contra mulheres. Em um cenário em que a internet oferece respostas rápidas para frustrações e inseguranças, família e escola precisam ensinar, desde cedo, que rejeição não é humilhação, limite não é afronta e afeto não é posse. Combater a machosfera começa no diálogo, na educação emocional e na construção de uma masculinidade que não transforme dor em ódio, nem frustração em violência. 

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