PROTAGONISMO FEMININO 08.03.2026 | 11h00

maria.klara@gazetadigital.com.br
Montagem GD
No Dia Internacional da Mulher celebrado neste 8 de março, histórias de coragem e transformação ganham ainda mais destaque. Em Mato Grosso, personagens femininas atravessaram séculos, deixando marcas profundas na cultura, na política e na identidade do estado.
Entre essas figuras estão Tereza de Benguela, Mãe Bonifácia e Maria Taquara, mulheres que desafiaram o contexto social de suas épocas e se tornaram símbolos de resistência e protagonismo.
Para falar sobre a importância dessas trajetórias, a reportagem do
conversou com a historiadora Cristina Soares, doutoranda em História, artista plástica e escritora, que pesquisa a presença feminina e negra na história de Mato Grosso.
A rainha do Quilombo do Quariterê
No século XVIII, em meio ao período colonial, Tereza de Benguela se destacou como uma das maiores lideranças quilombolas da história brasileira. Ela governou o Quilombo do Quariterê, localizado na região de Vila Bela da Santíssima Trindade.
Segundo Cristina Soares, a liderança da rainha quilombola durou cerca de 40 anos. “Ela governou por cerca de 20 anos ao lado de José Piolho e, após a morte dele, assumiu a liderança e permaneceu mais duas décadas à frente do quilombo”, explica.
O local não era apenas um refúgio para pessoas que fugiam da escravidão. O quilombo funcionava como uma comunidade organizada, com produção de alimentos, comércio e estratégias de defesa. “Ali era um espaço de liberdade. As pessoas produziam, comercializavam e viviam em sociedade. Era um território de resistência”, afirma a historiadora.
A forma de organização política também chamava atenção. “As decisões eram tomadas coletivamente, em uma espécie de parlamento. Isso mostra a força da participação social e também da liderança feminina”, destaca.
Mãe Bonifácia: cura e saber ancestral
No século XIX, outra figura feminina marcou a história de Cuiabá: Mãe Bonifácia. Ex-escravizada e posteriormente alforriada, ela se tornou conhecida pelo conhecimento sobre plantas medicinais e práticas de cura.
“Mãe Bonifácia tinha um saber ancestral muito importante. Ela trabalhava com plantas e ajudava a curar pessoas, algo que muitas benzedeiras fazem até hoje”, explica Cristina Soares.
Além disso, ela também era artesã e produzia rendas feitas com bilros, um trabalho delicado e valorizado na época. Durante a Guerra do Paraguai, sua casa chegou a servir como abrigo para pessoas doentes e soldados que precisavam de cuidados.
Apesar de ter contraído varíola nesse período, Mãe Bonifácia viveu até cerca de 80 anos, algo raro para a população negra naquele contexto histórico. Hoje, o nome dela permanece vivo em um dos principais espaços de lazer da capital, o Parque Mãe Bonifácia.
Maria Taquara: liberdade e transgressão em Cuiabá
No século XX, a personagem que se tornaria uma das mais lembradas da capital mato-grossense caminhava pelas ruas de Cuiabá com uma postura considerada revolucionária para a época. Lavadeira de profissão, Maria Taquara ficou conhecida pela personalidade forte e pela forma livre de viver.
“Ela trabalhava, saía, bebia, fumava e fazia o que queria da própria vida. Em um período em que muitas mulheres ainda lutavam por direitos básicos, ela já rompia várias dessas barreiras”, afirma a historiadora.
Maria Taquara também ficou marcada por ser uma das primeiras mulheres a usar calça em Cuiabá, atitude considerada ousada naquele período. Com o tempo, surgiram narrativas e estigmas sobre sua vida, muitas vezes associando sua liberdade a julgamentos sociais. “Existe um olhar estigmatizado sobre o corpo da mulher negra. Muitas vezes tentaram rotulá-la de forma injusta”, explica Cristina Soares.
Apesar disso, sua figura permanece viva na memória da cidade e foi eternizada em uma escultura no centro da capital.
Para Cristina Soares, o fato de muitas dessas trajetórias ainda serem pouco conhecidas está ligado a um processo histórico de invisibilização.
“Existe uma intencionalidade de não contar a história negra. Quando essas histórias não são divulgadas, as pessoas passam a acreditar que não existem referências fortes no passado”, afirma.
Segundo a pesquisadora, conhecer essas histórias fortalece a identidade coletiva. “Quando olhamos para essas mulheres, percebemos que nossos passos vêm de longe e que existe uma linhagem de força, inteligência e resistência.”
As trajetórias de Tereza de Benguela, Mãe Bonifácia e Maria Taquara atravessam os séculos XVIII, XIX e XX, mas continuam dialogando com os desafios enfrentados pelas mulheres na atualidade.
Para Cristina Soares, essas personagens representam inspiração e provocação. “Elas deixam um legado de força e de potência. São mulheres que mostram que é possível romper limites e construir novos caminhos.”
No Dia Internacional das Mulheres, lembrar dessas histórias também é uma forma de reconhecer que a construção da sociedade mato-grossense passa, necessariamente, pelas mãos e pela coragem de mulheres que desafiaram seu tempo.
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