DEU EM A GAZETA 29.08.2026 | 07h00

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No mundo da política, a amizade, a parceria e o discurso de ontem podem virar munição no palanque de hoje. Em Mato Grosso, o intervalo entre uma eleição e outra foi suficiente para transformar antigos aliados em adversários declarados e colocar o ex-governador Mauro Mendes (União) no centro de uma teia de relações que se rompeu justamente quando 2026 entrou no radar. Vídeos de campanhas passadas, discursos elogiosos e alianças que pareciam sólidas hoje contrastam com acusações, ataques públicos e “pedidos de desculpas” ao eleitorado.
Um dos exemplos mais emblemáticos é a relação entre Mendes e o senador Wellington Fagundes (PL), que disputa o governo do Estado. “Wellington defendeu nosso Estado, ajudou a trazer a ferrovia para Cuiabá e a fazer com que ela chegue a Nova Mutum e Lucas do Rio Verde”, dizia Mendes na campanha em 2022. “É nessa parceria com Mauro que temos certeza de que estamos no caminho certo”, devolveu Fagundes.
Quatro anos depois, os dois estão em lados opostos. O senador passou a criticar a situação das rodovias, a aplicação de recursos no Parque Novo Mato Grosso e decisões da gestão estadual. Ao defender que obras do parque fossem parcialmente suspensas para priorizar habitação e estradas, foi chamado de “cara de pau” pelo ex-governador. O parlamentar respondeu acusando Mendes de agir com “imperialismo”.
Com o senador Carlos Fávaro (PSD), a guinada também foi radical. Em 2018, Fávaro rompeu com o então governador Pedro Taques, de quem era vice, abandonou a chapa à reeleição e aderiu ao projeto de Mauro Mendes. Naquele período, fazia campanha entusiasmada pelo então candidato ao governo. “Nas minhas andanças por Mato Grosso, as pessoas me perguntam por que eu quero Mauro Mendes governador? Porque ele é mais. Mais competente, dedicado e trabalhador”. “Tenho certeza que Carlos será um grande companheiro no Senado”, retribuiu Mendes à época.
Em 2026, porém, a relação azedou após a deflagração da Operação Heritage, que investiga supostos desvios de R$ 308 milhões dos cofres públicos por meio de um acordo entre o governo do Estado e a empresa de telefonia Oi. Mauro citou Fávaro entre lideranças que, segundo ele, exerceriam influência sobre a Polícia Federal para atingir adversários. “Ninguém está acima da lei. A Polícia Federal é uma instituição de Estado, não de governo. Suas investigações são técnicas, isentas e seguem o rito legal”, rebateu Fávaro.
Rompimento explosivo
A transformação mais explosiva, contudo, talvez seja a de Mendes com o senador Jayme Campos (União). Em 2018, Jayme era um dos principais cabos eleitorais de Mendes e justificava o apoio destacando os feitos prévios do então aliado. “Mauro fez uma ótima administração à frente da Prefeitura de Cuiabá. É uma pessoa preparada e tenho visto qualidades fundamentais no ser humano: fazer compromissos que podem ser cumpridos. Ele só fala a verdade, eleitor não quer mentirosos”.
Em 2026, após a convenção do União Brasil que barrou sua candidatura ao governo e consolidou a aliança do partido com o governador Otaviano Pivetta, articulada por Mendes, Jayme passou a atacar duramente o ex-governador. O senador colocou sob suspeita contratos, dispensas de licitação e pagamentos da gestão anterior, chegando a afirmar que, se os contratos fossem revisados e se falasse o que sabe, “vai faltar cadeia aqui em Mato Grosso”. Entretanto, nenhuma denúncia formal foi apresentada pelo parlamentar.
Durante discurso na tribuna do Senado neste mês, Jayme subiu ainda mais o tom e pediu desculpas aos mato-grossenses por ter ajudado a eleger Mendes à frente do estado. “Eu quero pedir ao povo de Mato Grosso minhas desculpas. Perdão por ter saído em 2018, puxando por essas mãos aqui, apresentando o cidadão Mauro Mendes. Eu esperava que esse homem fosse de bom caráter, mas é um homem desumano que envolveu até uma criança, sua filha de 10 anos, como cotista de empresas para lavagem de dinheiro”.
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