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REALIDADES DIFERENTES 25.10.2026 | 13h00

'Voto feminino não é homogêneo e vai além da polarização', afirma socióloga

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Em Mato Grosso, as mulheres representam 51,39% do eleitorado, com 1.356.173 eleitoras aptas a votar, enquanto, no Brasil, são 83.887.627, o equivalente a 52,84% dos eleitores. O alto número reforça o peso das mulheres nas disputas eleitorais e a importância de compreender a diversidade de fatores que influenciam suas escolhas, especialmente em um ambiente de polarização política.

 

Para a doutora em Sociologia e cientista política Christiany Fonseca, o voto feminino não segue uma lógica única e não pode ser explicado apenas pela divisão entre direita e esquerda. Em um cenário de polarização, fatores como renda, religião, escolaridade, condições de vida e confiança nos candidatos ajudam a explicar por que mulheres podem fazer escolhas diferentes, mesmo diante de uma mesma disputa eleitoral. 

 

Acervo Pessoal

Christianny Fonseca

A analista política Christianny.

Conforme a especialista, um dos erros mais recorrentes nas estratégias eleitorais é associar o voto feminino a uma única orientação ideológica. Embora as mulheres representem uma parcela decisiva do eleitorado, suas experiências sociais e econômicas influenciam a maneira como interpretam as candidaturas e definem suas prioridades nas urnas.

 

“Uma mulher que enfrenta dificuldades para sustentar seus filhos, por exemplo, pode avaliar a disputa eleitoral a partir de critérios distintos daqueles mobilizados por uma empresária ou por uma mulher cuja principal preocupação esteja relacionada à preservação de determinados valores morais e religiosos. Isso não significa que suas escolhas sejam determinadas exclusivamente por essas condições, mas que a formação das preferências políticas ocorre dentro de realidades sociais distintas. O pertencimento ao mesmo gênero não produz necessariamente as mesmas prioridades, percepções e preferências partidárias”, afirma Christiany.  

 

Em eleições marcadas pela disputa entre campos políticos opostos, essa diversidade ainda se sobressai. Para a analista, a polarização pode dificultar a compreensão das diferentes motivações das eleitoras quando as campanhas tentam enquadrá-las em posições rígidas.

 

A confiança nos candidatos, a percepção de segurança, as condições econômicas e a capacidade de governar também podem pesar na decisão, sobretudo entre eleitoras que não mantêm vínculos fortes com partidos ou grupos políticos.

 

“Mulheres não são simplesmente receptoras passivas dessas disputas. Elas interpretam candidaturas, avaliam lideranças, estabelecem identificações e também rejeições. O grande equívoco das campanhas é imaginar que conquistar o voto feminino significa apenas construir um discurso direcionado às mulheres. O desafio é compreender que não existe uma única mulher brasileira, mas diferentes realidades femininas atravessadas por desigualdades, valores e expectativas. Em uma eleição polarizada, ignorar essa diversidade significa desconhecer uma parcela decisiva da sociedade e, consequentemente, do próprio eleitorado”, pontua.    

 

A segurança aparece entre os fatores que podem influenciar a decisão das eleitoras, mas, para Christiany, o tema precisa ser analisado para além do combate à criminalidade. A sensação de proteção também envolve a possibilidade de circular livremente, viver sem violência doméstica, garantir o sustento da família e ter acesso a serviços públicos.

 

Em Mato Grosso, onde o enfrentamento à violência contra a mulher e ao feminicídio permanece um desafio para o poder público, a discussão ganha relevância. A especialista destaca que a insegurança feminina também está relacionada à dependência econômica, à precarização do trabalho, à sobrecarga das responsabilidades familiares e à falta de redes de proteção.

 

“A segurança ocupa uma dimensão central na vida das mulheres. Para uma parcela da população feminina, sentir-se segura envolve a possibilidade de circular pelos espaços públicos sem medo, viver sem violência dentro da própria casa, garantir condições materiais para sustentar a família e ter acesso a serviços públicos capazes de assegurar proteção e autonomia. Não é possível falar em segurança para as mulheres sem discutir a violência de gênero como expressão de relações historicamente desiguais de poder”, emenda.  

 

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

mulheres vivas

 

Na avaliação de Christiany, conquistar o voto feminino exige mais do que incorporar pautas relacionadas às mulheres aos discursos eleitorais. É necessário compreender como desigualdades sociais, expectativas econômicas, valores morais e experiências pessoais interferem na relação das eleitoras com a política.

 

A especialista ressalta que a percepção de segurança e a confiança nas lideranças também são construídas a partir da comunicação eleitoral, o que exige atenção à diferença entre promessas e resultados concretos. Para ela, a autoridade política precisa ser avaliada pela capacidade de implementar políticas públicas e enfrentar as desigualdades que tornam determinados grupos mais vulneráveis.

 

“Determinadas lideranças conseguem construir uma imagem de autoridade, firmeza e capacidade de impor ordem, enquanto outras despertam confiança pela capacidade de diálogo, pela estabilidade institucional ou pela apresentação de políticas sociais. Nenhuma dessas características garante, isoladamente, maior proteção às mulheres”, explica.

 

Christiany destaca ainda que as campanhas precisam considerar as diferentes expectativas das eleitoras, sem presumir que todas priorizam as mesmas pautas ou respondem aos mesmos discursos. A disputa pelo voto feminino, segundo ela, passa pela apresentação de propostas que dialoguem com as condições reais de vida das mulheres e ofereçam perspectivas de autonomia.

 

“Em uma democracia, o voto feminino não deveria ser disputado apenas por meio do medo ou de promessas de proteção. Deveria ser conquistado pela credibilidade de projetos capazes de assegurar condições concretas de liberdade, dignidade e autonomia”, conclui.

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