DADOS DO DATASENADO 24.10.2026 | 12h10

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Geovana Albuquerque/Agência Brasília
A 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025, revelou que três em cada dez mulheres de Mato Grosso viveram ao menos uma situação de violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento, mas não reconheceram espontaneamente essas experiências como violência. O dado expõe uma dificuldade que vai além do acesso à rede de proteção: reconhecer e nomear a própria violência.
De acordo com o levantamento, 29% das mato-grossenses relataram situações concretas de violência ao responder a perguntas sobre experiências específicas, sem que o termo “violência” fosse mencionado. O percentual é o mesmo registrado no país e, considerando a margem de erro, não há diferença estatística entre Mato Grosso e o resultado nacional.
Quando questionadas diretamente se haviam sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores à pesquisa, porém, 14% das mulheres de Mato Grosso responderam que sim.
A diferença entre os resultados indica que parte das mulheres pode vivenciar situações de violência sem identificá-las ou nomeá-las dessa forma. Isso também pode dificultar a busca por ajuda e fazer com que esses casos não cheguem aos serviços de proteção, às delegacias ou à Justiça.
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Ao considerar toda a vida, 33% das mato-grossenses afirmaram já ter sofrido violência doméstica ou familiar provocada por um homem.
Entre as mulheres que relataram ter sofrido violência provocada por um homem, 88% disseram ter sido vítimas de violência psicológica, 84% de violência física e 70% de violência moral. Em 59% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão. Do total de vítimas no estado, 10% ainda convivem com a pessoa que as agrediu. Entre essas mulheres, 79% moram com o agressor.
Ciúme e término
Nas situações de violência consideradas mais graves, o ciúme aparece entre as principais circunstâncias relatadas pelas vítimas. Para 59%, o agressor estava com ciúmes no momento da violência, enquanto 52% afirmaram que ele estava inconformado com o término ou com uma tentativa de encerramento do relacionamento. Outras 43% relataram que o agressor estava bêbado.
A violência também interfere nas decisões e na rotina das vítimas. Entre as mulheres que encerraram o relacionamento com o agressor, 82% disseram que a violência teve muita influência na decisão. O impacto na rotina diária foi sentido por 72% das vítimas, enquanto 68% afirmaram que o convívio com outras pessoas foi afetado. Além disso, 45% disseram que os estudos foram impactados e 43% relataram consequências na vida profissional ou no trabalho remunerado.
Debate sobre feminicídio
A dificuldade em reconhecer e nomear a violência também aparece no debate público em Mato Grosso. Nos últimos meses, políticos do estado fizeram declarações questionando a diferença entre homicídio e feminicídio ou a caracterização de mortes de mulheres como feminicídio.
Em agosto, o então candidato ao Senado Antônio Galvan (Avante) afirmou que não via diferença entre feminicídio e homicídio e defendeu que homens e mulheres recebessem a mesma punição em crimes cometidos em circunstâncias semelhantes. Durante entrevista, ele também disse que não considerava Mato Grosso um estado machista e criticou a diferenciação entre os crimes.
“Eu não concordo com pena diferenciada em termos de morte para ninguém. Se o crime for dentro da mesma situação, eu não concordo. A mesma penalidade tem que existir para a mulher que matar um homem por conta de crime passional, como o homem para a mulher”, declarou Galvan na época.
Mais recentemente, o deputado estadual Gilberto Cattani (PL) defendeu a deputada estadual eleita Eduarda Campopiano (PL), que havia declarado que “feminicídio não existe”. Na ocasião, Cattani afirmou que sua própria filha, Raquel Maziero Cattani, não havia sido assassinada por ser mulher.
Raquel foi morta a facadas em julho de 2024. Segundo as investigações, o ex-marido dela, Romero Xavier Mengarde, mandou o próprio irmão, Rodrigo Xavier Mengarde, cometer o crime porque não aceitava o fim do relacionamento. Os dois foram condenados pelo assassinato.
“O que ela falou foi o seguinte: você tem uma pessoa sendo morta pelo que ela é. Isso não existe; a pessoa é morta por um motivo. Eu vou falar da minha família; por exemplo, a minha filha não foi assassinada por ser mulher. Ela foi assassinada pelo relacionamento que ela tinha com uma pessoa totalmente desequilibrada, que tirou a vida dela porque não aceitava o fim do relacionamento. Foi isso que a Eduarda Campopiano falou”, afirmou.
A declaração contrasta com o entendimento adotado pela Justiça no próprio caso. Em janeiro deste ano, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso informou que o Tribunal do Júri reconheceu, por unanimidade, que o assassinato de Raquel ocorreu contra uma mulher em contexto de violência doméstica e familiar, caracterizando o feminicídio.
Como o crime ocorreu em julho de 2024, antes da entrada em vigor da Lei 14.994/2024, o feminicídio foi aplicado como qualificadora do homicídio, conforme a legislação vigente à época. Os irmãos foram condenados por homicídio qualificado, com o reconhecimento do agravante do feminicídio.
A legislação atual também não exige que uma mulher seja morta simplesmente “por ser mulher” para que o crime seja enquadrado como feminicídio. Desde outubro de 2024, a Lei 14.994 tornou o feminicídio um crime autônomo e estabeleceu que há razões da condição do sexo feminino quando o crime envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
No caso de Raquel, portanto, o vínculo com o relacionamento e o inconformismo diante do fim da relação não afastaram a caracterização jurídica do feminicídio. Pelo contrário, o contexto de violência doméstica e familiar foi reconhecido pelo Conselho de Sentença.
Falta de conhecimento
A pesquisa também aponta que o conhecimento sobre os instrumentos de proteção ainda é limitado em Mato Grosso. Embora 97% das mulheres tenham afirmado conhecer ou já ter ouvido falar da Defensoria Pública e 93% da Delegacia da Mulher, 70% dizem conhecer pouco a Lei Maria da Penha e 8% afirmam não conhecer nada sobre a legislação.
Em relação às medidas protetivas, 69% dizem conhecê-las pouco e 15% afirmam não ter conhecimento sobre o recurso. Ao todo, 84% das mulheres têm conhecimento superficial ou inexistente sobre essas medidas.
Entre os serviços de proteção, a Defensoria Pública aparece como o mais conhecido, citada por 97% das mulheres. Em seguida estão a Delegacia da Mulher, com 93%; os CRAS ou CREAS, com 85%; e o Ligue 180, conhecido por 79%.
Ao mesmo tempo, 73% afirmam conhecer alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que já sofreu violência doméstica ou familiar. A percepção de que o problema está se agravando também é expressiva: 82% das mato-grossenses dizem ter notado aumento desse tipo de violência nos 12 meses anteriores à pesquisa. Além disso, 69% consideram o Brasil um país “muito machista”.
Para Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, os números mostram a necessidade de ampliar o acesso à informação antes mesmo de a vítima chegar à rede de proteção.
“Ampliar a rede de proteção é fundamental, mas os dados mostram que precisamos olhar também para o que acontece antes de a mulher chegar à rede. Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda”, afirmou.
Cenário nacional
O levantamento ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais em todo o Brasil, entre 16 de maio e 8 de julho de 2025. A pesquisa tem amostra probabilística e nível de confiança de 95%.
Os dados nacionais também revelam uma diferença entre o número de mulheres que reconhecem ter sofrido violência doméstica ou familiar e o das que relatam situações compatíveis com esse tipo de violência ao responder a perguntas sobre episódios específicos.
Apenas 4% das brasileiras afirmaram ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores à pesquisa. Quando questionadas sobre situações específicas, sem que o termo “violência” fosse mencionado, o percentual chegou a 33%.
Na prática, isso significa que 29% das brasileiras relataram experiências compatíveis com violência doméstica, mas não identificaram espontaneamente essas situações como violência.
Para Beatriz Accioly, gerente de Políticas Públicas pelo Fim da Violência contra as Mulheres do Instituto Natura, reconhecer e nomear a situação vivida é uma barreira anterior ao próprio acesso às políticas públicas de proteção e acolhimento.
“Para quase 25 milhões de brasileiras, a violência aparece apenas quando perguntamos o que aconteceu, mas desaparece quando perguntamos diretamente se elas sofreram violência. Isso revela uma barreira anterior ao próprio acesso à política pública: reconhecer e nomear o que se está vivendo. Se a mulher não reconhece o que vive como violência, torna-se muito mais difícil procurar proteção e acolhimento. Por isso, informação de qualidade não é algo acessório: é parte fundamental de qualquer política pública de enfrentamento à violência contra as mulheres. Não basta que a rede esteja preparada para acolher quem chega; precisamos também criar caminhos para alcançar quem ainda não consegue reconhecer que pode buscar ajuda”, afirmou.
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