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Cuiabá, Terça-feira 15/10/2019

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28.07.2018 | 00h35

Cabo Gerson faz confissão na grampolândia e diz que Paulo Taques bancou escutas

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Chico Ferreira

Cabo Gerson Corrêa confessa participação em esquema de escutas e diz que Paulo Taques financiou

Em seu interrogatório, já na madrugada deste sábado (28), o cabo da Polícia Militar, Gerson Luiz Ferreira Corrêa Júnior, réu em processo criminal juntamente com outros 4 policiais, confessa que participou do esquema de escutas clandestinas que ficou conhecido como “grampolândia pantaneira”. Ele revela detalhes de como era operado e afirma diante do juiz Murilo de Moura Mesquita, da 11ª Vara Criminal Militar, que foi o advogado e ex-secretário chefe da Casa Civil, Paulo Taques, que arcou com as despesas para viabilizar a central de escutas.

Conforme o policial, as escutas eram para fins eleitorais na campanha de 2014, mas somente quando já estava envolvido é que tomou conhecimento disso, pois inicialmente foi informado que seria para investigar policiais suspeitos de envolvimento com tráfico de drogas. Ele revelou ainda que recebeu de Paulo Taques a quantia de R$ 50 mil para comprar os equipamentos necessários para montar a central de interceptações.

“Foi quando eu e Lesco deslocamos (em setembro) até um lugar que não sei se é escritório ou comitê de campanha, fomos até o bairro Consil, em uma casa onde Paulo Taques trabalhava, e pegamos os R$ 50 mil, pegamos o dinheiro e começamos a comprar o que precisava. Eu e Torezan montamos o sistema dentro da sala locada para operacionalizar. Com o dinheiro arrumamos tudo e ainda ficou em caixa, quem comparava tudo era eu e Torezan”, revela Gerson.

O esquema, de acordo com o policial, começou em 2014, no período eleitoral quando Paulo Taques era coordenador da campanha do primo, o hoje governador Pedro Taques (PSDB). Conforme o policial, tudo começou no final de julho de 2014 quando recebeu uma ligação do coronel Zaqueu Barbosa, na época comandante-geral da Polícia Militar de Mato Grosso.

Também são réus no processo os coronéis da PM, Zaqueu Barbosa, Evandro Alexandre Ferraz Lesco e Ronelson Jorge de Barros e ainda o tenente-coronel Januário Antônio Edwiges Batista. Todos foram interrogados na audiência que começou às 13h30 desta sexta-feira (27) e se estende pela madrugada de sábado. Gerson ficou por último e desde que chegou ao Fórum de Cuiabá já estava preparado para fazer a confissão em juízo.

Leia também - Militares réus por esquema de grampos são interrogados; coronel Zaqueu chora

Ao ser ouvido, o coronel Zaqueu negou participação no esquema. Mas agora, na madrugada, Gerson confessa e afirma que recebia ordens diretamente de Zaqueu. "Tudo que eu fiz foi com autorização do meu sub chefe do Estado maior, o 03 da Polícia Militar", afirmou o cabo ao relatar que no final de julho de 2014 recebeu uma ligação do coronel Zaqueu para ir até o Comando Geral da Polícia Militar. "Eu estava no Gaeco subordinado ao coronel Lesco. Compareci e ele me fez uma explanação que queria fazer uma limpeza na instituição e que tinha como missão retirar alguns policiais com desvio de conduta", revelou o Gerson logo no início da confissão para explicar como acabou envolvido na chamada "grampolândia pantaneira".  

De acorco com Gerson Corrêa, o advogado Paulo Taques pagou R$ 50 mil para fazer o sistema Whitron e depois outros R$ 34 mil para fazer o sistema Sentinela "O interesse é do governador Pedro Taques e do senhor Paulo Taques, sem nenhuma sombra de dúvidas", disse o policial num determinado momento da confissão. Em seguida, nega que outras pessoas, do Poder Judiciário ou do Ministério Público tenham pedido para ele fazer interceptações. 

Veja os principais momentos da confissão

1h35 - "A parte de escutar e copiar os diálogos de pessoas que não fosse da PM era minha, mas as interceptações contra PMs evoluíram e teve vários flagrantes. Gente que foi pega com droga, comercializando arma de fogo vinda do Paraguai, esse serviço teve resultado positivo sim, vale destacar isso. Foi então, em outubro, que coronel Zaqueu me apresentou a sargento Andreia e o cabo Dorileo e eles passaram a me auxiliar no escritório. Estes 2 já tinham conhecimento bem básico de interceptação porque já tinham trabalhado no Gaeco. Passei a ensinar eles todos os procedimentos, como escutar, como fazer resumo de diálogo. Bom explicar que nós estámos falando ainda do Sistema Whitron e não do sistema Sentinela, era muito arcaico, não tinha como separar o que escuta o quê. A medida que foi passando o tempo foi incluindo via Zaqueu nas interceptações vários policiais, de vários lugares do Estado, não só de Cáceres. E esses alvos foram sim ouvidos pela Andréa e pelo Dorileo", diz ele. 

Interceptação de candidatos no final de setembro de 2014

O policial segue descrevendo detalhes e citando os desdobramentos de como operava os equipamentos de escuta. "Eu ia a noite no escritório apenas a noite, e atualiza todo dia as conversas interceptadas. Tentava atualizar mas não conseguia sozinho. Na véspera da eleição me veio uma nova leva de números, já era final de setembro, foi na semana que antecedeu a eleição. Impossível realizar interceptação uma pessoa só. No primeiro dia eu falei pro coronel Zaqueu, que me prometeu arrumar alguém pra me ajudar, mas aí veio essa nova leva. E aí eu fiz um 2º relatório, entreguei pra ele, e ele me começa a explicar a inclusão de cada número. Nomes ligados à campanha daquele pleito de 2014, seja do candidato Lúdio Cabral seja do Riva, mas os nomes estavam com apelido. Um deles era o Muvuca, que o apelido era o Mumu, foi aí que liguei uma coisa com a outra, com as conversas com Paulo Taques". 

1h15 - O cabo Gerson Corrêa é questinado sobre outros nomes de pessoas interceptados e cita os advogados José Antônio Rosa, José do Patrocínio e o vereador Chico 2000. "É difícil lembrar, assessores de vereadores, advogados. Nessa oportunidade não tinha Janaína Riva nem desembargador José Ferreira Leite. Dentro do gabinete do Zaqueu eu tomei conhecimento do pano de fundo que existiria. Cada um dos alvos ele me explicou os motivos. Muvuca: ameaça real ao candidato ao governador, tinha ação contra ele, ameaça. Os assessores, José Patrocínio, o objetivo era pegar um flagrante de crime eleitoral nas coligações adversárias". 

Ele segue dando mais detalhes. "Ele [Zaqueu] ficou constrangido de me explicar os alvos, mas ele confiava em mim, eu juro que aquela noite eu não dormi, não fiz mais nada, mas eu nunca entrei em um serviço e deixei por terminar, eu nunca falei não por ninguém. Ainda estava convicto que eu iria realizar um serviço pra Polícia Militar. Sei que veio a decisão judicial na véspera da eleição. Eu não ouvi nenhum deles, gravei em um pendrive e entreguei para o coronel Zaqueu. Entreguei todo dia, no sábado véspera de eleição passei a noite entregando pendrives com as gravações, isso já no segundo relatório, que também teve decisão do juiz da comarca de Cáceres. A senhora Tatiane Sangalli nossa defesa tentou trazer ela. Todas as interceptações eu ouvia da boca do coronel Zaqueu. O Lesco me passou R$ 2,4 mil de aluguel e nunca reportei nada a ele de gravações. Eu reportei a quem me deu determinação que foi o coronel Zaqueu. O motivo da Tatiana Sangali ser ouvida eu ouvi da boca do coronel Zaqueu, que ela era amante do Paulo Taques e estava ameaçando ele. Estas pessoas, se não me falha a memória, foram ouvidas apenas no pleito eleitoral e depois não mais, essas pessoas que eu falo é essas envolvidas na eleição". 

00h38 - Logo no início de seu depoimento, o cabo relata que vai falar a verdade e que não fez nenhum acordo de delação premiada.  "A defesa a todo momento desde o início desse processo veio na busca da verdade real, e a busca da verdade real perfaz alguns caminhos, caminhos estes que passam pela minha pessoa. Tentei que fosse ouvido o senhor Paulo Taques e a minha defesa tentou inclusive ouvir o chefe do Executivo e infelizmente por questões processuais eles não puderam colaborar", disse Gerson.

"Se eu errei ou não não sou eu que devo julgar e sim as vossas excelências. Eu tô sendo acusado de falsidade documental e ideológica. Em maio de 2016 foi convidado para a Casa Militar onde eu permaneci até ser preso. Final de julho de 2014 recebi uma ligação do Zaqueu para ir até o comando geral da PM, eu estava no Gaeco subordinado ao Cel Lesco. Compareci e ele me fez uma explanação que queria fazer uma limpeza na instituição é que tinha como missão retirar alguns policiais com desvio de conduta, nessa ocasião ele me apresentou duas placas de interceptação telefônica e disse que precisava implementar a interpretação na PM de Mato Grosso, ele me pediu para que verificasse a viabilidade técnica dessas placas, peguei as duas e fui verificar junto com o fornecedor se elas tinham condições de serem utilizadas. Entrei em contato com a empresa, falei com o senhor Denilson Feitosa, e ele me disse que ia verificar a viabilidade e no outro dia ele me disse que a placa poderia ser sim atualizada desde que fizesse uma atualização e teria um custo, eu fui dar o retorno disso para o coronel Zaqueu. Ele me disse que conseguiu essa placa com um amigo dele, mas não disse com quem. Eu pedi ao coronel Zaqueu o apoio de alguém para me auxiliar, porque eu não tinha conhecimento em TI, e pedi que se possível contar com o auxílio do senhor Euclides Torezan. Nessa ocasião, o coronel Zaqueu me pediu para escrever um projeto de implantação de interceptação telefônica, fiz o projeto e apresentei pra ele".

Conforme Gerson, ao entregar o orçamento ao coronel Zaqueu explicou que também era preciso conseguir pessoal para auxiliá-lo. Disse que tudo ficou em torno de R$ 12 mil, já com a resposta da empresa. "Essa placa era metade para acompanhamento de telefonia fixa e telefonia móvel, nós usamos só a de telefonia fixa. Faço esse projeto direcionado para a Direitoria da Agência Central de Inteligência do Comando Geral, porque o coronel Zaqueu me pediu para destinar pra lá, nessa ocasião a PM não tinha ainda nenhum software desse tipo.

Aluguel de sala

Conforme Gerson, depois de algum tempo o coronel Zaqueu o questionou se a placa não poderia ser utilizada em outro local. Foi quando, segundo ele, surgiu a ideia de alugar um imóvel. "O Zaqueu teve essa ideia. Não existe sala de estudo, eu não usava sala para estudar, esta sala alugada foi feita para funcionar este núcleo de inteligência. Nessa ocasião eu fui atrás de uma sala comercial por ordem do coronel Zaqueu. Tudo que eu fiz foi com autorização do meu sub chefe do Estado maior, o 03 da Polícia Militar. Foi atrás de uma sala, e a encontrei no edifício master Cuiabá, cujo proprietário do imóvel foi testemunha neste processo. Entrei em contato dele e disse que a sala seria usada para meu estudo, a finalidade era fachada, não tem como eu falar que a PM estava locando um imóvel. Como a PM vai locar um imóvel sem licitação?"

Aluguel de R$ 1,2 mil por mês

Segundo o cabo Gerson Corrêa, o valor do aluguel era algo em torno de R$ 1, 2 mil e foi pago de agosto de 2014 a agosto de 2015. "Levei para o Cel Zaqueu e ele disse que iria passar a pessoa que seria a responsável por arcar com essas despesas de R$ 12 mil. Até então eu estava trabalhando normalmente no Gaeco. Depois passado alguns dias Zaqueu me fala para me encontrar com uma pessoa que iria arcar com as despesas. Fui lá e ele me falou que eu o coronel Lesco iríamos encontrar com essa pessoa. Numa tarde de agosto eu fui com Lesco no restaurante Reserva em Chapada e lá encontrei com o senhor Paulo Taques, que surge como a pessoa que iria arcar com as despesas. Esse encontro era para tratar sobre o sistema de interceptação. Lesco pelo que eu percebi nunca havia falado com esse senhor, acho que ele foi lá pela confiança que o Zaqueu tinha com o Lesco. Nesta época ele, Paulo Taques, era coordenador de campanha do Pedro Taques. Neste encontro foi dialogado que o senhor Paulo ia arcar com a despesa e ia ter conhecimento daquilo que seria produzido. Eu percebi que teria um pano de fundo atrás da interceptação".

Especulações sobre o silêncio do cabo

"Durante todo o tempo que fiquei preso no CCC e na Rotam, muito se falou que eu calei em não dizer a verdade porque eu havia recebido milhões para ficar calado, minha situação financeira e da minha família é precária, eu vivo do meu salário, eu disse para mim mesmo que eu iria esclarecer isso no momento oportuno, não tem delação premiada, se eu errei eu devo responder pelo meu erro sim", disse o cabo Gerson ao embargar a voz. 

Dinheiro recebido das mãos de Paulo Taques

"Nessa conversa ele soube quem eu era, atuante há mais de 10 anos no Gaeco, sempre com interceptação. Eu estaria pronto para ajudar nessa missão que em tese seria limpar a PM, nessa ocasião eu fiquei sabendo que teria uma conotação política, mas como eu tinha entrado no jogo não recuei. Foi especificado que ele iria bancar, que eu era uma pessoa de confiança do Zaqueu, que tudo que precisasse materialmente era pra reportar a ele. Eu não sei informar de onde vinha o recurso, mas realmente depois eu fui buscar uma certa quantia em dinheiro de R$ 50 mil em mãos com o Paulo Taques, no escritório dele. Isso foi depois que o esquema já tava funcionando. Nessa ocasião ele não mencionou o nome do candidato Pedro Taques. Depois desse encontro foi definido o desembolso por parte de Taques. Os 2 primeiros meses de locação quem retirou o dinheiro do bolso foi o coronel Lesco. O Paulo não explicou porque iria bancar, só falou que ia bancar, não posso afirmar que tem algo em troca, mas no decorrer do meu depoimento eu vou dizer".

Sem conhecimento ou ligação com Paulo Taques até então

Cabo Gerson garante que até então nem conhecia o advogado Paulo Taques. "Quem conhecia Paulo Taques não era o Lesco nem eu, era o Zaqueu. Nós nos apresentamos lá no restaurante Reserva em Chapada. Precisou de dinheiro para sair da parte técnica. Torezan não participou de conversa com ninguém, não sabia de nada. Estava cumprindo determinação superior que era fazer a parte de TI.

"Foi quando eu e Lesco deslocamos até (em setembro) um lugar que não sei se é escritório ou comitê de campanha, fomos até o bairro Consil, em uma casa onde Paulo Taques trabalhava, e pegamos os 50 mil reais, pegamos o dinheiro e começamos a comprar o que precisava, eu e Torezan montamos o sistema dentro da sala locada para operacionalizar. Com o dinheiro arrumamos tudo e ainda ficou em caixa, quem comparava tudo era eu e Torezan".

Sistema começou a operar

Conforme o policial, o sistema funcionava com uma CPU, com a placa dentro, e os desvios eram realizados de forma analógica para um celular. "Nós tínhamos disponíveis 16 canais, o que significa 16 interceptações ao mesmo tempo. O celular ligava junto a placa. A sala era repleta de cabos, bem analógico, bem precário, mas atendeu o início do sistema. Em setembro, o coronel Lesco me apresenta números de policiais de Cáceres que estariam envolvidos em casos de tráfico de drogas. É o 1º relatório que eu fiz, sem assinatura. Fiz esse relatório que foi cru, do jeito que ele me deu eu coloquei no papel, com os números e os nomes. Esse relatório eu jamais imaginaria que iria subsidiar uma interceptação telefônica. Neste relatório tinha só policiais mesmo. Eu produzi o relatório e mandei pra ele, entreguei pessoalmente. Coronel Zaqueu me liga e me fala que vem uma decisão judicial de interceptação, não sei como ele conseguiu, mas veio essa decisão da Comarca de Cáceres. Falando nisso, é bom falar, eu nunca tinha visto estes juízes, desconheço a vida deles. Mas este relatório veio com a decisão do Doutor Jorge, deferindo a interceptação com base neste relatório de duas laudas sem assinar", relata.  

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