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28.11.2003 | 03h00

A mulher tem alma?

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O título deste artigo pode parecer absurdo, mas é absolutamente verdadeiro. Houve tempo, na Idade Média, por exemplo, em que se questionava se a mulher possuía ou não um espírito a animar-lhe o corpo físico.

A Bíblia, em alguns aspectos, é um tratado de machismo. No Velho Testamento, a mulher era obrigada a chamar o marido de patrão e senhor. Em muitas de suas passagens, a mulher é o próprio mal e por isso foi expulsa do paraíso com o companheiro, depois de perverter Adão, que lá desfrutava de completa felicidade; ou enfraquecendo o homem que a amava e o entregando à sanha dos inimigos, como Dalila cortando o cabelo de Sansão e o submetendo à humilhação e à morte nas mãos dos filisteus. Na Bíblia, o mais sábio dos homens tinha mil mulheres e a mulher era apedrejada no meio da rua se fosse apanhada com outro homem. Salomão, esposo da filha do faraó, foi amante de 300 concubinas e de 700 princesas, e a adúltera, por um único flagrante, só não morreu lapidada pelos fariseus porque Jesus não deixou.

Na Grécia antiga, Pitágoras, autor do admirável Versos de Ouro, escreveu: "Existe o princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher". Eurípedes considerava a mulher "o mais temível dos males".

No cristianismo, São Paulo estabeleceu ser indecente a mulher falar dentro da igreja. Santo Agostinho, doutor da Igreja Católica, disse: "A mulher é uma besta insegura e instável". São Cristóvão afirmou: "Entre todos os animais selvagens, não há nenhum mais daninho do que a mulher".

Nas religiões, no tempo e no espaço, a mulher sempre foi espezinhada e injuriada. Nas leis de Manu, encontramos: "A mulher não pode governar-se por si mesma". Na China, o conselho do sábio era no sentido de que não se confiasse na mulher. Na Rússia, era norma de sabedoria popular que para cada dez mulheres existe apenas uma alma.

A história mostra a mulher discriminada em todas as épocas. Seu papel na sociedade raras vezes obteve consideração preponderante e fundamental, mas esteve secundário no centro das decisões humanas. No amanhecer do Terceiro Milênio, no Ocidente, a mulher ainda necessita de um movimento de libertação, mostrando o quanto ela se sente lesada nos direitos e aspirações. Nem é bom falar na opressão em que vive, no islamismo e em regiões e regimes políticos da África e da Ásia.

Pois já em 1866 Allan Kardec publicava na edição de janeiro da Revista Espírita um artigo intitulado "A mulher tem alma?", que logo chamou a atenção de intelectuais e educadores. Seu nome, por si só -- Denizard Hippolite León Rivail --, era sinônimo de cultura e seriedade e seu pseudônimo -- Allan Kardec --, codificador da Doutrina Espírita, motivava em tudo interesse, curiosidade e respeito, na Europa fascinada pelos grandes pensadores. Kardec estudou medicina, matemática, astronomia, ciências sociais e filosofia. A princípio discípulo, tornou-se colaborador do grande Pestalozzi. Suas obras didáticas sobre pedagogia foram adotadas em universidades da França. Registram seus biógrafos que ele dominava seis idiomas e que ministrava aos jovens cursos gratuitos de química, física, anatomia comparada e astronomia.

Em "A mulher tem alma?", após considerações históricos sobre o título, o mestre denunciava a negativa da Faculdade de Direito em liberar o diploma de um dos formandos, por ser mulher. Era o quarto desses casos, baseados no fato da lei não estabelecer, explicitamente, o direito da mulher obter título universitário. Só após intensa polêmica e exaustiva análise dos textos legais, concluiu-se que, se não existia a previsão da mulher ter títulos universitários, também não havia proibição em contrário. Por omissão, foi afinal permitido à formanda se diplomar.

Kardec perguntava se a igualdade legal que então se procurava era decorrência de um direito natural ou apenas mera concessão do homem. E respondia que Deus não cria espírito-homem e espírito-mulher, mas simplesmente espíritos, que reencarnam na terra em organismo feminino ou masculino. Quem hoje é homem pode ser mulher amanhã e vice-versa. É através da experiência que o espírito aprende para um dia ser definitivamente feliz na sabedoria e na pureza. Sendo o sexo unicamente uma necessidade física para perpetuação da espécie e reencarnando o espírito em corpo masculino ou feminino, não sobra base para qualquer forma de discriminação. Assim, a liberdade essencial entre homem e mulher é um direito natural, que mais cedo ou mais tarde se estabelecerá na Terra inteira.

A discriminação contra a mulher é produto do sistema social, sedimentado através dos séculos e não guarda qualquer relação com a Natureza. O machismo decorreu da força física e é totalmente injusto.

Se houve discriminação por parte do homem, tivemos também acomodação da mulher, o que explica por que a luta pela libertação demorou tanto, encontrando resistência não somente dos homens, como também de muitas mulheres. Jesus ensinou que tudo que fazemos ao nosso semelhante, de bom ou de mau, recebemos de volta, porque seremos punidos naquilo em que pecarmos, pagando até o último ceitil. Os machões opressores de hoje, infalivelmente, serão mulheres oprimidas amanhã.

João Paulo Borges é jornalista em Brasília. E-mail: borgescongresso@uol.com.br

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