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14.12.2004 | 03h00

Doutor Ricardo Guilherme Dicke

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Ousei apresentar o escritor Ricardo Guilherme Dicke como merecedor do título de Doutor Honoris Causa pela UFMT.

Dicke nasceu em Chapada dos Guimarães, filho de uma família de garimpeiros. Pertence àquele grupo de literatos que dedica suas vidas à busca - garimpagem - da identidade de seu povo.

A literatura brasileira do século XX é rica destes comprometidos. Do Nordeste vieram José Lins do Rego e Graciliano Ramos. De Minas Gerais - minha terra - João Guimarães Rosa e Mário Palmério. Do Rio Grande do Sul veio Érico Veríssimo.

Na segunda metade do século XX, um turbilhão de mudanças ocorre no país. Em Mato Grosso, os movimentos migratórios se intensificam e novas relações de poder se estabelecem. Surgem choques culturais, a terra é aprisionada, cercada, finita e os conflitos se multiplicam. A terra fica interditada aos que aqui nasceram - torna-se propriedade - conceito jurídico limitativo, concreto e traumatizante. O jovem escritor Ricardo Guilherme Dicke cresceu neste cenário, ouvindo o ronco dos aviões, dos tratores e caminhões e fez disso tema de seus escritos.

Hilda Gomes Dutra Magalhães, então pesquisadora do ICLMA, estudou as repercussões das novas "Relações de Poder na Literatura da Amazônia Legal" e aponta que a região enriqueceu a literatura nacional com alguns importantes nomes: o amazonense Márcio de Souza e os mato-grossenses Tereza Albuês, Wlademir Dias-Pino, Manoel de Barros, Pedro Casaldáliga e Ricardo Guilherme Dicke.

A UFMT já premiou dois destes grandes escritores, concedendo o título de Doutor Honoris Causa a Pedro Casaldáliga, cuja poesia brota no extremo nordeste do Mato Grosso, em pleno Vale do Araguaia, e a Manoel de Barros, o poeta pantaneiro, das lesmas, das lamas do rio Paraguai.

Ricardo Dicke é romancista, é teatrólogo, é prosador, poeta. E assim como os poetas doutores, Ricardo viveu profundamente as mudanças ocorridas em Mato Grosso nestas últimas décadas. Dicke, como Pedro e Manoel, emprestou sua inteligência para que as gentes mato-grossenses expressassem suas dores, seus conflitos, os confrontos, as contradições desse mundo que se transformava à sua volta. O doutor Ricardo Dicke disponibilizou, de forma excepcional, seus conhecimentos, sua sensibilidade, e todos os momentos de sua vida para que os atropelados pelo desenvolvimentismo a qualquer custo pudessem andar; os mudos, condenados ao esquecimento falassem; os cegos enxergassem, os analfabetos discursassem e os mansos se revolucionassem.

O escritor Ricardo, como os poetas Pedro e Manoel, é a voz dos desalojados pelo capital. Sua obra é a voz de Mato Grosso e de sua gente sofrida.

Dicke une o bizarro, o filosófico, o religioso, o divino e o selvagem; o real e o surreal; o céu e o inferno. Revela o mundo conturbado, a tragédia do homem pobre - o mundo caótico, brutal das experiências humanas vividas. Dicke faz isso como uma tragédia grega, envolvendo deuses de mitologias outras, numa miscigenação consangüínea típica de um Brasil; num carnaval de deuses de carnes ardentes a queimarem em febres de paixões.

Na saga de "Madona dos Paramos" conta que estão em busca da Figueira Mãe - um lugar paradisíaco, místico onde não existiriam nem lei e nem diferenças sociais. O palco é o cerrado onde se localiza uma construção que pelo estilo arquitetônico europeu torna-se incompreensível, ainda que fascinante, amedrontadora, enigmática. É o confronto das culturas.

Ricardo Guilherme Dicke é o mais premiado dos escritores mato-grossenses. Não foi por acaso que foi descoberto e reconhecido por Antônio Olinto, Jorge Amado e por João Guimarães Rosa. Estamos, portanto, bastante retardatários neste reconhecimento. Mas insistimos em ousar!

Paulo Speller é reitor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

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