vítima rompe o silêncio 05.03.2026 | 14h05

fred.moraes@gazetadigital.com.br
Reprodução
Grávida de cinco meses, do primeiro filho, a ex-servidora da Prefeitura de Cuiabá, que denunciou o ex-secretário municipal William Leite, no mês passado, rompeu o silêncio e fez um discurso emocionado ao relembrar o processo doloroso que vivenciou no ano de 2025. Um ano depois do fato, ela se sentiu encorajada e registrou o boletim de ocorrência sobre o crime no ambiente de trabalho.
A denúncia não foi um impulso, mas o resultado de um processo longo de reflexão e amadurecimento emocional diante do que vivenciou dentro da administração municipal. Ela relatou que, por muito tempo, tentou compreender o que estava acontecendo e medir as consequências de tornar público o caso.
“Eu também tive o meu tempo para processar tudo o que aconteceu, o meu tempo para digerir e para entender que, apesar de um assediador ser alguém que ocupa um lugar de poder, eu também tenho o meu poder no meu posicionamento”, afirmou.
Segundo ela, a decisão de procurar a polícia só se consolidou quando percebeu que não estava sozinha. “Eu precisei entender que eu tenho o poder da minha família para me apoiar, porque muitas mulheres não têm isso. Quando eu falei sobre a denúncia dentro da minha casa, o meu esposo foi o primeiro a dizer: ‘tem que denunciar’”.
Exposição indevida
Após o registro do boletim de ocorrência, porém, a situação se tornou ainda mais difícil. A ex-servidora relatou que teve dados pessoais expostos após o vazamento do documento e passou a enfrentar questionamentos até de pessoas próximas.
“Quando eu fiz a denúncia, vazaram o boletim de ocorrência. Me expuseram. Expuseram meus dados, meu endereço, expuseram tudo. E, mesmo assim, pessoas próximas vieram me perguntar por que agora, o que tinham me prometido para eu denunciar e o que eu estava ganhando com isso”, relembrou.
Apesar da exposição e das dúvidas levantadas por conhecidos, a vítima destaca que também encontrou apoio inesperado ao tornar pública a denúncia.
“Eu ganhei um apoio gratuito e genuíno de pessoas que estão na nossa frente lutando por nós como cidadãos, fazendo aquilo que eu não tinha coragem de fazer, que é entrar em uma Câmara Municipal e lutar pelos direitos”, relatou. “Também recebi fortalecimento de mulheres que eu nunca imaginei que viriam falar comigo”.
Por outro lado, disse que o episódio também revelou quem, segundo ela, preferiu se manter em silêncio. “Eu fui livrada de pessoas que eu acreditava que estavam ao meu lado e que me apoiariam independentemente da minha decisão, mas que decidiram ficar caladas, decidiram ser silenciadas”, alegou.
Durante o discurso, a ex-servidora também fez críticas ao comportamento de parte das vereadoras da Câmara de Cuiabá, que, diante do pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a denúncia, não demonstraram interesse em tratar do caso. A CPI não avançou por falta de assinaturas e representação repentina de várias outras comissões.
Ela pontua que apenas 3 das 8 mulheres eleitas apoiaram o pedido, sendo elas: Maysa Leão (Republicanos), Dra. Mara (Solidariedade) e Maria Avallone (PSDB), afirmando que o combate ao assédio não depende apenas de confrontar homens, mas também de romper com estruturas de submissão dentro do próprio ambiente político.
“Quando a gente fala de mulheres na política, não tem que pensar só na figura do homem como a pessoa ruim ou boa. A gente também precisa pensar na figura da mulher, porque hoje vemos que muitas preferem a submissão, preferem se esconder embaixo do poder como se fosse um tapete, onde tudo fica escondido, como se dissessem: ‘Fica aqui quietinha, ninguém vai te ver’”, declarou.
Ela também contou que demorou a perceber que estava sendo vítima de assédio porque via o trabalho na prefeitura como uma oportunidade rara em sua trajetória pessoal. Segundo o relato, a relação dela com a política começou após uma experiência dolorosa envolvendo a morte da mãe, quando ainda tinha 18 anos.
A vítima contou que a mãe dependia de medicamentos fornecidos pelo Estado e morreu após uma série de decisões judiciais que determinaram a compra do tratamento.
“Minha mãe dependia do Estado para ter o remédio dela. Tivemos três liminares favoráveis para que o medicamento fosse comprado e a Secretaria de Saúde se omitiu. Quando compraram, ela já tinha falecido”, relembrou.
Segundo ela, a experiência gerou revolta e afastamento da política. A mudança veio anos depois, quando decidiu trabalhar em um ambiente político para apoiar uma amiga. Foi nesse período que afirma ter começado a se envolver mais com discussões públicas e debates sobre política.
“Quando minha mãe faleceu, eu não tinha intenção nenhuma de entrar na política. Eu tinha aversão. Preferia votar nulo, preferia não me posicionar. Eu comecei a falar sobre política no meu meio, com minhas amigas, discutir ideias, respeitando opiniões diferentes. E foi nesse contexto que vim trabalhar na política”, contou.
Foi também nesse ambiente que, segundo ela, ocorreram os episódios que motivaram a denúncia. “Eu fui assediada por aqueles em quem eu apoiei”, declarou. A ex-servidora afirmou que, além de situações que considerou inadequadas, também enfrentou tentativas de silenciamento dentro do ambiente de trabalho.
“Quando a gente fala e tenta ser realocada ou silenciada de alguma forma, isso também é um assédio. Pode não ser necessariamente um assédio sexual, mas o assédio moral e psicológico já está ali”, disse.
Ela afirmou que chegou a cogitar permanecer no cargo, mas decidiu sair do ambiente de trabalho por não conseguir conviver com a situação.
“Eu poderia ter aceitado a proposta, poderia ter continuado, poderia ter ficado. E, se eu estivesse lá até hoje, talvez eu não tivesse denunciado, porque iria me sentir naquela situação de que estão me dando um emprego, estão me dando o meu ganha-pão”, disse.
A ex-servidora, no entanto, afirmou que preferiu preservar a própria consciência. “Mas de que adianta ter um ganha-pão se eu não consigo deitar a minha cabeça tranquila no travesseiro? Se eu não consigo deitar em paz tendo certeza da mulher que eu sou, da filha, da esposa, da tia e hoje da mãe”.
A vítima reconheceu que a exposição pública foi difícil, mas afirmou que decidiu falar mesmo sabendo dos impactos pessoais. Mesmo grávida, ela afirmou que não cogitou voltar atrás.
“Por mais que doa, por mais que eu não queira exposição e por mais que minha família seja muito reservada, qual é o meu papel nesse lugar?”, questionou. “Falaram que eu estou grávida, que é um momento delicado, que eu esperei muito por essa gestação. Mas eu sou mulher e já aguentei tanta coisa. Não é porque eu estou grávida que eu não vou aguentar mais essa”.
Para a vítima, denunciar foi também uma forma de interromper um ciclo que, segundo ela, já vinha sendo relatado por outras pessoas.
“Eu decidi falar porque alguém precisava parar essa pessoa. Se impropriedade administrativa não estava parando, se realocações não estavam parando, se assessoras falando de assédio moral não estavam parando, o que eu ia fazer? Ficar quieta?”, questionou.
Por fim, ela afirmou que o inquérito policial ainda está em andamento e que aguarda os desdobramentos da investigação.
“O inquérito ainda está acontecendo e eu não sei até que ponto a minha fala pode prejudicar ou não. Então estou aguardando”, disse.
Mesmo assim, afirmou que decidiu compartilhar sua experiência para alertar outras pessoas: “O assédio é tudo aquilo que te faz mal. Começou a te fazer mal, trouxe incômodo, mesmo que seja um aperto de mão com um carinho diferente que não é nada para você, é só o começo”, alertou.
“Vítima é vítima. Você nunca vai sair desse lugar para virar a errada da história. Tenham coragem, busquem ajuda, mesmo que essa ajuda venha de fora, mesmo que não venha da pessoa que você mais espera”.
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