OPORTUNISMO 01.11.2026 | 17h50

aparecido@gazetadigital.com.br
Emanoele Daiane
O uso da causa animal para obter vantagem política é motivo de preocupação entre protetores de animais. Apesar de reconhecerem a importância de pessoas ligadas ao movimento ocuparem espaços de decisão, os ativistas apontam casos em que a visibilidade dos resgates e das ações de proteção se tornam meros instrumentos de promoção pessoal. Protetores ouvidos pelo
ponderam que o uso da bandeira da causa animal precisa vir acompanhada de um histórico de atuação na defesa dos animais e não de aparições esporádicas, sobretudo no período de campanha.
Michelle Scopel atua há 20 anos na causa e é presidente da Organização de Proteção Animal de Mato Grosso (OPA-MT). Para ela, a causa animal e os resgates acabam despertando o interesse e a compaixão das pessoas e isso pode atrair aqueles que têm como objetivo construir projetos políticos. “A causa animal desperta algo que muitas outras causas não conseguem despertar tão rapidamente: a empatia das pessoas. E, infelizmente, a visibilidade também atrai interesses”, afirmou.
Segundo Michelle, a aproximação de candidatos com protetores e organizações costuma se intensificar em anos eleitorais. Nesse período, pessoas interessadas em disputar cargos públicos tentam fazer parte das ações e aparecer em fotografias e vídeos relacionados à causa. “Querem ficar perto, aparecer em fotos, vídeos, tudo para tirar vantagem para usarem na campanha política”, disse.
A protetora defende que o trabalho desenvolvido pelos ativistas independentes não seja utilizado apenas como instrumento de promoção pessoal e recomenda que os eleitores procurem conhecer a trajetória dos candidatos para saber se eles realmente são engajados na causa. “Precisa pesquisar a vida desse candidato, sua conduta antes de se lançar na política, se realmente fez algo para a causa animal, ou se começou a fazer no ano da eleição”, afirmou.
Protetores e políticos
A relação entre atuação política e proteção animal também foi marcada por controvérsias. Um dos casos de grande repercussão envolveu o ex-vereador de Cuiabá Sargento Vidal, que vinculou a sua imagem pública à defesa dos animais. Ele acabou sendo investigado pelo Ministério Público de Mato Grosso por suspeitas de maus-tratos a cães e gatos mantidos em um santuário criado por ele. Na época, a defesa de Vidal afirmou que ele era vítima de perseguição política.
A relação do ex-vereador com a comunidade de protetores também é marcada por divergências. Relatos colhidos pela reportagem apontam que ele não era unanimemente reconhecido como representante do movimento. Vidal não se reelegeu vereador em 2024 e também não teve sucesso na disputa por uma vaga de deputado estadual em 2026.
Um outro nome envolvido em polêmicas é o vereador Wender Madureira (Republicanos), de Várzea Grande, que é conhecido por ir até residências de pessoas humildes da cidade e “resgatar” animais que vivem na região. Tudo compartilhado nas redes sociais.
Em setembro deste ano, quando tentava levar os dois cães da raça pitbull que estavam em uma residência, Madureira e sua equipe foram alvo de pedradas. Na tentativa de impedir que os animais fossem levados, a moradora reagiu e a discussão se tornou agressão física.
A dona da casa não conseguiu impedir que os cães fossem levados, mas registrou um boletim de ocorrência contra o vereador por invasão de domicílio.
A política como estratégia de atuação
Apesar das críticas à aproximação de candidatos com a causa animal, a participação de protetores na política institucional também é defendida por quem considera necessário ampliar a presença do movimento nos espaços de poder. É o caso de Marlon Figueiredo, que atua há 11 anos na proteção animal em Cuiabá. O protetor também já atuou nos gabinetes de dois deputados estaduais e atualmente trabalha na Defesa Civil da capital.
Marlon afirma que sua aproximação com a política surgiu da percepção de que as demandas da proteção animal precisam de respostas do poder público. “Quem vive a realidade da proteção animal sabe que o voluntariado, sozinho, não consegue resolver o problema. A política é um espaço importante para cobrar ações do poder público e defender políticas que tragam resultados duradouros”, afirmou.
Em conversa com o
, ele disse que já observou pessoas que se aproximam da proteção animal quando o tema ganha visibilidade ou durante períodos eleitorais, mas prefere não citar nomes. Para ele, é preciso analisar a trajetória de cada pessoa para entender o seu real comprometimento com a causa.
Atualmente, conforme Marlon, as principais demandas da causa animal em Cuiabá são a ampliação dos programas de castração, o fortalecimento do atendimento veterinário público, a fiscalização de casos de maus-tratos, o incentivo à adoção responsável e a criação de políticas de apoio aos protetores independentes e às organizações que lidam com o resgate e acolhimentos dos pets.
Para Michelle, a falta de recursos, a ausência de atendimento veterinário, a superlotação dos abrigos e a sobrecarga dos protetores estão entre os problemas que exigem respostas institucionais. “A causa animal precisa, sim, ocupar espaços políticos. Mas a política precisa respeitar a história de quem construiu essa luta muito antes de ela ganhar visibilidade”, concluiu.
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