23.09.2016 | 00h00
O presidente Michel Temer disse em Nova York, dentre outras coisas, que o Brasil passa por uma ‘estabilidade política extraordinária‘. Sinceramente eu não sei de que Brasil ele falou. Só se for o Brasil visto pelo Planalto, a partir de um governo que, para dizer o mínimo, tem sua legitimidade questionada. Ou então, é sobre o Brasil que ele queria vender para o público alvo: empresários e investidores externos, gente ligada umbilicalmente ao grande capital.
Temer foi aos Estados Unidos para participar da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, mantendo a tradição do Brasil abrir a sessão anual. Além disso, ele foi se encontrar com possíveis investidores americanos e tentar explicar um pouco a atual situação política e econômica do país.
Na ONU, além de temas convencionais como cenário interno e externo e assuntos relativos a comércio e economia, Temer abordou a questão da reforma da Nações Unidas e dos refugiados, um dos grandes dramas mundiais do momento.
Seu discurso ficou no superficial e no óbvio, sem grandes novidades. Pregou a necessidade de reforma da ONU, considerando que a Organização perdeu muito do seu protagonismo internacional e que o Conselho de Segurança, da forma como está estruturado, há muito não é compatível com as transformações verificadas no sistema internacional, necessitando de reformulação para alcançar maior representatividade.
O presidente escorregou mesmo foi no tema dos refugiados. Alguém, talvez do Ministério da Justiça ou algum outro assessor do Planalto, o orientou a falar que o Brasil recebeu mais de 95 mil refugiados nos últimos anos. Ora, os dados oficiais brasileiros divulgados pelo Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) trazem a cifra de 8.800 refugiados, portanto, bem longe dos 95 mil, inflados com a entrada de haitianos no Brasil, os quais não são considerados refugiados.
E praticamente mais nada de positivo foi dito sobre o drama mundial dos refugiados. O governo Temer, nesse sentido, faz como a maior parte dos países do mundo, ou seja, aparentemente não considera que estamos diante de uma verdadeira calamidade humanitária. Certamente o Brasil poderia fazer muito mais do que faz com relação ao problema dos refugiados.
Para além da ONU a passagem de Michel Temer por Nova York também chama a atenção pelas pistas que nos deu do que o seu governo pretende fazer no Brasil nos próximos meses. Temer foi enfático em reafirmar que promoverá reformas que considera imprescindíveis para recolocar o país no caminho do desenvolvimento. Falou porque talvez acredite mesmo nessas reformas ou, então, porque quis agradar sua plateia.
As reformas referenciadas são, basicamente, a da Previdência e a trabalhista, embora várias outras medidas ’menores’ que atingem programas sociais, educação e saúde estejam sendo preparadas pelo governo do PMDB.
Se essas reformas agradam o grande capital internacional, elas certamente desagradam parcela substancial da população brasileira, que será mais uma vez prejudicada em nome do Estado.
E mais, essas reformas tem tudo para colocar em xeque a fala de Temer de que o país vive uma estabilidade política excepcional. É quase certo que a sociedade brasileira reagirá a essas reformas, que em quase nada atendem as reais necessidades do povo brasileiro. Tudo indica muita turbulência política para esse final de ano e para o ano de 2017.
Pio Penna Filho é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do CNPq E-mail: piopenna@gmail.com
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