19.06.2026 | 15h40
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O Dia do Orgulho Autista, celebrado nesta quinta-feira, 18 de junho, foi instituído para mudar a narrativa sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA): deixar de encarar a neurodivergência como uma doença a ser "curada" e passar a celebrá-la como uma variação natural da diversidade humana. No entanto, no Brasil de 2026, o orgulho de existir e resistir esbarra em barreiras práticas e financeiras violentas, que tentam limitar o pleno desenvolvimento de milhares de crianças, jovens e adultos autistas. O epicentro dessa discussão está, neste momento, no Supremo Tribunal Federal (STF).
A Suprema Corte julga a legalidade das limitações e das negativas impostas pelas operadoras de planos de saúde para terapias multidisciplinares essenciais, como os métodos ABA (Análise do Comportamento Aplicada), fonoaudiologia e terapia ocupacional. Sob o pretexto de um suposto desequilíbrio atuarial, as grandes empresas de saúde suplementar travam uma batalha jurídica para tentar restringir o acesso a tratamentos que determinam se uma pessoa autista terá ou não autonomia ao longo de sua vida. Essa resistência mercadológica expõe as entranhas do capacitismo estrutural.
O argumento de que garantir o tratamento prescrito por médicos e terapeutas "quebra o sistema" é falacioso e inverte a lógica do direito à saúde. Planos de saúde não vendem um produto descartável; eles gerenciam um serviço de relevância pública, cuja base constitucional é a dignidade da pessoa humana. Negar ou limitar sessões de terapia não é um mero detalhe contratual de uma planilha de custos.
É um teto colocado arbitrariamente sobre a capacidade de desenvolvimento de uma mente humana. O desenvolvimento da fala, a autorregulação emocional, a coordenação motora e a socialização de uma pessoa autista não podem esperar o tempo das conveniências financeiras das grandes corporações. Do ponto de vista da economia política, a visão das operadoras é míope e ultrapassada.
O investimento na intervenção precoce e contínua reduz drasticamente a necessidade de suportes de altíssimo custo no futuro. Promover a autonomia de pessoas neurodivergentes significa garantir que elas possam, amanhã, ocupar seus espaços no mercado de trabalho, produzir, criar e consumir. A exclusão é, sempre, a pior estratégia econômica para um país. A atuação do STF neste caso vai muito além de uma interpretação de contratos. Trata-se de definir se a dignidade humana e o direito à neurodiversidade se sobrepõem à ganância corporativa. O Judiciário tem o dever civilizatório de blindar as pessoas com deficiência contra o arbítrio burocrático.
O Orgulho Autista só será pleno quando a sociedade e o mercado compreenderem que a acessibilidade terapêutica e a adaptação razoável não são favores ou benefícios negociáveis. São direitos fundamentais irrenunciáveis. Que a nossa Suprema Corte tenha a sensibilidade de ouvir a ciência, respeitar as famílias e dar um basta à exclusão performática que finge cuidar, mas abandona na hora do tratamento.
André Naves é Defensor Público Federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; mestre em Economia Política pela PUC/SP; Cientista Político pela Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Comendador Cultural, Escritor e Professor (Instagram: @andrenaves.def).
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