BUSCA POR JUSTIÇA 15.07.2026 | 10h06

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Helena Werneck
A filha do advogado Renato Gomes Nery, Lívia Nery, afirmou que a família ainda convive com medo e insegurança, mesmo dois anos após o assassinato do ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso (OAB-MT). A declaração foi feita na manhã desta quarta-feira (15), momentos antes do início do primeiro julgamento relacionado ao crime, no Fórum de Cuiabá.
O caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva é o primeiro dos seis denunciados pelo assassinato a enfrentar o Tribunal do Júri. Apontado pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) como autor dos disparos, ele responde por homicídio qualificado e crimes conexos. A sessão começou às 9h e é presidida pelo juiz Marcos Faleiros da Silva. A condenação ou absolvição será decidida pelo Conselho de Sentença, formado por sete jurados.
Antes de entrar no plenário como testemunha de acusação, Lívia disse esperar que o julgamento represente o início de uma resposta da Justiça para a família. Segundo ela, a expectativa é de que outros júris sejam realizados, diante da quantidade de pessoas apontadas como participantes do crime.
“A gente espera que a Justiça seja feita. Hoje começa o júri. Nós acreditamos que serão vários júris, por serem vários envolvidos. Esse é apenas o primeiro, mas eu espero que tudo ocorra bem”, declarou.
Lívia contou que a morte do pai alterou completamente a rotina da família. Nos primeiros meses após o crime, ela e os irmãos não sabiam se também poderiam ser alvos de alguma ação, especialmente porque os processos conduzidos por Renato passariam a ser acompanhados pelos filhos.
O medo aumentou, conforme relatou, quando as investigações começaram a apontar a possível participação de policiais militares na organização do assassinato. O velório de Renato Nery chegou a ser acompanhado por equipes policiais durante 24 horas.
“Quando aconteceu, nós não sabíamos o que estava acontecendo. Perguntei ao delegado se estávamos seguros e ele respondeu que não sabia. Ficamos por meses sem saber sobre a nossa vida”, recordou.
Apesar do avanço das investigações e da prisão dos acusados, Lívia afirmou que ainda não recuperou completamente a sensação de segurança. Ela trabalha no escritório que pertencia ao pai e passa diariamente pelo local onde ele foi baleado.
“Essa insegurança diminuiu, mas falar que hoje eu me sinto segura, não, ainda não me sinto. Eu vou prestar um depoimento, sou testemunha de acusação. Será que algum dia vai haver uma retaliação contra mim? Eu não sei”, afirmou.
A filha do advogado também rejeitou a possibilidade de Alex assumir sozinho toda a responsabilidade pelo assassinato. Para ela, as circunstâncias reunidas no processo indicam que a execução exigiu planejamento, financiamento e atuação de outras pessoas.
“Ele não fez esse crime sozinho. Não teria como. Ele não tinha nenhuma causa ou justificativa para executar um advogado por causa de uma disputa agrária. As investigações mostraram que há mais pessoas envolvidas”, disse.
Lívia ainda relatou ter chegado ao local instantes depois dos disparos e acompanhado o pai dentro da ambulância. Segundo ela, as cenas permanecem vivas na memória da família, mesmo depois de dois anos.
“Eu vi o meu pai urrando de dor e sangrando. Entrei na ambulância com ele. São cenas que jamais vou esquecer. Para mim, parece que aconteceu ontem”, contou.
Para a filha, nenhum valor atribuído à contratação do crime é capaz de dimensionar a perda sofrida pela família. “Para mim, pouco importa quanto foi. A vida do meu pai não valia dinheiro algum, mas foram pessoas que se venderam”, declarou.
O advogado Walmir Cavalieri, que atua como assistente da acusação, afirmou que existe a expectativa de que Alex faça revelações durante o interrogatório, principalmente sobre os demais participantes e os pagamentos realizados.
Segundo Cavalieri, elementos reunidos no processo indicariam que Alex recebeu aproximadamente R$ 110 mil e que a promessa de pagamento pelo assassinato seria de R$ 200 mil. O valor de R$ 200 mil também consta na decisão de pronúncia divulgada pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso.
“A expectativa é de que ele faça algumas revelações. Isso poderia até abrandar a quantidade de pena que certamente poderá receber”, afirmou o advogado. Cavalieri estima que, em caso de condenação, a pena possa ficar entre 20 e 25 anos, embora a definição dependa da decisão dos jurados e da dosimetria realizada pelo juiz.
Os outros cinco réus ainda não possuem data definida para serem julgados. Conforme Cavalieri, as defesas apresentaram recursos que podem tramitar no Tribunal de Justiça, no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal antes que os processos sejam levados ao júri popular.
RELEMBRE O CASO
Renato Gomes Nery, de 72 anos, foi atacado na manhã de 5 de julho de 2024, quando chegava ao escritório localizado na Avenida Fernando Corrêa da Costa, uma das vias mais movimentadas de Cuiabá. Ele foi atingido por seis disparos efetuados com uma pistola Glock adaptada para tiros em rajada. Socorrido com vida, o advogado morreu na manhã seguinte, após passar por procedimento cirúrgico.
Segundo o Ministério Público, Alex monitorou a rotina da vítima nos dias anteriores ao crime. Na manhã do atentado, teria chegado de motocicleta, aguardado a aproximação de Renato e efetuado os disparos quando o advogado subia as escadas do escritório. Após a execução, teria queimado objetos, trocado de celular e participado da ocultação da motocicleta utilizada na fuga.
A investigação da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa apontou que o assassinato teria sido motivado por uma disputa judicial envolvendo mais de 12 mil hectares de terras em Novo São Joaquim. Renato havia obtido uma decisão favorável no processo, causando perdas financeiras às partes adversárias.
De acordo com a denúncia, os agricultores Julinere Goulart Bentos e César Jorge Sechi teriam atuado como mandantes. Os policiais militares Jackson Pereira Barbosa, Ícaro Nathan Santos Ferreira e Heron Teixeira Pena Vieira são apontados como integrantes do núcleo responsável pela intermediação, pelo fornecimento da arma, pelos pagamentos e pela coordenação operacional da execução. Todos são tratados como acusados e ainda deverão ser julgados.
Para o Ministério Público, o assassinato foi resultado de uma estrutura criminosa organizada, com divisão de tarefas entre mandantes, intermediários e executor. Alex, que agora enfrenta o primeiro júri do caso, é apontado como o homem que apertou o gatilho.
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