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26.01.2015 | 00h00

A convivência com a maldade

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É incrível, como conseguimos conviver com os atos do mal naturalmente. A aceitamos e achamos, até certo ponto, comum as maldades diárias a que somos submetidos.

Morei por algum tempo no interior do estado, onde a vida é pacata, e, principalmente, o que nos faz esquecer os crimes contra o patrimônio das cidades grandes. Por aqui, há necessidade de vigilância constante. Lá, a preocupação é bem menor; as crianças crescem com mais liberdade; todos se conhecem; e os furtos e roubos ocorrem com menor frequência.

Ao retornar, a fim de morar novamente na capital, havia esquecido que devemos tomar alguns cuidados básicos, para evitar dissabores. Deixando meus filhos na escola, no início da tarde, desci com as crianças e deixei todos os meus pertences no carro: bolsa, computador, ipad etc. Quando voltei, vários pais e mães de alunos me aguardavam. Uma mãe foi logo dizendo: "A senhora não percebeu, mas, estava sendo seguida. Assim que estacionou, o veículo que lhe seguia parou também. Dele desceu um homem bem vestido, e, munido com um pé de cabra, quebrou os vidros do seu carro apanhando as coisas de dentro." Eu fiquei calada, apenas pensando sobre os prejuízos materiais, e, também, nos documentos que teria que confeccionar novamente. Uma outra senhora me conformou: "O importante é que a senhora e seus filhos estão bem. Nada de ruim aconteceu, apenas danos materiais. Imagina se você voltasse na hora que ele estivesse quebrando o seu carro?"

Confesso que fiquei mais aliviada, quando consolada por aquela senhora. Pensei, e comecei a imaginar o que seria de minha vida, caso algo de ruim ocorresse aos meus filhos. Me conformei com facilidade ao sopesar que danos materiais são de somenos importância.

Na política então, quanto tempo convivemos com o "rouba, mas faz". "Não é tão bom para a sociedade, porém, outro poderia ser pior". Quantos não pensam em votar naquele que será menos desastroso? Vota-se até por ser "amiguinho", não pensando no coletivo, nas consequências significativas do "malfadado" voto.

Dentro dos lares a banalização dos atos do mal é muito sentida, dando lugar para a violência doméstica e familiar contra a mulher. As mulheres se conformam com a felicidade mínima em suas vidas, mesmo tendo sonhado com o príncipe encantado. Assim, vislumbramos situações onde a mulher afirma que o marido agressor é uma excelente pessoa durante a semana. Trata bem os filhos do casal, a geladeira é farta... O problema se instala apenas aos finais de semana, quando toma um "corotinho" de pinga. Há uma conformação em estar feliz apenas cinco dias da semana, deixando que os outros dois possam ser de absoluta infelicidade.

A ausência de reflexão faz nascer o mal banal. O praticante da violência nunca enxerga gravidade em suas ações. Age naturalmente, dorme com a cabeça no travesseiro como se as suas obras fossem completamente normais. E repete cotidianamente os males que pratica.

Arendt apontou para uma possível compreensão da violência nas sociedades contemporâneas. O mal ocorre na banalidade, na injustiça, nas práticas de discriminação contra os apátridas, imigrantes, mulheres, desempregados, índios, negros, crianças, idosos e natureza. Ao final de toda a reflexão, a filósofa conclui: o que faz um ser humano normal realizar os crimes mais atrozes como se não estivesse fazendo nada de mal?

Rosana Leite Antunes de Barros é Defensora Pública Estadual, Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher de Mato Grosso, e escreve às segundas para o Jornal A Gazeta.

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