SÉRIE HISTÓRICA 10.03.2019 | 09h02

lazaro@gazetadigital.com.br
Chico Ferreira
O caminhão de lixo não passa. Os canteiros centrais estão abandonados, cobertos pelo mato. Filas intermináveis nos hospitais e um acúmulo de 90 dias de salários atrasados dos servidores. Este cenário quase apocalíptico tomou conta da rápida gestão do ex-prefeito de Cuiabá, Coronel José Meirelles, que ocupou o Palácio Alencastro de 1994 a 1996.
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Meirelles, que assumiu primeiro como vice de Dante de Oliveira, ocupou a Prefeitura depois que o titular deixou o cargo para disputar (e saiu vitorioso) o governo do Estado. Era um vice de dar inveja a muitos presidentes: confiável, honesto e de conduta irretocável. Com uma trajetória no Exército marcada pela atuação na construção da BR-163 quando lotado no 9º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC), ficou conhecido como o “Pai da Cuiabá-Santarém”.
Crítico com a demora do regime militar em redemocratizar o país e curiosamente próximo dos ideais de esquerda, principalmente da social democracia, Meirelles se filiou ao MDB logo que saiu da ativa e, anos depois, ingressou no PSDB.
Como prefeito encontrou a cidade em frangalhos, com baixíssima arrecadação e dificuldades em prestar serviços. Problemas causados pelo aumento da população, resultado da onda migratória que se destinava à Amazônia e voltava para Cuiabá, última capital antes da selva. Frustrados com a inexistência do “eldorado financeiro”, migrantes grilavam terras e criavam bairros, redesenhando a cidade. Com o avanço da pobreza, houve aumento da demanda por serviços públicos.
“A cidade recebeu fluxos enormes de migrantes para a ocupação da Amazônia, de gente que não deu certo e voltou empobrecida e sem dinheiro para retornar ao sul, além disso as grandes cidades do interior quebraram com os garimpos, o que trouxe muita gente para cá: em 1980 tinha cerca de 200 mil habitantes e em 90 já eram 400 mil”, comenta o jornalista Onofre Júnior.
O cenário de desolação era geral, já que os brasileiros enfrentavam o turbulento período de implantação do Plano Real, quando a nova moeda assustava tanto quanto a hiperinflação que ela prometia combater.
“A coisa ficou quase ingerenciável para qualquer um. Meirelles passou a gestão inteira tentando resolver os problemas que surgiam e isso causou muita decepção nele porque ele acreditava demais na social democracia e no futuro do PSDB”, lembra o jornalista e ex-capitão do Exército Itamar Perenha, que serviu junto com o coronel em Corumbá, antes da divisão do Estado.
Espírita e com uma formação humanista, Meirelles era um prefeito que tentava encontrar na questão social uma saída para os problemas que enfrentava. Aproximou-se das associações de moradores, criando um vínculo que incluía a destinação de verbas para entender as necessidades mais urgentes dos bairros periféricos. A ideia era descentralizar a gestão, concedendo às associações de bairro autonomia para oferecer serviços públicos e gerir recursos.
“Era o foco porque ele não tinha dinheiro para fazer obra. O Dante não deixou nem planos nem dinheiro para executar nada, então ele que já tinha essa visão social começou a estabelecer estes vínculos, reunindo, conversando e repassando verbas”, relembra Onofre.
A ação teve um efeito colateral. Colocou vereadores contra o prefeito, que se sentiram ameaçados com a possibilidade de perderem a base nos bairros. A inimizade gerou pedidos de afastamento, de comissões de inquérito e outras ofensivas dos inconformados. A relação com o legislativo ficou ainda pior por conta de atrasos dos repasses à Câmara.
Para o presidente da Casa na época, o então vereador Carlos Brito, a postura de Meirelles gerou revolta e descontentamento até entre aqueles que compunham sua base. O próprio Brito, também tucano, faz ressalvas à gestão do ex-correligionário.
“A índole do coronel Meirelles era extremamente boa, positiva, mas no que se refere a gestão pública ficava o questionamento, porque Cuiabá não deixava de arrecadar”, afirmou. “Mas eu nunca admiti como presidente da Câmara qualquer discussão de cassação ou afastamento, eu administrava politicamente isso”, recorda.
Segundo Brito, um dos principais erros do militar da reserva foi dar autonomia demais ao secretariado, o que provocava uma série de decisões contraditórias entre as pastas. A tensão só cessou quando o prefeito entrou de licença, por 60 dias, para tratar de um problema cardíaco.
Como não tinha vice, era Brito quem assumiu o cargo e comandou o Alencastro por 45 dias. Como interino, o vereador tomou uma série de medidas para reverter o quadro crítico do município. Começou negociando a antecipação de datas de transferências de repasses com o governo do Estado e as datas de pagamento aos fornecedores.
“Nós mostramos que apesar de toda crise e de toda dificuldade era possível ser diferente, como de fato foi, se pagou duas das três folhas atrasadas, regulamos o serviço de limpeza, os atrasos nos inícios de aula, era uma situação complicada, mas nós conseguimos mostrar que era possível gerir isso de uma maneira menos traumática”, orgulha-se o ex-vereador, que mais tarde se elegeria deputado estadual.
O próprio Brito admite que as alterações feitas por ele podem ter funcionado apenas como um fôlego: “Talvez não teriam sido as melhores medidas a médio ou longo prazo, mas em uma circunstância de crise aquilo produziu um efeito positivo e favorável”.
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