04.11.2026 | 13h25
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“Eu respeito mais um ateu digno do que um religioso hipócrita.” Essa frase, dita pelo médium e líder espírita Divaldo Franco durante uma entrevista ao apresentador Jô Soares, provoca uma reflexão que parece cada vez mais necessária. De que adianta defender valores, levantar bandeiras, falar em Deus e família quando, na prática, o que se promove é o desprezo por quem pensa diferente? A intolerância tem muitas caras, mas talvez uma das mais perigosas seja aquela que se apresenta disfarçada de virtude.
O Brasil parece ter transformado a divergência política em uma espécie de licença para hostilizar o outro, onde é preciso desqualificar, constranger, excluir e, em alguns casos, desejar que o outro sofra as consequências de suas escolhas. Os movimentos de boicote a cidades, empresas e profissionais por suas posições políticas são um exemplo dessa radicalização. É legítimo que cada consumidor escolha onde comprar e com quem se relacionar comercialmente. Mas existe uma diferença gigante entre deixar de consumir um produto e defender que alguém perca o emprego ou sua fonte de renda por causa de seu voto.
Quando um empresário demite um trabalhador por suas preferências eleitorais, ultrapassamos a fronteira da liberdade individual e entramos no terreno da discriminação ideológica. O trabalho, a dignidade e a subsistência de uma pessoa não deveriam estar condicionados à sua concordância com as ideias de quem a emprega. Transformar divergências políticas em critérios de exclusão profissional é uma forma de violência que não pode ser normalizada.
O mais curioso é que esse comportamento quase sempre vem acompanhado de um discurso de amor ao país. São pessoas que dizem lutar pelo Brasil, defender a liberdade, proteger a família e preservar os valores patrióticos, mas que parecem não encontrar espaço para a convivência com quem pensa diferente. Que país se pretende construir quando metade da população é tratada como inimiga pela outra metade? Que projeto de nação pode prosperar quando a identidade política se torna mais importante do que a dignidade humana? O patriotismo não deveria ser uma autorização para odiar o próprio compatriota.
E é impossível não questionar a distância entre esse comportamento e o discurso religioso tão presente em determinados setores da sociedade. Onde está o cristianismo, tão destacado nesses discursos, quando se deseja o desemprego de alguém por seu voto? Onde estão a tolerância, o acolhimento e o respeito aos ensinamentos tão associados à mensagem de Cristo?
Não se trata de exigir que religiosos sejam politicamente neutros, muito menos de impedir que professem suas convicções.
Trata-se de cobrar coerência entre aquilo que se prega e aquilo que se pratica. A fé não deveria ser um adereço de discurso, muito menos uma bandeira utilizada para justificar a hostilidade.
O Brasil não precisa que todos pensem da mesma maneira. Precisa, justamente, aprender a conviver com as diferenças.
Boicotes, ameaças, perseguições ideológicas e tentativas de silenciamento não fortalecem a democracia, não melhoram a economia e tampouco resolvem os problemas reais do país. Pelo contrário, aprofundam divisões, destroem relações, alimentam ressentimentos e afastam ainda mais as pessoas de qualquer possibilidade de diálogo. Uma sociedade em que o emprego, o consumo e até as relações pessoais passam a ser condicionados à concordância política é uma sociedade que perde sua capacidade de conviver.
Talvez seja hora de recuperar uma ideia simples, mas cada vez mais esquecida: ninguém precisa concordar com o outro para respeitá-lo. A democracia não existe para garantir que nossas ideias sempre prevaleçam, mas para assegurar que ideias diferentes possam coexistir. E, se existe alguma bandeira que deveria estar acima das disputas partidárias, é a da dignidade humana. De nada adianta dizer que se quer salvar o Brasil se estamos nos esquecendo de respeitar os brasileiros.
Bruno Moreira (@obrunocos) é publicitário, gestor de marketing e assessor de imprensa.
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