19.01.2016 | 00h00
Tudo que é exagero e enfatizado pelo excesso é anormal. Até o bem, se aplicado de maneira inadequada, deixa de ter tal aspecto. Vejo gente eufórica como criança que se lambuza com doces,ao se filiar a uma dissidência cristã, por exemplo, afirmar pejorativamente que ‘aceitou Jesus‘ e despreparadamente transitar tentando alienar os demais, além de posar como se fosse um modelo de religiosidade. Sendo que tudo que fez foi aceitar as regras de uma igreja, onde presta culto e cerimônias carregados de proibições e condições estereotipadas para conter as próprias pulsões do ego. De certa maneira o freio desacelera, mas é uma operação ‘tapa-buraco‘. Para quem assim age, se acha mais fácil submeter-se a regras externas do que conter-se e gerir os próprios impulsos.
Há indivíduo que procura religião não para aperfeiçoar-se na moral ou buscar entendimento sobre os mecanismos da fé e da vida, mas para esconder de si mesmo os impulsos ligados ao vício, a paixão e ao apego. É quando a religião passa a ser uma maquiagem na vida do transeunte que passa a viver com uma capa de um personagem que não o é. Muitas pessoas usuárias da citação ‘de que aceitou Jesus‘ reincidem nos desejos primitivos do vício, desrespeitam a diversidade da vida e facilmente julgam o próximo em detrimento aos estilos que combinam com os dogmas do rótulo religioso a que pertencem.
Lembra-se da paixão da adolescência? É uma passagem tão fugaz, em que há juras de ‘amor eterno‘como se fossem para sempre. Meses depois, o lance esfria e outros casos surgem. É o mesmo que acontece com um religioso empolgado com uma nova religião, sai como se quisesse convencer a todos e como se a religião dele fosse absoluta e detentora de uma verdade universal. Religião, como tudo na vida, só é bom para quem tem o preparo de permeá-la com equilíbrio, pois dessa maneira é que se conseguirá absorver tudo que ela poderá oferecer de conforto, encorajamento e reflexão. Mas, vivenciar apenas a empolgação de um rito ou de um discurso esfuziante é semelhante a fase de uma criança encantada quando se vê diante de um novo brinquedo.
O próprio fato de existir centenas de correntes religiosas provindas de um mesmo líder, seja no cristianismo, no budismo e nas demais grandes concentrações doutrinárias, é o resultado de diferentes interpretações sobre uma mesma diretriz, algo característico do ego humano. Não há uma doutrina melhor do que a outra, exceto a moral de quem a pratica. Aceitar Jesus, Buda, Maomé, Brahma, Confúcio ou qualquer outro mestre como orientador de condutas na vida, se for pelo caminho da naturalidade, não necessita de ligação com dogma religioso, tampouco com regras que os diferenciem uns dos outros.
Você conhece pessoas que se declaram agnósticas, mas que praticam caridade, tratam bem os familiares e colegas no trabalho? Conhece alguém que é ético, visita asilos, cria empregos, recolhe os impostos sem sonegação e não discrimina os outros pela orientação sexual, raça ou condição social? Então, ele só não tem religião. E quem disse que ela é condição imprescindível? Esses são os que aceitam o Ensinamento, a mensagem que os iluminados deixaram e não fizeram questão de cadastrar pessoas como seguidores deles, tampouco elegerem os que seriam supostamente salvos.
Sem dúvida, não são rótulos religiosos a garantia para o despertar da espiritualidade. Às vezes o título é uma fantasia que privilegia muito mais o orgulho e a vaidade. Seja a religião, um relacionamento, um trabalho voluntário, um partido político, ou quaisquer movimentos ou crença que o indivíduo procurar, que não seja para propiciar entendimento da natureza de si mesmo, provocando-lhe reforma íntima, se torna um aspecto alienante. Ou, um álibi para encobrir o que há de nefasto em si mesmo, fuga. Basta que a escolha feita deixe de atender as próprias carências ou tornar-se uma ameaça, que ele a abandona. Esse é o risco da euforia e do encantamento fácil. Há muita gente de moral ilibada que nenhum credo aprendeu até hoje, e ele nem necessita disso. Você a reconhece pelos resultados das ações a que apreendem.
Jair Donato é jornalista em Cuiabá, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br
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Fernanda - 11/11/2021
Nossa Professor, o senhor escreveu tudo o que eu gostaria de falar para tantas e tantas Pessoas!!! Muito obrigada!
1 comentários