22.06.2026 | 11h35
Divulgação
Hoje, podemos acessar as histórias e lutas de muitos de nossos ancestrais europeus, africanos e indígenas graças à tradição oral que possuíam, de repassar suas lendas, crenças, culturas, leis e memórias de geração em geração, e, com o surgimento da escrita, algumas foram registradas posteriormente em livros.
Somadas às tradições orais, a paleontologia e a arqueologia contribuem também para a formação da identidade dos povos, com suas diferenças e características próprias, definindo de fato quem são: a sua personalidade, às quais tribos pertencem, quais lutas empreenderam, quais erros cometeram e que levaram a tragédias, principalmente contra a própria liberdade, a vida e a autorrealização.
Na ponta encontram-se os museus. Dados da Unesco mostram que hoje existem cerca de 104 mil museus em todo o mundo. Em 1975, eram apenas 22 mil. Esse crescimento tem demonstrado a importância de se lutar contra o esquecimento e preservar a memória não só com acervos artísticos, documentos e coleções científicas, mas também com peças de passados obscuros. É o caso do museu de Auschwitz-Birkenau (Polônia), instalado no local onde existiu o maior campo de extermínio nazista, hoje transformado em memorial para que ninguém se esqueça das atrocidades ali cometidas em nome do totalitarismo, recebendo atualmente mais de 2 milhões de visitantes por ano.
Sobre o totalitarismo, a filósofa e escritora Hannah Arendt (1906–1975), nascida alemã, mas de origem judia, escreveu em seu livro “As origens do totalitarismo”: “O ideal do governo totalitário é transformar os homens em algo de tal modo desumanizado que eles se tornam incapazes de distinguir entre fato e ficção, entre verdade e mentira”.
No Brasil, temos o Memorial da Resistência de São Paulo, localizado no mesmo edifício onde funcionou o Deops/SP (Departamento de Ordem Política e Social), fundado em 1924 e extinto aos poucos ao longo da década de 1980. Em 2015 foi criado o Memorial da Democracia, um museu virtual que registra casos de repressão política no Brasil e que trata o golpe militar de 1964 como “a maior tragédia histórica da política brasileira com mais de 400 brasileiros mortos pelos órgãos de repressão e outros milhares torturados, com direitos de expressão e de manifestação suprimidos”.
Enfim, deixo aqui a reflexão de um filósofo da atualidade, o Elias Dourado, mestre em Filosofia e doutor em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB): “O esquecimento é perigoso porque ele não apaga apenas fatos antigos. Ele reorganiza o presente. Quando uma sociedade esquece suas violências, ela perde a capacidade de reconhecer os sinais de sua repetição. O passado não volta exatamente igual, mas retorna por máscaras novas: discursos autoritários, naturalização da desigualdade, desprezo pelos direitos humanos, perseguição de minorias, violência política, racismo, revisionismos e ataques às instituições democráticas. Por isso, preservar a memória histórica não é culto ao passado. É uma forma de proteger o futuro”.
Eis, portanto, por que o esquecimento histórico é muito perigoso para a democracia.
Maria Félix Fontele é jornalista, escritora e autora de “Labirintos do caos”, livro de contos de ficção especulativa que reflete sobre as relações entre memória e esquecimento no Brasil
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