crime antigo com novo nome 01.03.2026 | 07h30

maria.klara@gazetadigital.com.br
Reprodução
O feminicídio segue como uma das expressões mais extremas da violência de gênero no Brasil. Apesar dos avanços legais e do aumento do debate público, os números continuam elevados, especialmente em Mato Grosso, que há anos figura entre os que apresentam as maiores taxas proporcionais do país. A maioria das mortes ocorre dentro de casa e é cometida por parceiros ou ex-parceiros, revelando que o risco está, muitas vezes, nas relações mais próximas.
A morte de mulheres não é fato isolado. Especialistas apontam que o feminicídio é resultado de estruturas históricas de desigualdade, de padrões culturais que naturalizam o controle masculino e de falhas persistentes na proteção das mulheres. Para compreender por que esse tipo de violência se mantém e quais fatores sociais ajudam a explicá-la, o
ouviu a cientista política e doutora em Sociologia Christiany Fonseca, que analisa o fenômeno sob a perspectiva da sociologia, do gênero e do poder.
GD: O que explica a persistência do feminicídio no Brasil?
Christiany: O feminicídio não pode ser compreendido como um ato isolado ou uma explosão emocional individual. Ele é resultado de uma estrutura histórica de desigualdade de gênero que organiza poder, autoridade e expectativas sociais. A sociedade brasileira foi construída sobre bases patriarcais, nas quais o masculino foi associado ao comando e o feminino à subordinação.
Esse crime é o ponto extremo de um processo que começa muito antes da agressão física. Ele se inicia na naturalização do controle, na legitimação do ciúme possessivo e na ideia de que o homem deve exercer autoridade sobre a companheira. Quando práticas de vigilância e dominação são confundidas com cuidado ou amor, cria-se o terreno onde a violência se desenvolve.
GD: Nas décadas passadas havia tantos casos quanto hoje ou os dados eram invisibilizados?
Christiany: A violência letal contra mulheres sempre existiu em níveis elevados no Brasil, mas parte significativa dela foi historicamente invisibilizada. Antes da tipificação do feminicídio, os assassinatos eram registrados como homicídios comuns, sem destaque para a motivação de gênero.
Além disso, a categoria “crime passional” funcionou por décadas como mecanismo de suavização simbólica. Ao atribuir o assassinato a um impulso emocional, a narrativa social relativizava o ato e obscurecia a estrutura de dominação presente na relação. O feminicídio não é um fenômeno novo; o que é recente é sua nomeação e centralidade no debate público.
GD: Como explicar o aumento expressivo de casos em Mato Grosso, especialmente em 2020?
Christiany: Em Mato Grosso, 2020 marcou um salto significativo nos casos, com 62 feminicídios, contra 39 em 2019. Esse aumento coincide com o início da pandemia de covid-19 e as medidas de isolamento social.
O confinamento ampliou a convivência forçada entre vítimas e agressores, reduziu o acesso às redes de apoio e dificultou o funcionamento dos serviços de proteção. O isolamento não criou o agressor, mas retirou da vítima mecanismos cotidianos de proteção. A pandemia atuou como catalisador de uma estrutura de violência já existente.
GD: A sociologia explica o que leva homens a cometer feminicídio?
Christiany: Sim. A sociologia não trata o feminicídio como explosão emocional, mas como resultado da socialização masculina, das hierarquias de gênero e dos mecanismos de controle nas relações íntimas.
Muitos homens são socializados para associar identidade masculina a autoridade e comando. Quando a autonomia feminina é vivida como afronta, a violência pode surgir como tentativa de restabelecer poder. Não é apenas o fim de uma relação, mas a ruptura de uma hierarquia.
GD: É possível identificar padrões comuns nos casos de feminicídio?
Christiany: Não existe um perfil psicológico único, mas há padrões relacionais recorrentes. A maioria dos feminicídios é cometida por parceiros ou ex-parceiros e ocorre dentro do ambiente doméstico.
O crime costuma ser o final de uma escalada de violências anteriores, marcada por controle coercitivo, ameaças, isolamento e perseguição. O risco aumenta especialmente em momentos de ruptura, como separação, tentativa de denúncia ou reconstrução da vida da mulher.
GD: O feminicídio pode ser considerado um fenômeno político?
Christiany: Sem dúvida. O feminicídio é político porque expressa, no grau máximo, como o poder circula entre homens e mulheres na sociedade. Quando uma mulher é morta por decidir terminar uma relação ou exercer autonomia, trata-se de uma disputa por autoridade.
Ele também é político porque produz efeitos coletivos. Envia uma mensagem social de medo e disciplina a outras mulheres. Além disso, expõe a distância entre igualdade formal e igualdade real. Quando o Estado falha em interromper a escalada da violência, essa omissão tem consequências concretas. O feminicídio não é tragédia privada; é sintoma estrutural de uma hierarquia de gênero ainda persistente.
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