cesarianaS SÃO O DOBRO DOS PARTOS 'NORMAIS' 29.03.2026 | 07h00

ana.frutuoso@gazetadigital.com.br
Imagens/TV Brasil
O Brasil registrou, em 2025, um número significativamente maior de cesarianas do que de partos vaginais, cenário que reacende o debate sobre o modelo de assistência obstétrica, o direito de escolha das mulheres e a necessidade de informação durante o pré-natal. Em Mato Grosso, os dados seguem a mesma tendência: foram contabilizados 25.538 partos cesarianos contra 12.505 partos vaginais no ano passado.
Para a ginecologista e obstetra Giovana Fortunato, professora da Universidade Federal de Mato Grosso e especialista em endometriose e infertilidade, em entrevista ao
, a escolha pela cesariana muitas vezes não está ligada apenas a questões médicas, mas a um conjunto de fatores culturais, sociais e estruturais presentes no sistema de saúde brasileiro.
Segundo a médica, a decisão sobre o tipo de parto deveria ocorrer com base em evidências científicas e com acompanhamento profissional adequado, respeitando a autonomia da gestante. No entanto, diversos elementos acabam influenciando essa escolha.
Gazeta Digital - Na sua experiência, por que muitas mulheres ainda optam pela cesariana em vez do parto normal?
Giovana Fortunato - A escolha pela cesariana em vez do parto normal, mesmo quando não há indicação médica estrita, é um fenômeno complexo influenciado por fatores culturais, psicológicos e estruturais, especialmente no Brasil.
A decisão sobre o tipo de parto deve considerar informações baseadas em evidências, com apoio profissional adequado e respeito à autonomia da gestante.
Gazeta Digital - Existe uma cultura no Brasil que acaba normalizando a cesárea como primeira opção de parto?
Giovana Fortunato - Sim, existe uma forte cultura que normaliza a cesárea como primeira opção de parto, tornando o país um dos líderes mundiais nesse procedimento. Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomende que a taxa de cesáreas seja de cerca de 15%, o Brasil registra índices muito superiores, com cerca de 55% a 67% dos partos ocorrendo por via cirúrgica, chegando a mais de 80% na rede privada. A normalização da cesárea no Brasil é impulsionada por diversos fatores culturais, médicos e sociais.
Gazeta Digital - O medo da dor ou relatos negativos de parto normal influenciam nessa escolha das gestantes?
Giovana Fortunato - Dar à luz é uma das experiências mais marcantes da vida. No entanto, muitas gestantes sofrem de medo do parto (MP) e vivenciam o trabalho de parto de maneiras muito diferentes, dependendo de sua personalidade, experiências de vida anteriores, gestação e circunstâncias do parto.
O medo do parto pode flutuar durante a gravidez, com até 80% das mulheres experimentando alguma forma de medo relacionado ao parto em algum momento, que se torna mais intenso nas últimas semanas de gravidez. As possíveis causas do medo do parto estão relacionadas a diversos fatores, como as condições pessoais, internas e externas das mulheres, ou seja, problemas de saúde mental (como transtornos de ansiedade) e experiências anteriores de trauma e abuso. Além disso, as circunstâncias sociais, como o apoio social insuficiente, o desemprego e os problemas econômicos, influenciam a probabilidade de desenvolvimento do medo do parto.
Gazeta Digital - Acredita que as mulheres recebem informação suficiente durante o pré-natal para decidir de forma consciente sobre o tipo de parto?
Giovana Fortunato - A informação é um direito, mas muitas mulheres brasileiras ainda enfrentam barreiras estruturais, culturais e de tempo nas consultas pré-natais que dificultam uma decisão verdadeiramente livre e consciente, muitas vezes resultando em cesarianas sem indicação clínica clara. Quando a gestante entende as fases do trabalho de parto, os recursos disponíveis para aliviar o desconforto e os benefícios de cada escolha, ela se sente mais confiante e segura. Esse conhecimento fortalece a autonomia da mulher e também da rede de apoio, permitindo que o nascimento seja vivido de forma mais respeitosa e consciente.
Gazeta Digital - A estrutura dos hospitais e maternidades influencia no aumento de cesarianas?
Giovana Fortunato - Sim, a estrutura dos hospitais e maternidades influencia significativamente o aumento das taxas de cesarianas, funcionando muitas vezes como um fator indutor, especialmente na rede privada. Estudos indicam que o ambiente institucional e sua organização interna (gestão, recursos e cultura profissional) impactam mais a via de parto do que os fatores de risco da gestante. A forma como a estrutura influencia o aumento das cesarianas ocorre através dos seguintes fatores:
- Tipo de Financiamento (Privado vs. SUS)
- Tipos de agendamento
- Falta de Suporte para Parto Normal
- Volume de Partos
- Cultura Institucional
Gazeta Digital - Há diferenças na condução do parto entre a rede pública e a privada que impactam esses números?
Giovana Fortunato - As principais disparidades residem na cultura de assistência, no modelo de intervenção e na autonomia da gestante, resultando no fato de que a rede privada apresenta taxas de cesárea de até 80-90%, enquanto no SUS esse número é menor, embora ainda acima da recomendação da OMS (15%). A maior parte dos partos na rede privada é cesárea por opção, facilidade logística, desejo da paciente, cada profissional respeitando os protocolos instituídos no Hospital e Maternidade, enquanto na rede pública, apesar de altas, as cesarianas costumam ser justificadas por indicação médica com mais rigor seguindo protocolos institucionais . Estudos indicam que o "Parto Adequado", programa do governo, tem tentado reduzir as taxas de cesárea na rede privada, promovendo um modelo de assistência mais baseada em evidências científicas.
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